Mensageiro Sideral

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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“Interestelar” faz Batman parecer sutil

Por Salvador Nogueira

O badalado diretor Christopher Nolan está causando novamente, desta vez com o lançamento de seu épico cinematográfico espacial, “Interestelar”. Nem é preciso dizer que o Mensageiro Sideral foi correndo conferir. E agora chegou a hora de compartilhar minhas impressões sobre o filme, que ambiciona ser tão introspectivo quanto “2001”. Mas só ambiciona.

Em "Interestelar", astronautas voltam ao estrelato como a salvação da lavoura (literalmente).
Em “Interestelar”, astronautas voltam ao estrelato como a salvação da lavoura (literalmente).

A começar pelo óbvio: trata-se de um espetáculo visual de encher os olhos. Nunca antes na história da sétima arte se viu uma ópera espacial tão bonita, com uma sensibilidade hiperrealista e moderna que vai deixar os espectadores antes de mais nada embasbacados. É o tipo de filme que você poderia ver sem os diálogos, só com a linda trilha composta por Hans Zimmer, e sair plenamente satisfeito. (A experiência Imax, a propósito, é altamente recomendada.)

O problema é: quando os diálogos entram, fica bem pior. E confesso que isso me surpreendeu. Depois de aplaudir as coisas incríveis que Nolan fez com sua trilogia do Batman e “A Origem”, fiquei chocado em ver o diretor topar filmar o roteiro em seu estado final, quanto mais imaginá-lo co-escrevendo a peça com seu irmão, Jonathan.

Nem o elenco estelar (com o perdão do trocadilho) consegue torná-lo menos forçado, e eu acho que ele falha em diversos níveis. É grandiloquente, pretensioso e previsível.

A essa altura, você pode estar pensando: “esse é um cara que escreve sobre ciência; ele deve ter ficado irritado com as licenças poéticas que o filme tira com relação aos aspectos científicos e, por isso, está malhando sem dó”. Au contraire, mon ami. A ciência, para mim, com todas as falhas, foi uma das coisas mais divertidas do filme. (E já escrevi longamente sobre isso aqui, caso você não tenha visto.)

Meu problema é com a ficção mesmo. Explicarei em detalhes (e com alguns spoilers brutais!) a seguir, mas antes é hora de um intervalo comercial.

NA TV: Na coluna deste sábado (15) no Jornal das 10, na GloboNews, o Mensageiro Sideral pega carona em “Interestelar” para explorar o estranho mundo dos buracos negros. Quem são eles? Onde vivem? O que fazem com o tempo e o espaço? Não perca, a partir das 22h, na GloboNews!

Um buraco negro, você sabe, é um caminho sem volta. SPOILERS ADIANTE!
Um buraco negro, você sabe, é um caminho sem volta. SPOILERS ADIANTE!

SPOILERS BRUTAIS! HORIZONTE DOS EVENTOS AQUI!

Em “Interestelar”, fica muito claro desde o primeiro minuto que a história se presta a um objetivo filosófico: explorar a natureza humana, de nossas fraquezas egoístas a nossas nobres motivações, para responder a uma só pergunta. Merecemos sobreviver a nós mesmos?

Legal, né? Dá mesmo para fazer um épico com isso. Mas, para tanto, uma qualidade é indispensável: sutileza. Só que “Interestelar” é tão sutil quanto um estouro de mamutes.

E isso pode estragar as surpresas para um espectador mais atento à estrutura do filme. Exemplo cabal: se a história o tempo todo indica que se propõe a discutir a condição humana, quem você acha que pode ter colocado um buraco de minhoca nas vizinhanças de Saturno para salvar a humanidade? É só pensar um pouco. A mensagem deste filme nunca seria algo na linha: “o homem só pode ser salvo se ETs nos derem uma mão!” A julgar pelo próprio tom da história, só o homem poderia ajudar o homem. O buraco de minhoca tem de ser uma construção humana! Ainda se o tom de “pregação” do roteiro fosse mais sutil, sem nos induzir tão cedo a assumir a posição de decifrar a tal moral da história, essa “reviravolta” talvez tivesse me surpreendido. Não foi o caso.

O mesmo problema se aplica a outros pontos-chave da trama. Quem consegue ver este filme sem sacar relativamente depressa que Cooper se tornará o “fantasma” de Murph? E o exemplo mais gritante: quem não viu de cara que o idolatrado Dr. Mann (até o nome do personagem, quase literamente “man”, é sugestivo da mensagem que Nolan quer esfregar na nossa cara) seria enfim um vilão? Então temos de enfrentar o arquetípico egoísmo humano, personificado ali, para nos salvarmos? Que sutil.

Nenhuma dessas me pegou.

Como comparar isso a “2001”, como fazem alguns? Até hoje eu não entendi o filme de Kubrick, tão sutil e aberto ao mistério que ele é! Em “Interestelar”, em contraste, tudo é exaustivamente esclarecido. Em tela. Com diálogos. Longos e exaustivos. Nada resta do sabor do desconhecido ao fim do filme, e se você está prestando atenção, descobre tudo muito antes dos protagonistas — que, aliás, são tão profundos quanto uma cartolina. Esqueça todas aquelas nuances que Nolan introduziu nos personagens do mundo ficcional do Batman. “Interestelar” se parece mais com uma história em quadrinhos do que “O Cavaleiro das Trevas”. Nem gente do naipe de Michael Caine, Matthew McConaughey, Anne Hathaway e Matt Damon salva. (Menção honrosa para McConaughey por tirar leite de pedra, contudo).

No fim das contas, “Interestelar” tem o coração no lugar certo. Ele anseia por reafirmar a confiança que devemos ter no espírito humano, a despeito de nossas óbvias mazelas. Nós vamos sobreviver e vamos nos tornar uma civilização multiplanetária, sem a ajuda miraculosa de ninguém, exceto nós mesmos — e esse é o único caminho. É isso o que diz Nolan com seu filme, e eu não poderia concordar mais. Além disso, a crítica social embutida, destacando a desvalorização crescente da ciência e da curiosidade em nossa sociedade, é muito pertinente.

Contudo, com um “Deus Ex Machina” do tamanho de um bonde na história — um mecanismo narrativo arbitrário que permite corrigir todos os males, inclusive aqueles que já transcorreram — e caricaturas dramáticas, fica difícil colocar este filme no topo da lista dos maiores da ficção científica espacial, como talvez ambicionasse seu nada modesto diretor. “2001” segue imbatível pelo impenetrável que é, e até “Contato” faz melhor papel como drama humano. Em efeitos visuais, contudo, nenhum deles bate “Interestelar”.

Um último alerta: não considero nada do que eu disse acima motivo para que você não vá vê-lo nos cinemas. É assunto para mais de metro. Depois de tanto descascar o verbo, já estou até com vontade de ver de novo.

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