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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Nave chinesa faz bate-volta na Lua

Por Salvador Nogueira

A aventura lunar chinesa acaba de ganhar mais um capítulo emocionante. Partiu ontem (23), às 16h (pelo horário de Brasília), do Centro de Lançamento de Satélites de Xichang a primeira espaçonave destinada a visitar as imediações da Lua e retornar para contar a história desde 1976. É não-tripulada, verdade, mas o módulo que retornará à Terra transporta seres vivos e é muito parecido com o usado pela nave tripulada chinesa Shenzhou. Ou seja, é um prelúdio para o envio de astronautas ao solo lunar.

Lançamento do foguete Longa Marcha 3C com a nova espaçonave lunar chinesa.
Lançamento do foguete Longa Marcha 3C com a nova espaçonave lunar chinesa.

Chamada apenas de C5-T1, ela não faz parte da linhagem de espaçonaves chinesas destinadas à exploração científica do nosso satélite natural. Seu objetivo é tecnológico: testar a cápsula que futuramente ajudará no retorno não-tripulado de amostras de solo lunar, em 2017.  Mas não deixa de ser empolgante.

Uma vez lançada e colocada em sua rota, por um foguete Longa Marcha-3C, a sonda já tem garantido o retorno à Terra. Isso porque os chineses optaram por uma trajetória de retorno livre, o que significa dizer que, sem nenhum ajuste de curso, a espaçonave irá até a Lua, contornará por trás dela, e voltará em disparada na direção do nosso planeta, num percurso em forma de “8”. Foi assim que os astronautas da Apollo-13 se safaram com vida em 1970, após uma explosão catastrófica em pleno voo — seguiram numa trajetória de retorno livre, contornando a Lua e “caindo” de volta na Terra.

No caso da C5-T1, o tempo total estimado para esse voo é de nove dias, até um pouso da cápsula no deserto da Mongólia.

REENTRADA TENSA

Ao retornar, cápsula se projetará na direção da atmosfera terrestre a uma velocidade espantosa, cerca de 11,2 km/s. Parece pouco? Tente atravessar 11 km em 1 segundo! Trocando esse número para uma unidade mais corriqueira, estamos falando de 40.320 km/h, ou cerca de 41 vezes mais depressa que um avião de passageiros. Será um belo teste para o escudo térmico da espaçonave.

concepção artística da C5-T1, por Junior Miranda.
Concepção artística da C5-T1, por Junior Miranda.

Caso tudo corra bem, a China terá demonstrado sua capacidade de trazer amostras da Lua com segurança. Mas não só isso, pois essa cápsula de teste não viaja sozinha. Plantas e bactérias estão a bordo, e os cientistas chineses terão uma ideia dos efeitos que a radiação interplanetária pode ter nessas amostras biológicas. Caso tenha sucesso agora, fazer uma missão similar com humanos seria tecnicamente viável.

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Tudo faz parte de um plano para estabelecer uma base tripulada na Lua na próxima década. Uma pena só que a China mantenha enorme segredo sobre seus passos no espaço. Essa missão, por exemplo, ocorre com uma discrição que contrasta muito com a atitude de americanos e europeus em projetos similares. O lançamento de ontem só foi anunciado depois de concluído com sucesso.

E um fato curioso: pegando carona no lançamento, a LuxSpace, uma empresa de Luxemburgo, se tornou a primeira companhia a enviar um satélite à Lua. Batizado de 4M (Manfred Memorial Moon Mission), o artefato é basicamente um rádio que transmitirá um sinal para a Terra durante sua viagem, acoplado ao último estágio do foguete chinês. É uma homenagem ao fundador da empresa, Manfred Fuchs, que morreu neste ano. A iniciativa é especialmente interessante para quem curte rádio-amador, pois pode tentar captar o sinal do satélite privado vindo da Lua. A frequência é 145,980 MHz.

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