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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Índia agenda teste de nave tripulada

Por Salvador Nogueira
Concepção artística do Veículo Orbital indiano, que terá seu primeiro teste em 2014
Concepção artística do Veículo Orbital indiano, que terá seu primeiro teste em 2014.

Se alguém ainda duvidava que China e Índia estão em sua corrida espacial particular, agora não há mais por que questionar. A ISRO, a “Nasa” indiana, acaba de anunciar o primeiro voo de sua própria espaçonave destinada a colocar seres humanos em órbita.

O lançamento-teste da cápsula, construída pela empresa HAL (Hindustan Aeronautics Limited), deve acontecer entre abril e junho deste ano, embarcado num foguete GSLV Mark III, também desenvolvido pela Índia, e em fase de voos experimentais.

O custo do projeto até agora excedeu a marca de US$ 4 bilhões, em oito anos. Os estudos preliminares de design foram iniciados em 2006 — três anos depois que os chineses se tornaram o terceiro país a desenvolver a capacidade de colocar astronautas em órbita, igualando os feitos de russos (1961) e americanos (1962).

A primeira missão — naturalmente não-tripulada — testará sistemas de controle, navegação e pouso, num voo suborbital. Caso tudo dê certo, o próximo passo será testar o suporte de vida, controle ambiental e sistema de escape da tripulação (em caso de falha no lançamento). Só então eles poderão começar a cogitar o envio dos primeiros astronautas. Segundo analistas, é possível que isso só venha a acontecer por volta de 2020, em razão de dificuldades com o potente lançador, embora os planos originais previssem uma missão tripulada já em 2016.

Será a cápsula tripulada mais modesta em operação, mas ainda assim trata-se de um grande feito do programa espacial indiano, que vai bem além desse projeto. O país tem um programa robusto de exploração interplanetária. Sua primeira sonda lunar, Chandrayaan-1, foi lançada em 2008 e operou em órbita durante um ano. No ano passado, os indianos lançaram sua Mars Orbiter Mission (MOM), também chamada de Mangalyaan. A espaçonave está a caminho do planeta vermelho, e até agora tem sido um sucesso.

Em 2017, deve partir a Chandrayaan-2, que levará um jipe até a superfície da Lua. (Qualquer semelhança entre os passos chineses no espaço, cujo último grande feito foi levar o rover Yutu à superfície lunar no fim do ano passado, não é mera coincidência.)

VALE A PENA?

É natural que muitos se perguntem: num país com 1,2 bilhão de habitantes, a maioria mergulhada na pobreza, é indecente a Índia investir em exploração espacial? Não só não é nada vergonhoso, como é visionário.

Ao contrário do que se costuma pensar, a exploração espacial não consome recursos. Ela gera recursos. Estudos nos Estados Unidos mostraram que, para cada US$ 1 investido pelo governo americano em seu programa espacial, a indústria acaba gerando US$ 10 em produtos e serviços de alta tecnologia. Trata-se de um investimento nacional com potencial de 1000% de retorno!

Não é à toa que, dos gloriosos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), os supostos “donos da bola” na atual economia mundial, todos (menos nós) investem pesadamente em sua indústria espacial. Eles já sacaram que é assim que podem reduzir a pobreza em seus próprios países, além de projetar seu poderio tecnológico e dar a seus respectivos povos o direito de sonhar com a grandeza. Só aqui o governo ainda não se deu conta de que precisa despertar o “Gigante espacial”.

É verdade que três desses quatro países têm motivação bélica para desenvolver seus foguetes. A Índia vive uma eterna miniguerra fria com o vizinho Paquistão, a China tem ambições militaristas óbvias, e a Rússia está no negócio do armamentismo pesado desde a Segunda Guerra Mundial. Contudo, achar que isso explica tudo — e que portanto certo está o Brasil de não desenvolver essas tecnologias — é de uma miopia ímpar. Primeiro porque ter acesso próprio ao espaço, assim como os meios de explorá-lo, é questão de soberania, não de belicismo.

Exemplo: vemos nossa querida presidente estrilando sobre espionagem gringa e defendendo a construção de um Satélite Geoestacionário Brasileiro, para que nossas comunicações civis e militares possam ser feitas sem o uso de sistemas estrangeiros. E aí quem a Agência Espacial Brasileira contrata para construí-lo? A empresa europeia Thales Alenia Space, a um custo de R$ 1,3 bilhões. Depois, como reclamar?

É verdade que o acordo, assinado em dezembro do ano passado, inclui um contrato em separado com a companhia europeia voltado para transferência de tecnologia em telecomunicações. Mas é ingenuidade (ou malícia, como queira) de nossos governantes sugerir aos contribuintes que podemos “comprar” nosso caminho em meio às tecnologias espaciais de ponta. Não podemos. País nenhum entrega o ouro desse jeito, num setor estratégico. Enquanto isso, nossos engenheiros no IAE e no INPE vivem de recursos pingados a conta-gotas e de um plano de longo prazo que a cada cinco anos atrasa meia década.

Não acredita? Em 1980, o Brasil havia se determinado a realizar uma Missão Espacial Completa: lançar um satélite nacional, de um centro de lançamentos nacional, com um foguete nacional. Se esse plano tivesse sido executado com determinação e num prazo razoável, poderíamos hoje estar emparelhados com indianos e chineses. Os brasileiros teriam o direito de sonhar em explorar outros mundos e enviar astronautas por seus próprios meios ao espaço. Por que não tem na Agência Espacial Brasileira alguém, agora, neste exato momento, pensando num plano de exploração científica do Sistema Solar? Por que temos lideranças tão cegas?

Optamos, historicamente, pela letargia. Até hoje o plano elementar da Missão Espacial Completa não foi executado. Apenas três tentativas malogradas de levá-lo a termo, em 1997, 1999 e 2003. A última delas, você deve se recordar, foi catastrófica, com um incêndio que matou 21 técnicos e engenheiros em Alcântara. Na ocasião da tragédia, o então presidente Lula havia prometido um novo lançamento em 2006. Estamos em 2014, e nada. Não é à toa que, entre os BRICs, somos hoje os patinhos feios. E pensar que, meros cinco anos atrás, a comunidade internacional imaginava que pudéssemos ser a tábua de salvação do Ocidente em meio à crise econômica mundial…

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