Mensageiro Sideral

De onde viemos, onde estamos e para onde vamos

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Besouros astrônomos e astronautas santos

Por Salvador Nogueira

Saíram os ganhadores do Prêmio Ig Nobel de 2013. Na categoria de Física, venceu o estudo que mostrou que é possível para um homem caminhar sobre a água, contanto que esteja na Lua. Na categoria de Biologia e Astronomia, foi premiada a pesquisa que mostrou que os besouros rola-bosta (não ria ainda, é o nome dos coitados) usam a Via Láctea para achar o caminho de casa.

A definição do Ig Nobel é perfeita: “premiar feitos que primeiro fazem você rir, depois pensar”. E essas duas quase piadinhas científicas dão um bocado em que pensar. Coisa séria. Do naipe “de onde viemos e para onde vamos”. Não acredita? Vamos lá. A começar pelo besouro.

POR QUE O CÉU É BONITO?

Uma das coisas que mais encantam as pessoas (e ajudam o Mensageiro Sideral a ganhar a vida) são as belas imagens retratando objetos celestes.

Pois bem, legal. Mas por que o céu é bonito? Por que achamos a abóbada celeste, salpicada de pontinhos de luz, uma coisa esteticamente agradável? Por que o cosmos caiu no gosto popular?

Entra em cena o nosso queridíssimo besouro rola-bosta. Temos de aceitar que, além do nome infame e do hábito desagradável de se alimentar de excrementos, esse bichinho não deve possuir grandes noções de estética. (Alguém imagina um besouro à la Marcel Duchamp, defendendo a arte pela arte? E olhe que Duchamp achava que uma privada podia ser arte! Com certeza ele se identificaria com o rola-bosta.)

Falta ao animal — o besouro, não o Duchamp — um cérebro devidamente dotado da capacidade de abstrair e racionalizar, permitindo derivar daí conceitos sofisticados como a estética.

Contudo, há um fator instintivo importante em operação no surgimento das noções de beleza. Muitas vezes, é possível saber o que é belo sem entender o porquê. Como? Voltemos ao Ig Nobel.

Para encontrar suas tocas, os besouros precisam olhar para o céu. Como são incapazes de pensar, eles precisam gostar de olhar para o céu. Aí você imagina que, num passado longínquo, havia besouros com “genes para a astronomia” e outros sem os dito cujos. A seleção natural se encarregou do resto: os insetos-astrônomos usavam a faixa conhecida como Via Láctea — que atravessa o céu inteiro, de lado a lado — para estimar a direção de suas tocas, enquanto os demais morriam, perdidos por aí. Resultado: só sobreviveram os que curtiam o céu.

Será que isso explica nosso fascínio pelas estrelas? Bem, é presumível que gostar de olhar para o céu tenha tido vantagens evolutivas para os nossos ancestrais. Não é difícil pensar que um céu estrelado fosse, para o pessoal que morava em cavernas centenas de milhares de anos atrás, um sinônimo de noite tranquila, sem tempestades ameaçadoras.

É fato demonstrado pela ciência que dias nublados deixam as pessoas deprimidas, o que também reforça essa ideia. O céu talvez não seja intrinsecamente bonito; em vez disso, nós fomos moldados pela evolução para ver nele a graça. É a tal história: a beleza está sempre nos olhos de quem vê.

Claro, isso não explica por que objetos só visíveis telescopicamente — e portanto fora do alcance das garras da seleção natural — sejam repletos de beleza aos nossos olhos. Resta aí um mistério (ou uma coincidência) que evoca as mais diversas reflexões, inclusive de ordem religiosa.

O AMBIENTE E A CULTURA

O que nos leva à segunda pesquisa, quase uma confirmação independente de que Jesus Cristo pode mesmo ter andado sobre o mar da Galileia. Bastava para isso ter reduzido a força gravitacional local. (Os que defendem a ideia de que Jesus foi um extraterrestre vão vibrar com essa premissa saída diretamente da ficção científica!)

OK, nem nós hoje temos a tecnologia para isso, quanto mais Jesus 2.000 anos atrás. O episódio bíblico deve continuar firmemente enraizado na categoria dos milagres. Mas o estudo mostra o quanto o incrível de um lugar pode ser o corriqueiro de outro, se você tem o universo inteiro como playground.

Na verdade, Cristo não teria arrancado suspiros se tivesse vindo ao mundo na forma de algum outro animal, como uma mosca, uma aranha ou até um lagarto. Essas criaturas correm sobre a água sem afundar rotineiramente, aqui mesmo na Terra.

Isso é possível por conta da tensão superficial — o fato de que as moléculas de água tendem a manter a coesão umas com as outras, fornecendo uma superfície que pode sustentar, ainda que por pouco tempo, criaturas um pouquinho mais densas do que ela mesma.

O trabalho mostra que, do mesmo jeito que um lagarto consegue correr, um ser humano também conseguiria — se a gravidade fosse menor. Eles mostraram que, na Lua, onde a gravidade é de um sexto da terrestre, não seria complicado para um aspirante a Jesus correr pela superfície de um lago.

Bem, um problema para isso é que não existem lagos (ou homens) na Lua. Mas e quanto ao futuro? Não há nada que impeça que, em um ou dois séculos, haja uma colônia lunar, protegida por uma grande redoma, onde não seria problema abrigar um lago artificial. Lá, poderemos ver o surgimento de outros esportes, proibidos pela física na Terra, como o atletismo aquático.

Crianças vão se divertir brincando de pega-pega sobre a água. Ou um jogo ainda mais divertido: quem afundar, perde. E por aí vai.

A cultura humana pode se desdobrar em novas formas e ideias, a partir do momento em que deixamos nosso planeta de origem e passamos a habitar outros corpos celestes. Para esses humanos do futuro vivendo na Lua, o milagre de Cristo não será tão impressionante quanto é para nós hoje. A cultura é também moldada pelas leis da física.

O besouro astrônomo ilumina o caminho de onde viemos. O caminhante sobre a água ilumina a rota para onde vamos.

Tudo isso, partindo de duas pesquisas ganhadoras do Ig Nobel. Dá pro gasto?

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