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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Por que os ETs adoram pirâmides?

Por Salvador Nogueira

Em 7 de maio, o jipe robótico Curiosity, que neste momento explora a encosta do monte Sharp, em Marte, encontrou este cenário e enviou uma foto para a Terra. Uma não, um monte delas. Mas uma em especial chamou atenção. Veja a mais nova “misteriosa pirâmide” em Marte.

Imagem colhida pelo Curiosity em 7 de maio de 2015. Viu a pirâmide? (Crédito: Nasa)
Imagem colhida pelo Curiosity em 7 de maio de 2015. Viu a pirâmide? (Crédito: Nasa)

Não viu? Xácomigo que eu te ajudo.

Show de pirâmide, hein? (Crédito: Nasa)
Show de pirâmide, hein? (Crédito: Nasa)

Viu agora?

Quase um mês depois, em 6 de junho, outra imagem intrigante veio de Ceres, o planeta anão residente no cinturão de asteroides entre as órbitas de Marte e de Júpiter. A sonda Dawn teria fotografado o que a própria Nasa chamou de uma “intrigante montanha em forma de pirâmide” em meio a um terreno relativamente liso.

Imagem da sonda Dawn revela montanha de 5 km em Ceres (Crédito: Nasa)
Imagem da sonda Dawn revela montanha de 5 km em Ceres, bem no horizonte (Crédito: Nasa)

As duas imagens causaram certo alvoroço entre aqueles que se entusiasmam com a perspectiva de encontrar artefatos alienígenas espalhados pelo Sistema Solar — coisas que supostamente a Nasa tenta esconder. (Vamos fingir por um momento que não é a agência espacial americana quem divulga todas essas imagens sobre as quais alguns “especialistas” adoram se debruçar.)

Pouco importa que a mais nova “pirâmide” em Marte pareça ser bem pequenininha e tenha a mesma cor de um monte de outras rochas de todos os formatos espalhadas pelo chão ao redor. Pouco importa também que a “pirâmide” em Ceres tenha cerca de 5.000 metros de altura. (Para efeito de comparação, tenha em mente que a pirâmide de Queóps, no Egito, tem 139 metros, e o Empire State Building, 381 metros.)

Mesmo ignorando tudo isso, tem uma dúvida que não consigo resolver comigo mesmo: por que ETs teriam essa mania incorrigível de pirâmide?

Eu entendo perfeitamente o sentimento, no melhor espírito “eu quero acreditar”, professado pelo cartaz colado na parede do escritório do agente Fox Mulder. Todo entusiasta da busca por vida extraterrestre — eu inclusive — está à espera de uma descoberta sensacional, algo que não ofereça explicação diferente de “não estamos sós”.

Porém, é justamente porque existe essa ansiedade por uma descoberta sensacional que devemos dobrar a dose de ceticismo. Como explicar uma pirâmide de 5 km em Ceres? Um ET sem ter o que fazer passou por lá e, a meio caminho de Júpiter, pensou consigo mesmo: não seria legal a gente fazer uma pirâmide bem aqui, no meio do nada?

E a minipirâmide marciana, então? Um suvenir que o ET comprou no Egito, talvez, e então esqueceu no planeta vermelho?

Por que diabos uma civilização altamente tecnológica, capaz de realizar prodigiosas travessias interestelares em naves avançadíssimas, perderia seu tempo fazendo pirâmides em mundos desabitados?

Claro, no caso de Marte, alguns preferem imaginar que houve lá uma civilização nativa, e ela seria a responsável pelas construções. Certo. Dois problemas. O primeiro é o de que sabemos que o planeta vermelho já não é um lugar bacana para formas de vida complexas há pelo menos alguns bilhões de anos. O segundo é que, mesmo supondo que essas supostas construções sejam de um período extraordinariamente antigo, quando Marte ainda era simpático, úmido e com clima temperado, como explicar que 2 ou 3 bilhões de anos de ventos, tempestades de areia e sabe-se lá mais o quê não destruiram completamente esses artefatos? As pirâmides egípcias já estão bem desgastadas, e elas só tem uns poucos milhares de anos. Imagine o que aconteceria a elas em mil vezes mais tempo? E em 1 milhão de vezes mais tempo? É disso que estamos falando para construções antigas em Marte.

