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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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O colapso da civilização?

Por Salvador Nogueira
Será que estamos próximos do nosso apagar das luzes?
Será que estamos próximos do nosso apagar das luzes?

Um novo trabalho recém-produzido por um trio de cientistas nos Estados Unidos, com financiamento parcial da Nasa, está causando imensa controvérsia. Ele sugere que a civilização moderna pode estar à beira de um colapso, da qual pode até não se recuperar mais.

Assustou? Calma, não tire suas conclusões tão depressa. Primeiro vamos entender o que eles dizem e depois passamos a dissipar ao menos parte do pessimismo.

O artigo foi produzido por Safa Motesharrei, matemático da Universidade de Maryland, sua colega Eugenia Kalnay, climatologista da mesma instituição, e Jorge Rivas, cientista político da Universidade de Minnesota. O trio criou um modelo matemático que tenta compreender o fenômeno genérico do colapso de civilizações.

RETROSPECTO DESANIMADOR

A história nos ensina como emergem e naufragam grandes impérios e culturas, e cada um desses colapsos tem razões muito específicas. No caso do Império Romano, por exemplo, temos o surgimento do cristianismo e as invasões bárbaras como causas preponderantes. Entre as civilizações da América pré-colombiana, há a chegada dos europeus ao continente, tecnologicamente superiores. Isso sem falar em sucessivas ascensões e quedas de civilizações em lugares como a Grécia, o Egito, a Mesopotâmia, a Índia e a China. Uma coisa que não faltou a nenhuma dessas sociedades foi um conjunto de causas bem definidas e historicamente reconhecidas que levaram à catástrofe.

Ou seja, civilizações parecem ser fenômenos transitórios, sejam quais forem as razões de seu colapso. Por conta desse insistente e incômodo desfecho, os pesquisadores liderados por Motesharrei começaram a desconfiar que, além de causas particulares delineadas pelos processos históricos, houvesse um mecanismo básico capaz de explicar o porquê de todas as civilizações em algum momento decaírem.

Eles então partiram para o desenho de seu modelo matemático, chamado de HANDY (acrônimo em inglês para Dinâmica Humana e da Natureza). É basicamente uma tentativa de reduzir uma civilização a um conjunto pequeno de parâmetros, divididos em duas categorias: população e recursos.

No caso da população, uma divisão simples de classes, entre ricos e pobres. Convenhamos: toda civilização que até hoje habitou a superfície da Terra — inclusive as supostamente socialistas — tinha uma elite e um povão. Parece fazer sentido partir desse pressuposto, portanto.

No caso dos recursos, eles combinaram numa única unidade de medida, o eco-dólar, a grana — que basicamente diferencia ricos e pobres — e a disponibilidade de recursos naturais (entre renováveis e não-renováveis).

Combinando as duas coisas em equações dinâmicas, eles rodaram simulações de computador, avaliando o desempenho de inúmeras civilizações fictícias. E descobriram o que talvez soe meio óbvio, diante dos fatos históricos: a imensa maioria das civilizações não-igualitárias, ou seja, divididas entre elite e povão, cedo ou tarde entra em colapso.

Segundo a simulação, o caminho que leva ao precipício pode ter duas bases: escassez de mão-de-obra e escassez de recursos. No primeiro caso, o processo se desenrola quando cria-se um abismo tão grande entre ricos e pobres que, para manter os primeiros, os segundos morrem de fome. “Que comam brioches”, diria uma certa figura famosa pouco antes de um colapso igualmente célebre. E não sem motivo. Com o povão morrendo de fome, quem carrega o piano para os belezocas da elite? Sem quem realize os trabalhos exigidos para a manutenção da civilização, o dinheiro de nada vale, e no fim das contas a elite também se ferra. Fim da linha.

No segundo caso — colapso por falta de recursos –, o problema é ainda mais óbvio. Mesmo que não haja grande desigualdade social, se não há natureza suficiente para manter todo mundo, a coisa degringola. Esse aspecto é interessante porque mostra que mesmo uma sociedade ideal — igualitária — sofrerá um colapso se não houver como manter sua população por tempo indefinido.

