Kepler-452b e o futuro da Terra

Imagine poder observar, de uma distância segura, o futuro longínquo da Terra, daqui a 1 bilhão ou 2 bilhões de anos — um futuro potencialmente fervilhante e inóspito, diga-se de passagem. O satélite Kepler, da Nasa, aparentemente fez algo parecido.

Concepção artística de Kepler-452b, um planeta que pode estar se superaquecendo, algo que aconterá à Terra em mais 1 bilhão de anos (Crédito: SETI Institute)
Concepção artística da superfície de Kepler-452b, um planeta que pode estar se superaquecendo, algo que acontecerá à Terra em mais 1 bilhão de anos (Crédito: SETI Institute)

Ele descobriu um mundo um pouco maior que a Terra, em torno de uma estrela parecida com o Sol, numa órbita similar à que nosso planeta executa. Ou seja, lá, como aqui, uma volta inteira leva um ano para se completar (385 dias, para ser mais exato). A principal diferença: a estrela-mãe lá tem cerca de 6 bilhões de anos — 1,5 bilhão a mais que o Sol.

O exoplaneta, localizado a 1.400 anos-luz daqui, recebeu a designação Kepler-452b, e é uma das mais interessantes descobertas feitas durante a última atualização do catálogo de potenciais exoplanetas do satélite, recém-divulgada pela agência espacial americana.

O Kepler detecta planetas-candidatos observando pequenos eclipses causados pela passagem deles à frente de suas respectivas estrelas. Na última parcial, o catálogo de potenciais exoplanetas contava com 4.175 exemplares. A nova atualização — a primeira a levar em conta o total de dados colhidos pelo Kepler em sua missão original, entre 2009 e 2013 — adicionou cerca de 500 novos objetos.

Estima-se que cerca de 90% das detecções sejam reais, e não algum falso positivo, mas mesmo assim os cientistas usam todos os meios à disposição para verificar o achado de forma independente. Isso já foi feito para o Kepler-452b, uma possível “Terra do futuro”.

O satélite Kepler detecta planetas observando trânsitos deles à frente de suas estrelas-mães. (Crédito: Nasa)
O satélite Kepler detecta planetas observando trânsitos deles à frente de suas estrelas-mães. (Crédito: Nasa)

NA DIVISA
As detecções feitas pela observação de “trânsitos planetários” permitem estimar com alguma precisão o tamanho do astro, mas não sua massa. Com apenas uma das duas informações, fica difícil estimar sua composição. Então, é bom avisar: não sabemos se o Kepler-452b de fato se parece com a Terra.

Contudo, estudos feitos com exoplanetas que tiveram tanto sua massa como seu volume medidos sugerem que existe uma fronteira, mais ou menos na marca de 1,6 diâmetro terrestre. Os mundos que têm esse tamanho ou menos tendem a ser rochosos, como o nosso, e os maiores que isso provavelmente são versões em miniatura de Netuno, o menor dos gigantes gasosos do nosso Sistema Solar.

Kepler-452b cai bem na linha divisória: 1,6 diâmetro terrestre. Isso significa que ele tende a ser rochoso. Mas não há como ter certeza no momento.

OS 10% QUE FAZEM A DIFERENÇA
A estrela Kepler-452, por sua vez, é uma anã amarela, como o Sol, e tem apenas 4% mais massa que o nosso astro-rei. Em compensação, como é mais velha, é também um pouco mais brilhante. Isso significa que o Kepler-452b recebe atualmente 10% mais radiação que a Terra. E pode ser uma diferença fatal.

Modelos de evolução solar sugerem que, em mais ou menos 1 bilhão de anos, o aumento de brilho do Sol fará com que a Terra se torne inabitável. A radiação adicional emitida aquecerá o planeta de forma a evaporar os nossos oceanos. Com tanto vapor d’água na atmosfera, a temperatura subirá centenas de graus com relação a atual. Nosso planeta se tornará tão inóspito quanto Vênus.

