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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Kepler-452b e o futuro da Terra

Por Salvador Nogueira

Imagine poder observar, de uma distância segura, o futuro longínquo da Terra, daqui a 1 bilhão ou 2 bilhões de anos — um futuro potencialmente fervilhante e inóspito, diga-se de passagem. O satélite Kepler, da Nasa, aparentemente fez algo parecido.

Concepção artística de Kepler-452b, um planeta que pode estar se superaquecendo, algo que aconterá à Terra em mais 1 bilhão de anos (Crédito: SETI Institute)
Concepção artística da superfície de Kepler-452b, um planeta que pode estar se superaquecendo, algo que acontecerá à Terra em mais 1 bilhão de anos (Crédito: SETI Institute)

Ele descobriu um mundo um pouco maior que a Terra, em torno de uma estrela parecida com o Sol, numa órbita similar à que nosso planeta executa. Ou seja, lá, como aqui, uma volta inteira leva um ano para se completar (385 dias, para ser mais exato). A principal diferença: a estrela-mãe lá tem cerca de 6 bilhões de anos — 1,5 bilhão a mais que o Sol.

O exoplaneta, localizado a 1.400 anos-luz daqui, recebeu a designação Kepler-452b, e é uma das mais interessantes descobertas feitas durante a última atualização do catálogo de potenciais exoplanetas do satélite, recém-divulgada pela agência espacial americana.

O Kepler detecta planetas-candidatos observando pequenos eclipses causados pela passagem deles à frente de suas respectivas estrelas. Na última parcial, o catálogo de potenciais exoplanetas contava com 4.175 exemplares. A nova atualização — a primeira a levar em conta o total de dados colhidos pelo Kepler em sua missão original, entre 2009 e 2013 — adicionou cerca de 500 novos objetos.

Estima-se que cerca de 90% das detecções sejam reais, e não algum falso positivo, mas mesmo assim os cientistas usam todos os meios à disposição para verificar o achado de forma independente. Isso já foi feito para o Kepler-452b, uma possível “Terra do futuro”.

O satélite Kepler detecta planetas observando trânsitos deles à frente de suas estrelas-mães. (Crédito: Nasa)
O satélite Kepler detecta planetas observando trânsitos deles à frente de suas estrelas-mães. (Crédito: Nasa)

NA DIVISA
As detecções feitas pela observação de “trânsitos planetários” permitem estimar com alguma precisão o tamanho do astro, mas não sua massa. Com apenas uma das duas informações, fica difícil estimar sua composição. Então, é bom avisar: não sabemos se o Kepler-452b de fato se parece com a Terra.

Contudo, estudos feitos com exoplanetas que tiveram tanto sua massa como seu volume medidos sugerem que existe uma fronteira, mais ou menos na marca de 1,6 diâmetro terrestre. Os mundos que têm esse tamanho ou menos tendem a ser rochosos, como o nosso, e os maiores que isso provavelmente são versões em miniatura de Netuno, o menor dos gigantes gasosos do nosso Sistema Solar.

Kepler-452b cai bem na linha divisória: 1,6 diâmetro terrestre. Isso significa que ele tende a ser rochoso. Mas não há como ter certeza no momento.

OS 10% QUE FAZEM A DIFERENÇA
A estrela Kepler-452, por sua vez, é uma anã amarela, como o Sol, e tem apenas 4% mais massa que o nosso astro-rei. Em compensação, como é mais velha, é também um pouco mais brilhante. Isso significa que o Kepler-452b recebe atualmente 10% mais radiação que a Terra. E pode ser uma diferença fatal.

Modelos de evolução solar sugerem que, em mais ou menos 1 bilhão de anos, o aumento de brilho do Sol fará com que a Terra se torne inabitável. A radiação adicional emitida aquecerá o planeta de forma a evaporar os nossos oceanos. Com tanto vapor d’água na atmosfera, a temperatura subirá centenas de graus com relação a atual. Nosso planeta se tornará tão inóspito quanto Vênus.

“Se o Kepler-452b é de fato um planeta rochoso, sua localização com relação a sua estrela pode significar que ele está entrando numa fase de efeito estufa descontrolado”, disse Doug Caldwell, cientista do Instituto SETI envolvido com a missão da Nasa. “O Kepler-452b pode estar experimentando agora o que a Terra sofrerá daqui a mais de um bilhão de anos, conforme o Sol envelhecer e se tornar mais brilhante.”

Concepção artística do Kepler-452b visto do espaço (Crédito: Nasa)
Concepção artística do Kepler-452b visto do espaço (Crédito: Nasa)

A descoberta ilustra alguns pontos importantes. Um deles é um que, com base em estudos estatísticos, na prática já sabemos desde 2013: planetas com porte similar ao da Terra em órbitas similares às da Terra em torno de estrelas similares ao Sol são comuns no Universo.

Outro ponto importante, e talvez menos apreciado, seja o fato de que a região conhecida como “zona habitável” é um conceito bem flexível. Kepler-452b hoje possivelmente está se tornando um inferno escaldante, mas, no passado, quando sua estrela era menos brilhante, seu clima pode ter sido tão ameno quanto o da Terra. A vida pode ter florescido lindamente lá, muito antes que surgissem os primeiros animais em nosso próprio mundo. E se, em vez dele, tivéssemos por lá um mundo como Marte, com porte menor e atmosfera mais rarefeita, o ambiente provavelmente seria propício à vida até hoje. Ou seja, habitabilidade não depende só da região do sistema em que o planeta orbita, mas de características intrínsecas do próprio mundo e da evolução de sua estrela-mãe.

Comparação entre a Terra e o Sol, e Kepler-452b e sua estrela-mãe (Crédito: Nasa)
Comparação entre a Terra e o Sol, e Kepler-452b e sua estrela-mãe (Crédito: Nasa)

MUITO MAIS DE ONDE VEIO ESSE
Além de Kepler-452b, o novo catálogo de objetos de interesse inclui 11 novos candidatos a planeta com menos de duas vezes o diâmetro da Terra orbitando na zona habitável de suas estrelas.

Até agora, o satélite da Nasa já identificou oito planetas confirmados com potencial para serem habitáveis, ou seja, capazes de manter água em estado líquido na superfície. Desses, o mais interessante é Kepler-186f, que tem praticamente o mesmo tamanho da Terra.

Uma comparação dos sistemas Kepler-186, Kepler-452 e o Solar. (Crédito: Nasa)
Uma comparação dos sistemas Kepler-186, Kepler-452 e o Solar. (Crédito: Nasa)

Embora sua missão original tenha sido concluída em 2013, após a pifada de dois dos giroscópios do satélite, o Kepler segue em operação num novo projeto, denominado K2. Em vez de olhar fixamente para uma só posição do céu, como ele fez entre 2009 e 2013, ele agora se alterna entre diversos pedaços do firmamento ao longo das constelações do zodíaco. E pode apostar que novas descobertas vêm por aí. É só esperar.

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