Mensageiro Sideral

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Voyager: antes e depois

Por Salvador Nogueira

É impressionante como as sondas Voyager mudaram a compreensão do Sistema Solar. Uma revolução quase tão impactante quanto a de quem viveu a missão durante todos esses anos.

Após 36 anos, Voyager-1 deixa o Sistema Solar

Quando eu era criança, lá no início dos anos 1980, eu já sonhava com outros mundos e viagens espaciais. Eu me debruçava sobre um livro antigo que muita gente até hoje conhece — a enciclopédia “Conhecer” — e passava horas admirando a página dupla que falava sobre o Sistema Solar.

A edição que tinha em casa era de 1966 — 13 anos mais velha que eu — e mostrava um sistema planetário bem diferente do que viemos a conhecer mais tarde. Tudo por causa das Voyagers.

Depois dê uma clicada na imagem ao lado para ampliar e ler o texto. É divertido saber o que se dizia dos planetas — que eram nove, Plutão incluído — naquela época (duas revisões ortográficas do português brasileiro atrás).

LONGA VIAGEM

A Voyager-1 passou por Júpiter em 1979, e por Saturno em 1980. A Voyager-2 chegou ao maior planeta do Sistema Solar pela mesma época, mas levou um pouco mais de tempo para atingir seu vizinho cercado de anéis, chegando só em 1981.

Depois disso, a Voyager-1 foi ejetada (pela gravidade de Saturno) para fora do plano do Sistema Solar, enquanto sua irmã gêmea foi direcionada para Urano e, depois, para Netuno. Era a realização do sonho de um grande tour dos planetas mais distantes, só possível graças a um fortuito e raro alinhamento planetário. A cada passagem, a gravidade do planeta visitado empurrava a Voyager-2 na direção do próximo.

A Voyager-2 chegou a Urano em 1986, e foi nesse momento — com 7 anos — que travei contato com a missão. Lembro-me de ver as imagens espetaculares pela televisão e automaticamente me apaixonar por aquela espaçonave que me permitia ir além daquele esboço cheio de lacunas das páginas da “Conhecer”.

A mesma sensação eu tive três anos depois, quando a sonda atingiu Netuno. Era a realização de um sonho poder conhecer — junto com o resto do mundo — o oitavo planeta do Sistema Solar. Lembro-me também da frustração que foi saber que a Voyager-2 não passaria por Plutão para completar a coleção. (Em 2009, encurtaram a coleção ao cortar Plutão da lista; mesmo assim, a sonda New Horizons está para chegar lá, em 2015, e realizar meu sonho de infância.)

JÚPITER

O maior planeta do Sistema Solar era outro antes da visita das Voyagers. Júpiter, pelo “Conhecer” de 1966, tinha 12 satélites. Antes das sondas passarem por lá, mais um havia sido descoberto. Três foram achados pela missão, totalizando 16. E assim ficou até 1999, quando a contagem começou a aumentar graças às melhorias nos telescópios. Hoje são 67, e ninguém duvida que existam outros.

A revolução das Voyagers, contudo, não foi descobrir luas, mas estudar as que já conhecíamos. A sonda descobriu que Io, a mais interna das luas jovianas, sofre com intensa atividade vulcânica, e que Europa deveria ter um oceano de água sob sua crosta de gelo — especula-se hoje que possa até haver vida por lá.

É difícil expressar o tamanho dessas descobertas. De uma hora para outra, Júpiter e suas luas se tornavam uma espécie de sistema planetário em miniatura, cheio de variedade e riqueza de detalhes.

As sondas estudaram a turbulenta atmosfera de Júpiter e pela primeira vez fotografaram os discretos anéis que circulam o maior gigante do Sistema Solar.

SATURNO

As Voyagers acharam três novas luas saturninas, elevando o total a 17 (apenas 9 eram conhecidas na época da publicação do “Conhecer”). Hoje a contagem está em 62.

O que mais chamou a atenção, contudo, foi o estudo dos anéis, que antes se pensava serem três, e a Voyager revelou que na verdade são incontáveis, compostos por pequenos detritos, e que sofrem ondulações influenciados pela gravidade de luas vizinhas.

Além disso, a Voyager revelou a atmosfera densa da lua Titã, a segunda maior do Sistema Solar, com nuvens e chuvas de metano. Especula-se atualmente que Titã seja uma réplica “congelada no tempo” do que foi a Terra primitiva, no início da formação dos planetas. Em 2005, a sonda Huygens, da agência espacial europeia mergulhou atmosfera adentro e tirou fotos do solo de Titã — primeira vez que uma sonda pousa numa lua que não a nossa.

URANO

A Voyager-2 adicionou nada menos que 10 luas ao sétimo planeta e revelou que ele também tinha mais dois finos anéis, além dos que já eram conhecidos. Hoje são conhecidas 27 luas naquele mundo.

A sonda também investigou em detalhe o clima em Urano — um planeta estranho, porque gira “deitado”, com o eixo de rotação apontado para o Sol. Isso quer dizer que o pólo recebe mais luz que o equador! Ainda assim, a sonda mostrou que a temperatura de sua atmosfera é mais ou menos homogênea, revelando uma dinâmica interessante.

NETUNO

A Voyager-2 estudou em detalhe a Grande Mancha Escura do oitavo planeta — uma tempestade com ventos de 1.600 km/h! Além disso, investigou gêiseres criogênicos em Tritão, a maior das luas netunianas. Foi o último objeto a ser visitado pela sonda antes da jornada rumo ao espaço interestelar.

A sonda encontrou cinco novas luas em Netuno, de um total de 14 conhecidas hoje.

NAS PROFUNDEZAS

Eu cresci fascinado pela Voyager. E hoje tenho a oportunidade de trabalhar reportando as novas descobertas da sonda, que está há 36 anos no espaço, audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve!

Ela transformou o entendimento da nossa vizinhança cósmica e levou uma mensagem de esperança a todos que vivenciaram seus sucessos. Ontem, disparei um e-mail a Ed Stone, cientista que está com a missão desde o início e virou sinônimo do projeto.

Depois de solicitar comentários sobre o estudo que mostrou que a Voyager-1 havia atingido o espaço interestelar, não pude me furtar a agradecê-lo.

“Eu sou um apaixonado pela missão Voyager. Não apenas pela ciência brilhante e pelas lindas imagens, mas pela aventura: ela é, de verdade, nosso primeiro passo para as estrelas… obrigado pela inspiração todos esses anos.”

Kirk e Spock encontram a Voyager, para minha alegria completa

Espero ainda ter o que falar da Voyager nos próximos anos (ela vai continuar operando pelo menos até 2020), mas sinto uma nostalgia incontida ao pensar no que ela representou e representa, até hoje, na minha vida.

É como os dizeres que fecham “Jornada nas Estrelas: O Filme”, que a propósito tem uma sonda Voyager como protagonista: a aventura humana está apenas começando. Dá arrepios pensar nisso e imaginar qual será a Voyager do meu filho, dos filhos dele e dos filhos dos filhos dele.

E não importa o que acontecerá à humanidade nos próximos dez milhões de anos. As Voyagers estarão viajando pela Via Láctea, como um monumento perene à civilização que as projetou. A humanidade está, desde já, eternizada nas estrelas.

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