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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Brasil foi oitava maior audiência da Nasa no dia do sobrevoo de Plutão

Por Salvador Nogueira

Adivinhe qual país produziu a oitava maior audiência no site da Nasa no dia em que a sonda New Horizons fez seu histórico sobrevoo de Plutão? Brasil-sil-sil-sil!

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É o que dizem as estatísticas divulgadas pela agência espacial americana. De cerca de 5,7 milhões de sessões de visitação iniciadas no site da Nasa no dia 14 de julho, os líderes na audiência naturalmente foram os Estados Unidos. Eles responderam por 43% do tráfego. Mas, veja você, o resto do mundo ganhou: 57%.

Depois dos Estados Unidos, tivemos, pela ordem, Reino Unido, Canadá, Austrália, Alemanha, Itália, Índia e Brasil nas oito primeiras colocações. Japão e Holanda fecharam o top 10.

Dos dez países no topo da lista, Brasil e Índia são os únicos que ainda se encontram em desenvolvimento. E mesmo entre esses dois a briga pela melhor posição no ranking de interesse espacial foi disputada. Enquanto a Índia gerou 94,4 mil sessões (2,26% do total), os brasileiros ficaram com 90,4 mil (2,17%).

Lembre-se: a Índia tem população seis vezes maior que a brasileira, e inglês é língua oficial por lá. O site da Nasa é praticamente todo em inglês, com modesto conteúdo em espanhol.

Lembre-se, parte 2: a Índia já colocou uma sonda em órbita da Lua e outra em órbita de Marte, tem vários foguetes lançadores de satélites e um programa espacial “bom e barato”, inspirador e do tamanho certo para seu país. O Brasil, por sua vez, acaba de desperdiçar meio bilhão de dólares num projeto malfadado para lançar foguetes ucranianos de Alcântara (dinheiro que daria para lançar sete sondas marcianas indianas), seu modesto foguete nacional lançador de satélites jamais realizou um voo bem-sucedido (muitos duvidam que um dia irá fazê-lo) e o país foi expulso da Estação Espacial Internacional depois de descumprir todos os prazos e obrigações envolvidos na parceria. (Para não dizer que o fracasso é total, fazemos aí uns satélites de observação da Terra em parceria com a China.)

PROJEÇÃO E SONHO
370-x-435-NASA-2-internationalA Nasa, é claro, está comemorando essas estatísticas todas. No momento do sobrevoo da New Horizons, a agência espacial americana captou 42% de toda a audiência direcionada a sites do governo americano. A hashtag #PlutoFlyBy ficou em segundo lugar nos trending topics do Twitter no dia 14. E a audiência produziu uma incrível propaganda em escala mundial.

“Nós atingimos praticamente todos os cantos do globo, com um punhado de exceções”, disse Jim Wilson, editor sênior do site da Nasa em artigo publicado no Digital.gov. “Estamos orgulhosos de podermos exibir esse incrível marco do programa espacial americano para os povos do mundo todo.”

Agora, se você quer saber uma coisa, esses números falam ainda mais sobre o Brasil. Eles mostram que, ao contrário do que o senso comum parece sugerir, nós somos um país com vocação espacial. Temos o interesse, temos a capacidade, temos o talento e a massa crítica de interessados. O que não temos? A liderança política.

Aposto que muitos jovens brasileiros viram o sobrevoo de Plutão e pensaram em como seria maravilhoso poder trabalhar numa missão como essa. Imaginaram a sensação de realização envolvida em produzir conhecimento, inovação, tecnologia e exploração, tudo ao mesmo tempo. Combinar os mais espetaculares sonhos de desbravamento ao esforço tecnológico que, a cada dia, melhora o nosso cotidiano, incrementa nossa economia e nos torna mais prósperos.

(Talvez não tenha ocorrido a você, mas é bem possível que tanto o computador pessoal como as câmeras digitais jamais tivessem sido criadas, se não fosse pela exploração espacial. Apenas um exemplo rápido que rebate o velho discurso “veja as criancinhas da África passando fome”. Bill Gates fez fortuna com computadores — herança da exploração espacial — e agora enche a barriga de muitas criancinhas na África. Quantas delas ele seria capaz de alimentar se a indústria da informática não existisse?)

Essa visão, essa inspiração, é o que países como os Estados Unidos alimentam desde o início da corrida espacial, mais de 50 anos atrás — não por acaso, os EUA são a maior economia do planeta. Veja o que disse Alice Bowman, gerente de operações da missão New Horizons, voz embargada, logo após receber o sinal de vida da sonda. “Não posso expressar como estou me sentindo de ter realizado um sonho de infância de exploração espacial. Estou muito emocionada nesse momento. Diga a suas crianças que elas façam algo pelo qual sintam paixão. Não faça algo por que é fácil. Faça algo por que você quer fazer. Dê a si mesmo o desafio.”

Alice Bowman, gerente de operações da New Horizons, após o sucesso do sobrevoo. (Crédito: Nasa)
Alice Bowman, gerente de operações da New Horizons, após o sucesso do sobrevoo. (Crédito: Nasa)

Quisera eu, o Brasil permitisse o sonho. Fico a imaginar toda essa molecada por aí projetando desafios como o de enviar uma espaçonave aos confins do Sistema Solar. Gente disposta a sonhar não nos falta, como as estatísticas da New Horizons já provam. Elas estão nos institutos de pesquisa, nas universidades, nas escolas. Hoje em dia, se a Alice Bowman brasileira quiser alguma coisa assim, ela precisa se inscrever no programa Ciência sem Fronteiras para fazer estágio na Nasa e então rezar para o governo não cortar a verba da sua bolsa ao primeiro ajuste fiscal que aparecer pela frente. É muito pouco para um país que ambiciona — e tem potencial para — ser protagonista no concerto das nações.

Nas estatísticas da Nasa, os brasileiros já aparecem em oitavo lugar, brigando com a Índia pela sétima posição. No tamanho da economia, já somos os sétimos. Por que ficamos tão aquém quando se trata de realizações no espaço? E pior: por que estamos satisfeitos com isso?

Lanço aqui um desafio: vamos nós, brasileiros, lançar, até o final da década, uma sonda capaz de realizar ao menos um sobrevoo da Lua?

O objetivo é um só: mostrar que podemos. E que podemos fazer isso produzindo ciência de qualidade e inovação pelo caminho. Inspirar a próxima geração. Permitir o sonho que nos é negado há décadas.

Tem gente no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais querendo fazer isso. (Otávio Durão, está por aí?) Tem gente na iniciativa privada querendo fazer isso. (Lucas Fonseca, está por aí?) Tem gente nos círculos acadêmicos querendo fazer isso. (Douglas Galante, está por aí?)

Custo? Com a tecnologia de cubesats, podemos realizar uma missão assim por cerca de US$ 10 milhões — coisa de R$ 32 milhões. O que estamos esperando? Quanto vale o futuro do Brasil? Até quando vamos esperar por ele? Eu sugiro, no máximo, até 2019.

(Ei, governo federal, tem alguém em casa?)

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