“Se o Kepler-452b é de fato um planeta rochoso, sua localização com relação a sua estrela pode significar que ele está entrando numa fase de efeito estufa descontrolado”, disse Doug Caldwell, cientista do Instituto SETI envolvido com a missão da Nasa. “O Kepler-452b pode estar experimentando agora o que a Terra sofrerá daqui a mais de um bilhão de anos, conforme o Sol envelhecer e se tornar mais brilhante.”

Concepção artística do Kepler-452b visto do espaço (Crédito: Nasa)
Concepção artística do Kepler-452b visto do espaço (Crédito: Nasa)

A descoberta ilustra alguns pontos importantes. Um deles é um que, com base em estudos estatísticos, na prática já sabemos desde 2013: planetas com porte similar ao da Terra em órbitas similares às da Terra em torno de estrelas similares ao Sol são comuns no Universo.

Outro ponto importante, e talvez menos apreciado, seja o fato de que a região conhecida como “zona habitável” é um conceito bem flexível. Kepler-452b hoje possivelmente está se tornando um inferno escaldante, mas, no passado, quando sua estrela era menos brilhante, seu clima pode ter sido tão ameno quanto o da Terra. A vida pode ter florescido lindamente lá, muito antes que surgissem os primeiros animais em nosso próprio mundo. E se, em vez dele, tivéssemos por lá um mundo como Marte, com porte menor e atmosfera mais rarefeita, o ambiente provavelmente seria propício à vida até hoje. Ou seja, habitabilidade não depende só da região do sistema em que o planeta orbita, mas de características intrínsecas do próprio mundo e da evolução de sua estrela-mãe.

Comparação entre a Terra e o Sol, e Kepler-452b e sua estrela-mãe (Crédito: Nasa)
Comparação entre a Terra e o Sol, e Kepler-452b e sua estrela-mãe (Crédito: Nasa)

MUITO MAIS DE ONDE VEIO ESSE
Além de Kepler-452b, o novo catálogo de objetos de interesse inclui 11 novos candidatos a planeta com menos de duas vezes o diâmetro da Terra orbitando na zona habitável de suas estrelas.

Até agora, o satélite da Nasa já identificou oito planetas confirmados com potencial para serem habitáveis, ou seja, capazes de manter água em estado líquido na superfície. Desses, o mais interessante é Kepler-186f, que tem praticamente o mesmo tamanho da Terra.

Uma comparação dos sistemas Kepler-186, Kepler-452 e o Solar. (Crédito: Nasa)
Uma comparação dos sistemas Kepler-186, Kepler-452 e o Solar. (Crédito: Nasa)

Embora sua missão original tenha sido concluída em 2013, após a pifada de dois dos giroscópios do satélite, o Kepler segue em operação num novo projeto, denominado K2. Em vez de olhar fixamente para uma só posição do céu, como ele fez entre 2009 e 2013, ele agora se alterna entre diversos pedaços do firmamento ao longo das constelações do zodíaco. E pode apostar que novas descobertas vêm por aí. É só esperar.

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Comentários

  1. Salvador,
    Este texto faz compreender de forma bem ampla o quão flexível é o conceito de “zona habitável” e quantas variáveis em jogo para existência de vida. Que sorte nós temos no planeta Terra.

    Quando você coloca que ao observar o Kleper 452b, podemos estar olhando o futuro da Terra, fez-me pensar que talvez possamos estar olhando para o passado da Terra também.

    Poderia a vida na Terra ter vindo de lá, de forma proposital – e não aleatória, através de um cometa, como sugerem alguns cientistas?
    Afinal de contas, com mais de um bilhão de anos à frente, se houve vida inteligente neste planeta, eles estariam bem evoluídos (seguindo as referências de vida na Terra). Se estavam cientes de sua extinção (planeta se tornando inóspito), poderiam ter enviado vida para um então jovem planeta descoberto por eles em uma zona habitável (nossa querida Terra)? E 1.400 anos-luz parece-me uma distância pequena na escala astronômica para tal façanha.

    E quem sabe não faremos o mesmo daqui a alguns milhões de anos garantindo este ciclo da vida para outro planeta relativamente próximo e habitável? Afinal já sabemos qual será o futuro do nosso planeta.

