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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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O próximo voo lunar chinês

Por Salvador Nogueira

Prepare-se para o próximo grande feito do programa espacial chinês: uma espaçonave dará a volta na Lua e retornará em segurança à Terra, transportando em seu interior formas de vida simples — bactérias e plantas — que farão um longo passeio no espaço interplanetário antes de regressar a seu planeta de origem.

Cápsula da espaçonave Chang'e 5-T1, que será lançada ainda neste ano com formas de vida a bordo.
Cápsula da espaçonave Chang’e 5-T1, que será lançada ainda neste ano com formas de vida a bordo.

Os detalhes ainda são escassos, como de costume no programa espacial da China, mas a imprensa estatal já noticiou a chegada do veículo ao centro de lançamento. A decolagem deve acontecer até o fim do ano (pense outubro). E poucos duvidam que se trata de uma precursora direta de futuras missões lunares envolvendo astronautas.

Oficialmente, a iniciativa é apresentada como uma precursora da missão Chang’e-5, agendada para 2017, que tem por objetivo colher amostras do solo lunar de forma robotizada, como os soviéticos haviam feito nos anos 1970. Mas a imagem acima, que mostra a cápsula do veículo, é extremamente sugestiva de que se trata de um ensaio também para futuras missões tripuladas ao satélite natural.

Duas são as dicas: o tamanho da cápsula, maior do que o que seria exigido para um simples retorno de amostras (as missões soviéticas Luna, por exemplo, eram bem menores), e seu formato, uma réplica exata, em escala reduzida, do módulo de retorno da Shenzhou, a nave tripulada chinesa.

De forma geral, fica claro que o projeto de retorno de amostras é um precursor de um ainda não anunciado programa de retorno de astronautas. Note que o plano adotado pelos chineses para a Chang’e-5 não envolve um retorno direto da superfície da Lua para a Terra, mas um acoplamento em órbita lunar para depois a execução da manobra para a volta ao planeta. É outro detalhe que destoa das missões soviéticas Luna, mas é exatamente o mesmo perfil de missão adotado no projeto Apollo, que levou astronautas americanos à Lua entre 1969 e 1972.

PASSO A PASSO
Vamos dar uma revisada no que os chineses fizeram até agora em seus esforços de exploração do nosso satélite natural? O programa foi batizado de Chang’e, nome da divindade mitológica lunar chinesa, e seu primeiro lançamento aconteceu em outubro de 2007. Era uma sonda orbitadora que fez um mapeamento grosseiro da Lua.

Em outubro de 2010, partiu a Chang’e-2, outra orbitadora, que fez imagens em resolução ainda maior de toda a superfície lunar (inclusive detectando a presença dos equipamentos deixados pelos americanos durante as missões Apollo).

E o grande sucesso veio em dezembro do ano passado, quando a Chang’e-3 pousou na superfície lunar (com um módulo de pouso bem maior do que o que a missão exigia, diga-se de passagem) e levou até lá o jipe robótico Yutu, que funcionou bem durante cerca de 40 dias antes de sofrer um defeito que tirou sua capacidade de locomoção. Apesar disso, o jipe ainda funciona até hoje (em modo “zumbi”, sem se mexer) e está fornecendo dados sobre a resistência de suas peças ao hostil ambiente lunar.

O glorioso jipe Yutu, ainda operacional, mas em modo "zumbi", sem se mexer.
O glorioso jipe Yutu, ainda operacional, mas em modo “zumbi”, sem se mexer.

A Chang’e-4, marcada para partir entre 2015 e 2016, será uma réplica exata da missão anterior, com a expectativa adicional de que o problema que afligiu o Yutu seja corrigido. E então, em 2017, teremos a Chang’e-5, que fará o retorno de amostras.

A missão de agora — chamada por ora de Chang’e-5 T1 — tem por principal objetivo testar o sistema de reentrada que será usado em 2017. Trata-se do momento crítico em que a espaçonave invade a atmosfera terrestre a incríveis 40.320 km/h e usa o atrito para frear até um pouso suave, auxiliado por para-quedas, no deserto da Mongólia.

Além do teste tecnológico crucial para o futuro do programa lunar chinês, o experimento biológico poderá colher informações importantes sobre o ambiente de radiação nas imediações lunares e seus efeitos nas plantas e bactérias transportadas a bordo.

A espaçonave também levará um equipamento que transmitirá sinais que poderão ser captados por rádio-amadores, permitindo que eles detectem as transmissões diretamente da Lua. (Esses grupos já têm feito um ótimo trabalho ao monitorar a sonda Chang’e-3 e o jipe Yutu!)

A julgar pela atual toada e pela consistência tecnológica do programa chinês (usando as iniciativas não-tripuladas como verificações consistentes dos designs tripulados), parece-me uma aposta segura sugerir que veremos humanos de volta à superfície da Lua na década de 2020. Podem me cobrar.

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