Odeio ser estraga-prazeres, mas essas reflexões precisam ser feitas, se estamos realmente falando sério sobre descobrir vida extraterrestre — e não simplesmente alimentar nosso gosto por teorias conspiratórias ou crenças destrambelhadas.

Marte pode ter tido uma civilização em seu passado remoto? Pode, claro. Por que não? Até que se prove o contrário, é possível. Mas não podemos nos desapegar daquele velho princípio ditado por Carl Sagan: “afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias”.

Sabemos que mesmo coisas que parecem artificiais à primeira vista podem não ser depois de uma segunda olhada. Um caso clássico é o da “face de Marte”, que sob outro nível de iluminação desaparece completamente.

A primeira imagem da Viking (1976) e a versão da Mars Global Surveyor (2001). Que face? (Crédito: Nasa)
A primeira imagem da Viking (1976) e a versão da Mars Global Surveyor (2001). Que face? (Crédito: Nasa)

Nosso cérebro é naturalmente programado para enxergar padrões. O fenômeno é chamado de “pareidolia”, e é o que nos permite ver figuras em nuvens ou pirâmides em rochas marcianas e em montanhas de Ceres. Não há nada de errado com isso. O que está errado é não considerarmos essa a hipótese mais provável sempre que vemos algo estranho numa imagem espacial. É o nosso cérebro tentando interpretar coisas que jamais viu antes em termos de outras que ele já conhece. Normal.

E outra: mesmo quando não há pareidolia, ainda assim podemos nos enganar redondamente. Pegue as crateras lunares, por exemplo. Todo mundo sabe que elas estão lá e são belamente circulares. Hoje sabemos também como elas se formam — basta um asteroide desgovernado colidir com a Lua, e temos lá um buraco novo.

Contudo, no século 17, quando Johannes Kepler primeiro ficou sabendo das observações lunares que Galileu fez com o telescópio, ninguém podia ter a mais vaga ideia do que eram esses buracos. “Que fenômeno natural poderia produzir círculos perfeitos?”, pensou Kepler. “Só podem ser obras dos habitantes da Lua.”

Não julgue mal o velho astrônomo alemão. Ele fez uma dedução racional com base no conhecimento disponível, e por centenas de anos houve quem embarcasse nessa. William Herschel, na virada do século 18 para o 19, foi um deles — ele estava convencido de que as crateras eram cidades lunares. (Galileu, que sempre foi mais malandro, nunca comprou nada que seus próprios olhos não fossem capazes de ver. “Crateras? OK. Selenitas? Não vi.” Ponto para ele.)

O exemplo é educativo. Não estamos por esses dias fazendo algo parecido com o que Kepler fez com as crateras, só que com os pontos luminosos em Ceres? Na falta de uma explicação natural simples, recorremos aos ETs e seus faróis ligados.

(Aliás, aproveitando o ensejo, veja a última imagem deles, divulgada nesta segunda-feira (29) pela Nasa, capturada pela sonda Dawn no dia 15 de junho, a uma altitude de 4.400 km. Ceres está sob a luz solar, mas parece escuro pelo baixo tempo de exposição para a obtenção da imagem. Você se arrisca a dizer o que é que está lá embaixo?)

Os pontos brilhantes de Ceres na imagem mais recente da Dawn (Crédito: Nasa)
Os pontos brilhantes de Ceres na imagem mais recente da Dawn (Crédito: Nasa)

Podemos sonhar o quanto quisermos com vida extraterrestre e civilizações avançadas além da Terra — não há nada no conhecimento disponível que sugira que essas são hipóteses absurdas. Muito pelo contrário. O que não podemos é tentar confirmar as hipóteses “na marra”, dando saltos imaginativos com a convicção de quem sabe tudo, quando na verdade ainda desconhecemos um bom bocado.

A ciência está num caminho muito promissor para finalmente testar essas hipóteses, e resultados incríveis nos aguardam nas próximas duas décadas. Um pouquinho de paciência e uma boa dose de ceticismo serão ingredientes fundamentais nessa reta final. Você não perde por esperar.

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