Mensageiro Sideral

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Adeus ao herói da geração geek

Por Salvador Nogueira

O ator Leonard Nimoy, eternizado por sua interpretação do sr. Spock, personagem da série “Jornada nas Estrelas”, morreu nesta sexta (27), aos 83 anos. Diagnosticado com doença pulmonar obstrutiva crônica, ele foi diversas vezes levado ao hospital às pressas nos últimos meses. A última foi no dia 19, que o levou a ser internado com fortes dores no peito. Mas ele estava em sua casa, em Los Angeles, quando morreu.

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Foi impossível não derramar lágrimas ao saber da notícia. Nimoy cativou milhões com sua inesquecível interpretação de Spock, um personagem que ele ajudou a construir e eternizar, desde 1964, quando o primeiro piloto da série foi produzido, até a mais recente produção, dirigida por J.J. Abrams e lançada em 2013.

Nimoy deixou um legado incrível. Muitos cientistas e astronautas que hoje participam de missões espaciais descobriram sua vocação ao assistir às aventuras de “Jornada nas Estrelas”. É um personagem que antecipou em décadas a noção de que ser inteligente, nerd mesmo, podia ser interessante — hoje, depois de séries como “The Big Bang Theory”, ninguém mais questiona.

Isso sem falar no ser humano incrível que sempre demonstrou ser, não só com seus colegas atores (chegou a ameaçar se demitir quando cogitaram dispensar coadjuvantes do elenco da série, para a produção de um desenho animado) como com todos que tiveram a chance de ter contato com ele. Spock era vulcano, mas Nimoy sempre representou o melhor que há no ser humano.

Meu momento especial com ele foi em 2003, quando o ator esteve no Brasil para uma convenção. Consegui uma entrevista exclusiva com ele para a Folha, dias antes, por telefone, o que causou certo incômodo ao estúdio e aos organizadores. Afinal, não só usei meus contatos trekkers para fazer o pedido diretamente à secretária dele, sem passar pela “via-sacra” das assessorias de comunicação, como elas haviam prometido uma exclusiva para outro veículo de comunicação.

O primeiro choque foi quando ele retornou a ligação, na hora combinada. Eu atendi o telefone e ele pediu por mim. Eu, naturalmente, já sabia quem era. Meu lado fã gritava desesperadamente. “O sr. Spock acaba de me telefonar!” Por fora, claro, mantive (tanto quanto consegui) a serenidade e fizemos uma ótima entrevista.

Fiquei muito contente com ela, pois fiz uma pergunta entrelaçando ciência e ficção científica que Nimoy disse jamais ter ouvido antes. Você entrevista uma lenda viva e faz uma pergunta inédita! Eu já estava no sétimo céu trekker e pronto para aguardar na fila para pegar seu autógrafo dali a alguns dias, em São Paulo, quando Nimoy me deu uma terceira alegria. Durante sua apresentação aos fãs, no palco, ele mencionou a minha entrevista! Foi incrível.

E esse era Nimoy. Por menores que fossem os detalhes, ele sempre se mostrava atento aos outros e tratava a todos com respeito e delicadeza. Sem a arrogância de tantas estrelas de cinema. Não por acaso hoje é um dia triste para tanta gente, inclusive para mim.

A luz de Nimoy, contudo, é como a das estrelas mais distantes no espaço sideral, que ele tanto ajudou a explorar na ficção. Os astros que a originaram podem há muito ter desaparecido, mas sua luz continua a vagar pelo cosmos, inspirando pessoas do outro lado da galáxia a aprender mais sobre o Universo. O homem se vai, mas a lenda fica.

Vida longa e próspera, sr. Spock.

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