Lá vem o cometa do século, quiçá suicida

Salvador Nogueira
Cometa Ison fotografado pelo Telescópio Espacial Hubble em abril

Ele está sendo chamado por alguns de “o cometa do século”, diante do espetáculo que poderá nos dar em 2013. Mas talvez tudo não passe de um grande fiasco. Como todo cometa, só saberemos na hora. Que, no caso, deve ser lá para o fim de novembro. Se as previsões mais otimistas se confirmarem, talvez dê até para vê-lo à luz do dia.

O Ison foi descoberto em 24 de setembro do ano passado por dois astrônomos amadores, um na Bielorrússia e o outro na Rússia. Como ambos faziam parte de um grupo que, em inglês, é chamado de International Scientific Optical Network, o objeto acabou ganhando a sigla da rede como nome.

De cara, o cometa já tinha uma característica muito interessante. Sua rota parecia muito similar à de um outro objeto do mesmo tipo que teve importância histórica: um cometa visto no longínquo ano de 1680 e que foi fundamental para que sir Isaac Newton saísse do armário.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Não o armário que você está pensando –dizem as más línguas que o brilhante físico inglês morreu virgem–, mas o que dizia respeito a assumir a paternidade da lei da gravitação universal. Newton era um sujeito bem reservado (de fazer muita inveja aos nerds atuais) e tinha verdadeiro pavor de críticas. Então, quando fazia algum trabalho importante, de pronto guardava no armário. Literalmente.

Foi só quando Edmond Halley, um famoso astrônomo daquela época, perguntou casualmente se ele já havia calculado a trajetória do cometa de 1680 que Newton revelou já ter determinado que se tratava de uma parábola, conforme sugeriam as equações da gravitação que ele havia elaborado.

“Opa, opa, opa! Como assim, equações da gravitação?”, questionou Halley. Newton disse que devia ter o cálculo guardado em algum lugar, mas nunca o localizou. Em vez disso, rescreveu a coisa toda, e Halley ficou tão empolgado que o encorajou a elaborar mais. O que nasceu disso foram os “Principia Mathematica”, uma obra de três volumes que mudou para sempre a história da física.

Halley também foi um grande beneficiário do trabalho de Newton. Usando as equações, ele pôde prever a periodicidade de 76 anos do cometa que mais tarde levou seu nome –provavelmente o mais famoso desses objetos, embora tenha também produzido um fiasco em sua última aparição, em 1986 (eu estava de olho, e foi uma sem-gracice terrível).

A FONTE DOS COMETAS

O Ison pode muito bem ser um parente do cometa de 1680 –ou seja, um pedaço do mesmo objeto maior que deu origem também ao cometa visto no século 17. Ambos devem ser originários da nuvem de Oort, uma região cheia de restos da formação do Sistema Solar, muito além da órbita dos planetas. Se for esse o caso e os dois cometas forem parentes mesmo, estaremos observando algo como um tio-avô cósmico do trabalho de Newton.

Ou não. Para darmos essa boa olhada, ele vai precisar sobreviver ao seu encontro com o Sol. Em sua rota parabólica, o Ison vai passar a apenas 1,2 milhão de quilômetros da superfície solar em 28 de novembro de 2013. Isso é menos de um centésimo da distância entre a Terra e o Sol. E, como você pode imaginar, uma pedra de gelo (definição mais rasteira de cometa, um objeto de rocha e gelo remanescente da formação do processo de formação dos planetas) não deve se animar muito de passar tão perto assim de uma estrela fervilhante. Mesmo que tenha os respeitáveis 5 km de diâmetro estimados pelos astrônomos.

Das duas uma. Ou uma boa parte do gelo derrete e produz uma cauda fantástica, ou o cometa se despedaça e a graça vai toda embora. Veremos em novembro, a época que será melhor para vê-lo.

DICAS DE OBSERVAÇÃO

A ideia é procurá-lo na direção do nascente, pouco antes do nascer do Sol, umas duas semanas antes do chamado periélio (o ponto de máxima aproximação com o Sol), em 28 de novembro. Se o cometa atingir o brilho esperado, deve atingir o mesmo brilho de uma lua cheia e ser visível a olho nu mesmo à luz do dia no final de novembro.

Mas, claro, é extremamente complicado estimar o brilho de cometas. Pode ser que ele se despedace e nada se veja. O Telescópio Espacial Hubble, que não tem esse problema todo que nós temos com a atmosfera terrestre para ver o céu, já tirou uma foto bonitona dele em abril (é a que ilustra este artigo, lá em cima), quando ele estava ainda pelos arredores da órbita de Júpiter, em desabalada carreira na direção do interior do Sistema Solar.

E, apesar de cometas terem sido tratados historicamente como sinais de mau agouro durante as épocas mais supersticiosas de nossa civilização, não custa alertar: o objeto não traz perigo algum, não vai trombar com a Terra e promete apenas entreter e educar quem estiver disposto a caçá-lo no céu.

