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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Caso ESO: show de ignorância política

Por Salvador Nogueira

O deputado federal Fábio Garcia, do PSB em Mato Grosso, andou fazendo marolinhas com a comunidade astronômica na semana que passou ao solicitar a retirada da pauta da Câmara da votação do Decreto Legislativo que permitiria a entrada do Brasil no ESO (Observatório Europeu do Sul), a maior organização de pesquisa astronômica do mundo.

Mais uma direto do país do Plunct-Plact-Zum.
Mais uma direto do país do Plunct-Plact-Zum.

Caso a votação saia mesmo da pauta, o acordo não pode ser aprovado pelo Congresso. Sem aprovação, não pode entrar em vigor. E o agora oposicionista Fábio Garcia faz um grande favor ao governo Dilma.

É verdade que o plano para colocar o Brasil no ESO emanou do governo federal, em 2010, no fim do segundo mandato do presidente Lula. Aliás, foi impulsionado pelo celebrado ministro da Ciência e Tecnologia Sérgio Rezende — por sinal atrelado ao mesmo PSB de Garcia.

Mas na troca de Lula por Dilma, o projeto deixou de despertar interesse do Executivo. Mercadante passou pelo ministério e desprezou a iniciativa. Raupp empurrou com a barriga. Campolina fez igual. E agora duvido que a comunidade astronômica espere mais do esportista comunista Aldo Rebelo. (A propósito, você leu certo: a presidenta teve quatro ministros da Ciência e Tecnologia em quatro anos. É mais uma dica de quanto apreço ela tem pela área.)

Talvez valesse ao deputado Garcia perder quinze minutos de seu precioso tempo batendo um fone para o ex-ministro Rezende, a fim de entender o “causo”.

FACILITANDO PARA O GOVERNO
Ao retirá-lo da pauta de votações, o deputado faz um agrado involuntário à já atribulada presidenta, que pode alegar que a oposição derrubou o acordo, em vez de ter de assumir o ônus de ter literalmente dado um chapéu na organização europeia. Pois desde 2010, quando o acordo foi assinado pelo governo federal, os europeus têm concedido o uso de todas as instalações de pesquisa do ESO aos astrônomos brasileiros. Se você visitar a página do ESO na internet, a bandeirinha do Brasil está lá. Se demorarmos um pouco mais, eles vão cansar de esperar.

Já viu este filme? Eu já. Aconteceu com a Estação Espacial Internacional. O Brasil entrou no projeto. Custo: US$ 120 milhões. Tem ladrão na Petrobras devolvendo mais dinheiro que isso hoje em dia. A Nasa de pronto cumpriu a parte dela, treinando para voo nosso solitário astronauta, Marcos Pontes. Tinha bandeirinha brasileira na estação espacial também. Mas o governo gastou uma década enrolando, negociando, tergiversando e não entregou um parafuso sequer. Chegou um ponto em que os parceiros internacionais não podiam esperar mais. Contrataram as partes brasileiras nos Estados Unidos e nos mostraram a porta da rua.

A história se repete, no eterno país do futuro. Não pretendo entrar no mérito da discussão dos benefícios e malefícios da adesão do Brasil à estação espacial ou ao ESO (eu, particularmente, acho que os dois teriam sido vantajosos para nós). Questiono por que temos de ser tão irresponsáveis, assinando acordos primeiro e discutindo seu mérito só depois? Porque a cada nova gestão, o governo precisa questionar tudo que foi feito ou pautado pelos predecessores?

Quando o ESO empacou, em 2011, eu já previa que o fim seria o mesmo da estação espacial. Infelizmente, a profecia está se confirmando.

Quanto ao aparecido da vez, o deputado Fábio Garcia, veja o que ele diz em sua página no Facebook:

“Solicitamos a retirada de pauta de um acordo que o governo federal fez com a União Europeia que faria o Brasil gastar 800 milhões de reais com pesquisa astronômica. Os astros que precisam ser enxergados no Brasil é o povo brasileiro que sofre com a ausência de saúde, educação e segurança pública de qualidade! Tamojunto!”

Ignoremos por um momento o erro crasso de concordância para analisar o falso antagonismo criado pelo ilustre deputado. Ciência é inimiga da saúde, da educação e da segurança pública de qualidade?

Sem uma estrutura acadêmica de pesquisa compatível com o tamanho do Brasil, de que adiantará formar doutores às pencas num sistema educacional forte? Talvez o deputado compartilhe da opinião da presidenta, que sugeriu em um debate a uma economista pós-graduada que fizesse um curso técnico do Pronatec para conseguir recolocação profissional, neste incrível Brasil do sub-emprego pleno.

E outra: como encorajar a molecada a estudar se não há futuro na pesquisa brasileira? O ministro Sergio Rezende enxergava que a astronomia é uma das portas de entrada da criançada para o mundo da ciência, e é preciso dar algo que possa inspirá-las. Mesmo que elas acabem se tornando médicas, engenheiras e, por que não?, políticas, as novas gerações precisam saber que o Brasil dá condições para que sua população possa perseguir seus sonhos, estejam eles onde estiverem — aqui, na Lua, em Marte ou na galáxia de Andrômeda.

Eu fico intrigado em saber como o deputado Garcia pretende tirar a verba federal que seria alocada para a entrada do Brasil no ESO e aplicá-la em segurança pública, que é da esfera estadual. Ele tem um plano? E quantos meses de segurança pública ele consegue bancar com 800 milhões de reais? Ele fez a conta?

E sobre a saúde, teremos alguma chance de dar condições dignas de atendimento ao cidadão brasileiro com 800 milhões de reais? Ele sabe qual é o orçamento anual do Ministério da Saúde?

Ah, como é maravilhoso o discurso político. Um discurso para os ignorantes. Fábio Garcia, político de carreira e ex-secretário de governo da prefeitura de Cuiabá, teve pouco menos de 105 mil votos. O astronauta Marcos Pontes, em sua primeira eleição, sem nunca ter ocupado um cargo por indicação política, teve cerca de 44 mil votos — e não foi eleito. Mas em qual deles teríamos alguém mais habilitado para julgar o mérito de um projeto como esse e capitanear o processo na Câmara?

Somos o país que elegemos ser. Enquanto isso, fica o recado aos parceiros internacionais: o Brasil não é confiável. Se você for esperto, fique longe de nós. É triste, mas é a verdade.

EM TEMPO: Criaram um abaixo-assinado para ilustrar o caríssimo deputado. Se você concordar, não deixe de incluir seu nome.

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