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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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O universo-bebê vira obra de arte

Por Salvador Nogueira

Uma técnica usada por um brasileiro está ajudando a tirar mais informação da famosa radiação cósmica de fundo — o “eco” em micro-ondas gerado pelo Big Bang. E as imagens são estonteantes.

Imagem da radiação cósmica de fundo reprocessada com técnica usada por astrônomo brasileiro
Imagem da radiação cósmica de fundo reprocessada com técnica usada por astrônomo brasileiro (Crédito: ESA)

Essa radiação revela as condições na época em que o Universo era um “bebê”, com apenas 380 mil anos de idade. Hoje ele tem 13,8 bilhões de anos. É graças a ela que os cientistas conseguem hoje identificar a geometria do espaço-tempo no Universo observável e determinar as quantidades de matéria e energia no cosmos.

A técnica, contudo, vai mais adiante. Ela foi recentemente aplicada aos dados colhidos pelo satélite europeu Planck, que fez as mais precisas medições já obtidas da radiação cósmica de fundo.

“Matematicamente, o que se faz é criar um algoritmo de ‘conectar pontinhos’, mas levando em conta a direção dada pelo campo magnético”, afirma Diego Gonçalves, astrônomo da USP-Leste, em São Paulo. “Então aquela textura nada mais é do que uma representação de como as linhas de campo magnético são naquela região. Algo semelhante ao experimento de limalha de ferro em volta de um ímã… só que bem mais bonito.”

Imagem revela a polarização do campo magnético do meio interestelar
Imagem revela a polarização do campo magnético do meio interestelar (Crédito: ESA)

Gonçalves tem usado a técnica, chamada de LIC (“Line Integral Convolution”), desde 2008. “Quando cheguei em Paris para discutir os mapas de polarização com o pessoal do Planck, eles se encantaram. Pediram o algoritmo e geraram esses mapas lindos. No meu caso, eu sempre trabalhei com simulações numéricas, mas agora eles usaram a mesma técnica para mapas observados.”

Existe uma grande expectativa sobre a possibilidade de os dados do Planck confirmarem certas polarizações da radiação cósmica de fundo que indiquem que o Universo passou mesmo por um processo de expansão hiper-acelerada nos seus primórdios, fenômeno conhecido como “inflação cósmica”. Resultados controversos apresentados no início do ano pareciam apontar nessa direção, mas dão toda pinta de terem sido apenas um alarme falso, resultado de interferência dos efeitos da nossa própria galáxia na medição.

No caso, as imagens “artísticas” da radiação não vão ajudar a desvendar esse mistério. Mas elas permitem investigar o comportamento do campo magnético do meio interestelar — ou seja, como o magnetismo afeta as partículas da radiação de fundo no longo percurso que ela faz, dos confins do Universo, até chegar à Terra e ser medida pelos cientistas. O foco é na concentração de poeira e gás em nossa própria galáxia, a Via Láctea.

“Sem isso não seria possível obter os mapas da radiação cósmica de fundo, nem a composição do Universo, com precisão”, diz Gonçalves. “Eu trabalho mais na questão do meio interestelar, e não na cosmologia em si.”

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