Entra em cena aquela palavrinha mágica dos ambientalistas: “sustentabilidade”. É aquele negócio de que, se o mundo inteiro, com seus 7 bilhões de habitantes, resolver consumir como um americano médio, o planeta Terra não vai dar nem pro começo. Alguns mais pessimistas dizem que já estamos no momento consumindo mais do que o planeta pode nos dar e que o desequilíbrio criado pela atividade humana só pode mesmo terminar num colapso retumbante.

Certo. Convenhamos, pode muito bem ser esse o nosso destino, e se bobear não vai demorar até que o encontremos. Embora os autores do trabalho não digam com todas as letras que o nosso nome já está numa lápide, seu artigo aponta que esse seria um desfecho mais do que possível. Provável talvez seja a palavra exata.

AS BOAS NOTÍCIAS

Calma, não é o fim do mundo. Uma coisa que o modelo também mostra é que existe caminho para a salvação. Com as intervenções certas, as simulações mostram que é possível impedir uma civilização de ir para a cova.

“O colapso pode ser evitado, e a população pode atingir um estado estacionário em sua capacidade de porte máxima se a taxa de depleção da natureza for reduzida a um nível sustentável e se os recursos forem distribuídos de forma justa”, afirmam os cientistas em seu artigo.

Trocando em miúdos: se aceitarmos não ter mais gente na Terra do que cabe, não explorarmos demais uma parte da população em favor de outra e não detonarmos os recursos naturais todos de uma vez, a civilização pode não colapsar e permanecer saudável.

Díficil? Talvez. Mas vejo indícios de que estamos no caminho certo. Sem querer soar excessivamente otimista, é fato que os níveis de desigualdade têm caído em termos globais (ainda que localmente ainda vejamos vários abismos). E, se ainda não somos todos obcecados com sustentabilidade, pelo menos é uma palavra que já ouvimos com frequência suficiente para nos darmos conta dessa preocupação. É decerto o começo de um começo de uma solução.

Ademais, cabe lembrar que o modelo elaborado pelo trio de cientistas dos Estados Unidos é uma versão bem simplificada de um sistema muito complexo. Por mais que eles aleguem que o HANDY explica o desaparecimento de diversas civilizações que já colapsaram, existem algumas coisas que nos separam de todos os povos da Terra que nos precederam.

Em primeiro lugar, já somos a essa altura uma sociedade planetária. A internet liga o mundo inteiro numa aldeia global e a informação já não se perde mais com facilidade, como na época em que queimaram a Biblioteca de Alexandria. Difícil regredirmos a algo como uma Nova Idade Média, por mais que soframos as penas econômicas e ecológicas de ter uma civilização aloprada.

Em segundo lugar, já não estamos mais limitados a um único planeta. Fala-se em sustentabilidade e uso racional da natureza, mas em algumas décadas certamente estaremos explorando recursos naturais em outros objetos celestes. Em um século ou dois, teremos colônias na Lua e em Marte. O espaço é a saída óbvia para o crescimento continuado de nossa civilização. E parece-me mais provável que ela opte por essa rota do que simplesmente se resigne ao fracasso. Nossa espécie não gosta de perder.

Por essas razões todas, não consigo nos considerar um caso perdido. As soluções existem, e até as modelagens mais elementares da evolução de civilizações, como a HANDY, demonstram isso. O intelecto humano está aí para vencer desafios como esse. Se conseguirmos administrar nossa ganância, temos tudo para chegar lá.

Não custa lembrar que essa está longe de ser a primeira vez que alguém sugere que a civilização moderna já era. Das previsões pessimistas de Thomas Malthus no século 18 ao Relógio do Juízo Final mantido desde 1946 pelos cientistas atômicos, todos os catastrofistas se mostraram enganados. Mas só temos a agradecê-los. Ao agir como “antiprofetas”, eles nos alertam para problemas reais e nos ajudam a não errar. Motesharrei e seus colegas acabam de nos dar uma contribuição importante nesse sentido. E eu apostaria que, justamente por terem feito suas previsões, eles errarão redondamente. Ainda bem para nós.

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