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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Caso ESO: falta só a canetada da Dilma

Por Salvador Nogueira

O Senado acompanhou a movimentação recente da Câmara dos Deputados e aprovou na noite de quinta-feira (14) o Projeto de Decreto Legislativo que permite a adesão do Brasil ao ESO, a maior organização astronômica do mundo. Agora, para nos tornarmos sócios do Observatório Europeu do Sul, dependemos apenas de uma canetada da presidenta Dilma Rousseff, ratificando o acordo e colocando o projeto no Orçamento federal — tem que pagar a conta.

(Fui alertado para o fato de que Decretos Legislativos não passam pelo Executivo, de forma que, na burocracia da tramitação, falta apenas a assinatura do presidente do Senado, Renan Calheiros. Ainda assim, Dilma terá de abraçar a causa a partir de agora, ratificando o acordo por meio de um Decreto Presidencial e disponibilizando verbas para ele, para não passarmos vergonha lá fora.)

Concepção artística do E-ELT, maior telescópio do mundo, a ser construído pelo ESO (Crédito: ESO)
Concepção artística do E-ELT, maior telescópio do mundo, a ser construído pelo ESO (Crédito: ESO)

Estamos vivendo uma das épocas mais empolgantes da história da astronomia e me anima que tantas portas importantes estejam se abrindo para a comunidade científica brasileira. Hoje mesmo, o UOL reproduz texto do meu amigo Marcos Pivetta, da revista “Pesquisa Fapesp”, que destaca as participações bancadas pelo governo estadual de São Paulo no Giant Magellan Telescope (GMT), no projeto Llama de radioastronomia, feito em parceria com a Argentina, no consórcio para a construção do Cherenkov Telescope Array, ao lado de outros 28 países, e no projeto J-PAS, feito em parceria com a Espanha, para decifrar os enigmas da matéria escura e da energia escura.

O Brasil já participa há anos de outros consórcios importantes, como o observatório Gemini (que conta com dois telescópios de grande porte, um no Havaí e outro no Chile) e o CFHT (Canada-France-Hawaii Telescope), além da propriedade majoritária do telescópio SOAR, no Chile. Esperemos que as novas iniciativas não abalem os importantes laços que temos com essas instalações, responsáveis por produção de ciência de primeira linha.

É inegável, contudo, que o ESO é a maior joia da coroa, por assim dizer. Com a entrada na organização, os pesquisadores brasileiros passam também a ter acesso a uma infra-estrutura incrível, que inclui o telescópio de La Silla, o mais produtivo na busca por exoplanetas, o conjunto de radiotelescópios ALMA e os quatro telescópios que compõem o VLT (Very Large Telescope), além de futuro acesso ao E-ELT (European Extremely Large Telescope), que ainda está por ser construído. Se você está naquele momento da vida em que é hora de escolher sua profissão e está considerando seguir carreira em ciência aqui no Brasil, astronomia nunca foi uma pedida tão boa.

Até porque a comunidade astronômica brasileira hoje não é muito grande, e o acesso a todos esses equipamentos só poderá ser plenamente utilizado e justificado se ela crescer nos próximos anos. Em Portugal, quando o país entrou no ESO, foi o que aconteceu — a comunidade astronômica lusa cresceu por um fator de dez. Esperamos efeito similar do outro lado do oceano, mas para isso será preciso trabalhar um bocado, dentro e fora dos círculos acadêmicos.

Então, enquanto o Mensageiro Sideral fica de olho no governo, que precisa cumprir com as obrigações assumidas diante de seus parceiros estrangeiros (no ESO, são 370 milhões de euros até 2021), fica o chamamento à ação para os astrônomos brasileiros: precisamos trazer a molecada para a área e fazer a coisa ferver por aqui. Descobertas incríveis nos aguardam lá fora, e desenvolvimentos tecnológicos são muito necessários aqui na Terra. O Brasil tem de fazer parte disso.

Como já dizia o tio Ben, “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.

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