  2. Ola salvador!
    Nesta parte que você fala: ´´planetas com porte similar ao da Terra em órbitas similares às da Terra em torno de estrelas similares ao Sol são comuns no Universo.´´Na verdade não é no universo e sim na nossa galaxia, pra ser mais exato…digamos nos sistemas vizinho nosso né?
    Pois imagino que se aqui já temos dificuldade em observar imagino fora de nossa galaxia.

    1. Everton, é fato que não conseguimos observar além da nossa galáxia. Porém, sabemos que formação de planetas é comum em toda parte. Não só pelo fato de que as estrelas de lá são similares às de cá (e é a sua formação que leva ao surgimento posterior de planetas ao redor), como também pelo fato de que já observamos pelo menos um sistema planetário em torno de uma estrela que, embora esteja na Via Láctea, veio parar aqui depois de vir de outra galáxia e de lá ser ejetada rumo ao espaço intergaláctico! 🙂

  3. Salvador, Muito legal, mas essa a minha duvida, quando o sol começar a ficar mais velho, ele aumenta o seu brilho. Pois bem, então, podemos dizer que quando isso acontecer, a mais de um bilhão de anos, Marte vai se tornar, nossa nova terra e a terra supostamente ficara igual a Vénus Hoje ?

  4. “Ou seja, lá, como aqui, uma volta inteira leva um ano para se completar (385 dias, para ser mais exato).”
    Na verdade, o nosso planeta demora 365 dias para dar uma volta completa ao redor do nosso sol, então o Kepler demora 20 dias a mais para executar o percurso.
    Ou deveriam especificar que não seria um ano terrestre. 🙂 Obrigada pela atenção.

    1. Andriele, foi o que tentei mostrar no texto, comparando os 28 anos em Kepler-452b aos 30 anos na Terra (presumi que todo mundo lendo o texto soubesse que o ano terrestre tem 365 dias).

  5. Salvador, obrigada. Você comentou no post sobre a audiência brasileira no site da Nasa e saiba que sou grata a você, já que no inglês…
    Fantástica esta descoberta. Quando se faz referência à “semelhança com a Terra”, não tem como controlar a imaginação. E acredito que quando se procura vida fora da Terra, pode-se encontrar alguma coisa que ajude a quem vive aqui.
    Abraços
    Elis

  6. As fotos novas de Plutão revelam que aparentemente houve alguma espécie de derramamento no planeta, “soterrando” uma grande área do planeta que corresponde ao “coração” (ou o “Pluto”, segundo alguns) e também aparentemente deixando sinais da topografia que havia embaixo como aqueles sulcos no gelo. Vai dar um trabalho teorizar com mais detalhes sobre o que causou tal fenômeno.

  7. Boa tarde, Salvador. Tenho uma dúvida. como o tamanho desse planeta é 60% maior do que a terra, não fica inviável a existência de vida similar a nossa, pelo efeito da grande gravidade? Qual seria o limite do tamanho do planeta, para ter vida similar a da terra, tal que os habitantes do local poderiam ficar heretos, e não esmagados como espécies do tipo da “arraia” com corpos achatados e, pela grande gravidade planetária. abraço.

    1. Não. Supondo a mesma densidade da Terra, a gravidade seria 60% maior. Grande, mas não inviável.

  8. Salve, Salvador!

    Sou eu de novo enchendo o saco da galera com meus papos de ETs. (rsrs)

    Mas agora não é para buzinar a mente dos astrônomos não, é só para tentar saber se cientistas da NASA de fato estão querendo descobrir ETs, já que dizem que não os encontraram até hoje, coisa que a turma da ufologia tem certeza que estão mentindo na mais pura cara lavada.

    É o seguinte. Por um acaso, você já ouviu falar aí com a turma da astronomia, se os caras do Projeto Kepler já tiveram autorização dos seus chefes para apontar o telescópio para estrelas mais “suspeitas” e bem mais próximas que a do recém descoberto planeta Kepler 452-b? Tipo Sirius, que está a pouco mais de 8 anos luz?

    Se apontaram, o que disseram que encontraram por lá? Ou não encontraram nada? Ou ainda, a tecnologia não se aplica neste caso?

    Essa pergunta tem a ver com aquela explanação que fizemos sobre o povo Dógon, lá na matéria do “caçador” de ETs, Stephen Halking, e seus métodos politicamente corretos.

