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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Kepler coleciona gêmeas solares

Por Salvador Nogueira

Um grupo internacional de astrônomos liderado por um brasileiro usou os dados do telescópio espacial Kepler para identificar, numa tacada só, nada menos que 22 possíveis estrelas gêmeas do Sol.

Cientistas buscam estrelas gêmeas do Sol para compreender como se formam planetas como a Terra.
Cientistas buscam estrelas gêmeas do Sol para compreender como se formam planetas como a Terra.

Na real, esse é o único jeito seguro de estudar o passado, o presente e o futuro da nossa própria estrela-mãe. De quebra, pode ajudar a explicar como se formam sistemas planetários com uma arquitetura parecida com a do nosso, com planetas rochosos nas órbitas mais internas e gigantes gasosos nas mais externas.

A essa altura, já temos uma boa noção teórica de como um astro como o Sol evolui, mas a única maneira de confirmar por observações essas expectativas é estudar estrelas essencialmente iguais, só que em épocas diferentes de suas vidas.

Daí a motivação para caçar gêmeas solares. E encontrá-las é mais difícil do que parece. Embora saibamos que estrelas de tipo G, anãs amarelas, como o Sol sejam relativamente comuns (cerca de 8% de todas as estrelas na galáxia são desse tipo), é preciso mais para ser uma gêmea solar. A massa tem de ser a mesma do Sol, com uma flutuação de apenas 5% para mais ou para menos. O período de rotação tem que ser de 14 dias ou mais (a do Sol é de 25 dias). E a análise da assinatura de luz da estrela, que permite identificar sua composição, também tem que ser igualzinha à solar.

LISTA SELETA
Com todas essas coincidências, o negócio fica bem mais difícil. E nada demonstra mais essa dificuldade toda que o pequeno número de astros já descobertos que podem ser classificados como gêmeas solares. “Dez ou doze, dependendo do critério”, afirma José Dias do Nascimento Júnior, pesquisador do Centro Harvard-Smithsonian para Astrofísica, nos EUA, e primeiro autor do novo trabalho.

José Dias do Nascimento Júnior faz apresentação sobre o satélite Kepler.
José Dias do Nascimento Júnior faz apresentação sobre o satélite Kepler.

Com a adição de 22 novos candidatos, a pesquisa representa um avanço considerável. O sucesso veio graças ao esquema de observação do Kepler, que passou quatro anos monitorando de forma ininterrupta cerca de 150 mil estrelas numa mesma região do céu, na constelação de Cisne.

Agora o astrônomo brasileiro e seus colegas trabalham para analisar um por um os espectros das estrelas candidatas e ver quais são de fato gêmeas.

ROTAÇÃO E IDADE
Um dos aspectos mais interessantes do trabalho, publicado hoje no periódico “Astrophysical Journal Letters”, é a consolidação de um método capaz de estimar a idade aproximada das diversas gêmeas solares. Chamado de girocronologia, ele parte do pressuposto de que estrelas similares ao Sol nascem com uma certa velocidade de rotação e vão lentamente freando ao longo de suas vidas.

Portanto, ao comparar a rotação de estrelas de mesmo porte, é possível estimar em que momento de suas vidas elas estão. O Sol, com rotação equatorial de 25 dias, tem cerca de 4,6 bilhões de anos. As 22 possíveis gêmeas têm rotação média de 21 dias, o que significa dizer que a idade média da amostra é um pouco menor que a solar. Mas, claro, individualmente, há aquelas que são mais velhas, outras que são bem mais novas e ainda as que têm virtualmente a mesma idade da nossa estrela-mãe.

Além de compreender a trajetória de vida do Sol, esses estudos podem iluminar uma questão central da astronomia moderna: há uma correlação entre a composição da estrela e a arquitetura de seu sistema planetário?

Há quem pense que sim. O astrônomo peruano Jorge Meléndez, da Universidade de São Paulo, trabalha no momento tentando demonstrar que a ausência de certos elementos no Sol tem correlação com a formação de planetas rochosos na chamada zona habitável do sistema, onde a temperatura é adequada para a manutenção de água em estado líquido na superfície.

A identificação de gêmeas solares ajuda a focar a busca por planetas em torno delas, de forma a confirmar ou refutar essa hipótese. Além disso, claro, astros que sejam similares ao Sol são alvos naturais para a busca por sinais de vida extraterrestre, que está na pauta dos astrônomos já para o fim desta década.

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