Comentários

  1. Salvador, peço licensa para discordar do seu comentário sobre o Halley.. Boa parte da decepção veio de um entendimento errado da imprensa e de alguns “especialistas” sobre a melhor época para se vê-lo. Não era a maior aproximação da Terra, quando a cauda estaria alihada com nossa a linha de visada, mas algum tempo antes e depois. Acordava meu filhos quase todos os dias para verem o cometa, no mes de março. Também apresentei o cometa para alguns jornalistas – uma até chorou. Mas ele esteve realmente soberbo, e quase todo mundo ignora isso, no fim de abril. Sua clada chegou a ocupar talvez um terço do céu. Minha sogra se deitou no quintal e ficou bem uma hora contemplando a beleza que pouca gente viu, já que a rede Globo já tinha dito que era um fiasco. Aliás, quando dava explicações sobre como e quando ver o cometa recebia como resposta que a telvisão tinha dito outra coisa. O Fantaśtico gravou mais de 12 horas comigo e levou 5 min dos trapalhôes no Pão de Açucar. É por aí…

  2. Tomara mesmo que quando chegar a hora poderemos ver o cometa radiante no ceu, claro que aqui onde moro , no rio, é complicado, mas não custa tentar. A poluição e a atmosfera densa são barreiras mas a maior delas é a luz das cidades.
    Newton disse a Halley, que era uma parábola, mas depois saberemos que na verdade cometas que (provavelmente) vem da nuvem de oort preescrevem elipses.
    Salvador tenho o seu livro rumo ao infinito e e agradeço por escreve-lo, pois o livro é muito bom e informativo. Aprendi muito ao le-lo, parabéns!

  3. Parabéns pelo blog! Textos excelentes, bem temperados.Espero que tenha vida longa e muito sucesso!

  4. Sou fã incondicional das aparições de astros.
    Belo texto.
    Oxalá possamos ver esse Cometa!

  5. Prezado Salvador, esta notícia é bem auspiciosa! Para mim, observar o céu, é essencial. Agora, uma questão: caso o cometa seja visível da Terra, quais os melhores pontos de observação, aqui no Brasil? Em caso afirmativo, qual o mais próximo de São Paulo? Grato e parábens pela matéria.

  6. Muito bem feita a matéria, parabéns por explicar, sem aborrecer! A propósito, também fiquei decepcionada com o Halley.

  7. Show de texto! Tomara q esse ISON n acabe virando apenas nome de transportadora, igual ao seu primo Halley. Exigo dessa vez um cometa esplendoroso para que eu não perca o meu tempo com a cara pra cima!

  8. Salvador, parabéns pela matéria e forma de narrativa. Além de informar e educar, também diverte.
    Também me lembro de aguardar o show do Halley em 86. Estava na 4a. série do antigo 1o. grau e fizemos um trabalho sobre o cometa. No meu trabalho eu colei 2 cartolinas lado a lado, pra conseguir fazer a cauda longa e brilhante que esperávamos presenciar à epoca.

  9. Em 1986, tive a felicidade de ver, por duas noite seguidas o Cometa Halley. As previsões dos entendidos, na época, era que ele atingiria o seu melhor momento para ser visto entre os dias 10 a 12 de abril. E foi justamente, um mês antes, no nos dias 11 e 12 de março, que eu estava com alguns amigos numa fazenda e conseguimos visualizar, de madrugada, num céu estrelado por demais, aquele cometa maravilhoso, e ficamos admirando até o amanhecer. Uma pena que não tínhamos a tecnologia de hoje, para filmar, fotografar, etc. Quando foi em abril, na data prevista, realmente foi um fiasco. Bons tempos…

  10. Apenas uma observação; quando se fala em Cauda do comêta, imagina-se algo que vem atrás, no rastro, quando na verdade a dita Cauda é sem pre contrária à luz do sol, Ou seja, quando o cometa se aproxima do Sol, a Cauda vem atrás, mas, quando ela passa e se vai, a cauda vai na frente, porque ? Ora, imagino que os cometas sejam formados por um núcleo e uma imensa esfera de gases ao redor, onde a sombra do núcleo, formada pela luz solar constitui-se na chamada Cauda.

  11. Sou de 1987, e ainda não vi um cometa realmente fascinante a olho nú, lembro do Hale Bopp, foi legal, mais como estamos no hemisfério sul, não foi tão surpreendente como no norte, nada como o mito Halley do início do século XX que tanto ouvi falar… É esperar para ver…

  12. Pergunta: se ele passam assim “tão perto” do Sol, significa que aos poucos vai perdendo massa até um ponto que não exista mais? Isso com todos?

  13. Vale lembrar que a relação entre Edmiund Halley e Sir Isaac Newton foi bem tempestuosa. Newton que chegou a ser ministro da fazenda do império britânico chegou a abusar do poder para confiscar os registros astronômicos de Halley!!!

  14. Sou de 1987, e ainda não vi um cometa realmente fascinante a olho nú, lembro do Hale Bopp, foi legal, mais nada como o mito Halley do início do século XX que tanto ouvi falar… É esperar para ver…

  15. Na verdade o cometa Halley não foi tão decepcionante assim. Não foi todo aquele espetáculo que havia sido anunciado, mas pode ser visto traquilamente a olho nu e ficou diversos dias visível no céu. Em meus 41 anos de vida não vi nenhum outro cometa que oferecesse toda esta facilidade de observação.

  16. Parabéns pelo seu belo texto. Muito legal a abordagem e as provocações.
    Sou diretor de programas de TV e fiz a série OLHANDO PARA O CÉU pra TV Cultura em parceria com o Walmir Cardoso.
    Sonho em voltar para novas produções desse universo. Quem sabe podemos falar sobre novas idéias.
    Abraços

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