    Para quem não acompanhou imbróglio, a questão reside no fato desse povo Dógon saber da existência da anã Sirius B, sua densidade, o formato e o tempo de sua órbita em volta da gigante Sirius A, além de um terceiro corpo celeste, milênios antes dos astrônomos descobrirem o funcionamento do sistema Sirius. Segundo esse misterioso povo africano, quem semeou a vida na Terra veio de um planeta de Sirius B.

    Abração.
    F.A.R.

    1. Fernando, há controvérsias sobre se o tal povo dógon tinha mesmo conhecimento de Sírius B antes que os astrônomos a descobrissem.
      Sobre o Kepler, sua missão era observar apenas uma região do céu por quatro anos, para formar estatísticas robustas sobre a prevalência de planetas terrestres em órbitas habitáveis. Portanto, suas observações se limitaram às constelações do Cisne e de Lira. Agora, por defeito nos giroscópios, ele está num outro esquema de observação (a missão foi rebatizada K2), que faz monitoramentos de cerca de 70 dias em diversas partes da eclíptica, mas aí o satélite está limitado a apontamentos nas constelações zodiacais (está usando a luz do Sol como estabilizadora do apontamento do satélite, na falta do giroscópio, e por isso a limitação). Agora, o TESS, satélite caçador de planetas marcado para voar em 2017, deve se concentrar nas estrelas mais próximas e fará um rastreio de todas as partes do céu. Contudo, Sírius é um péssimo lugar para a vida. Além de ter a companheira B (uma anã branca) numa proximidade grande com a estrela principal, entre 8 e 32 UAs de distância, o sistema tem apenas uns 300 milhões de anos — tempo curto demais para o desenvolvimento da vida, se tomarmos a Terra como um caso típico. Então, sem querer menosprezar as lendas de um misterioso povo africano — lembrando que a estrela mais brilhante do céu naturalmente será fonte de lendas –, ainda aposto que Sírius não deve entrar na nossa lista top de busca por alienígenas.
      Abraço!

      1. Pegando o embalo dos ETS, o que até agora foi identificado como verídico sobre os AGROGLÍFOS….os misteriosos sinais nas plantações ?? 🙂

          1. Vlw, cheguei agora nessa parte do seu livro de 2013, parece que tem uns velhinhos na Inglaterra fazendo pegadinhas nas plantações, rsrsrsrs.

            Tb estou lendo Realidade Oculta ( autor : Brian Greene), Companhia das Letras, muito interessante tb, recomendo aos leitores do Blog.

          2. Salvador, ok, verídico nada. Mas, mesmo sendo feito por gente como a gente, não se pode negar a qualidade da coisa. São muito bonitos e matemáticos. De pato pra ganso: seu blog é sobre astronomia, strictu sensu, mas Astrobiologia é o item mais ocupado nos últimos dias, prova de curiosidade grande das gentes em relação a haver vidas lá fora. Ceres, pirâmides, TV Discovery, um chamamento só. Youtube: o que acha de todos os vídeos mostrando objetos se movendo próximos às nossas naus? E astronautas e cosmonautas com papos estranhos a respeito? Há mais coisas entre o céu e a atmosfera do que sonha nossa vã ciência?

          3. Plutão teve grande destaque, talvez o maior de todos, e não era astrobiologia.
            O que eu acho sobre óvnis, em detalhe, eu escrevi no livro “Extraterrestres”. Em essência, acho que há casos legitimamente misteriosos, mas que não podem ser abordados pela ciência, pois não há como testar hipóteses que formulemos a respeito deles.

    1. Respondo: ocorreram violações do “nick” do Eu. Eus diversos se passando pelo Eu. O TM (Trade Mark) garante ser o verdadeiro e legítimo Eu. Aliás, acho que o Eu usa Eu para confundir e se tornar mais falado. Pusesse um Antonio ou João, quem se lembraria? Né, Eu?

      1. Com certeza.

        Afinal todo mundo fala “Eu disse” ou “Eu falei” ou “Eu fiz” tal coisa. Logo sempre se lembrarão de mim! Rá!

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