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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Astrônomo descobre ‘Halley brasileiro’

Por Salvador Nogueira

A equipe do Observatório Sonear, em Minas Gerais, ataca novamente, desta vez com a descoberta de um cometa que tem órbita similar à do famoso Halley. Tá bom pra você ou quer mais?

Imagem obtida pelo italiano Ernesto Guido, com o Observatório Siding Spring, confirmando a descoberta do "Halley brasileiro" (Crédito: Ernesto Guido)
Imagem obtida pelo italiano Ernesto Guido, com o Observatório Siding Spring, em 31 de agosto, confirmando a descoberta do “Halley brasileiro” (Crédito: Ernesto Guido)

O astro foi batizado de Pimentel, em homenagem ao astrônomo amador Eduardo Pimentel, membro do grupo que fez a descoberta, ao analisar imagens colhidas pelos telescópios do observatório, em 24 de agosto. As instalações do Sonear — bancado totalmente com recursos privados — ficam na zona rural da pequena cidade de Oliveira, a 130 km de Belo Horizonte.

“A órbita deste cometa é classificada como do tipo Halley, ou seja, com período maior que 20 anos e menor que 200 anos”, destaca Cristóvão Jacques, que lidera o esforço do Sonear.

Trata-se do quarto cometa descoberto pela equipe em menos de dois anos de operação e o primeiro deles classificado como periódico, ou seja, com uma órbita elíptica que o traz periodicamente para a região interna do Sistema Solar. O pessoal do Sonear já havia descoberto o primeiro cometa 100% brasileiro, e agora eles encontraram o primeiro cometa periódico descoberto no Brasil. No hemisfério Sul, desde o fim do 2013, não tem para mais ninguém.

Imagens da descoberta do cometa, colhidas pelo Sonear em 24, 27 e 31 de agosto. (Crédito: Sonear)
Imagens da descoberta do cometa, colhidas pelo Sonear em 24, 27 e 31 de agosto. (Crédito: Sonear)

O observatório é, por definição, amador (ou seja, operado sem remuneração), mas seus resultados são de um profissionalismo incrível. Projetado originalmente para descobrir e rastrear asteroides que pudessem ameaçar à Terra, ele já descobriu 15 novos objetos desse tipo. Felizmente, nenhum deles vai colidir conosco.

Por seus esforços, o Sonear (sigla para Southern Observatory for Near Earth Asteroid Research) recebeu recentemente o Prêmio Edgar Wilson de 2014, concedido pelo Smithsonian Astrophyisical Observatory, nos Estados Unidos.

O NOVO COMETA
Registrado junto à IAU (União Astronômica Internacional) com a sigla P/2015 Q2, o cometa Pimentel completa uma volta inteira ao redor do Sol em 21,3 anos. A exemplo do Halley, ele também tem uma órbita dita retrógrada — o cometa avança na direção oposta à dos planetas — e bastante desalinhada com relação ao plano do Sistema Solar.

A órbita do cometa Pimentel. A órbita vermelhinha é a de Marte, e a laranja, a de Júpiter. (Crédito: IAU)
A órbita do cometa Pimentel. A órbita vermelhinha é a de Marte, e a laranja, a de Júpiter. (Crédito: IAU)

Sua aproximação máxima do Sol (periélio, para os íntimos) acontece a 1,82 unidades astronômicas de distância do astro-rei. Na prática, isso quer dizer que o cometa nunca adentra sequer a órbita de Marte. (Uma UA é definida como a distância média Terra-Sol, aproximadamente 150 milhões de km.)

É uma órbita bem mais larga, portanto, que a do cometa Churyumov-Gerasimenko, que recebeu, no ano passado, a visita das sonda europeia Rosetta e do módulo de pouso Philae (ambos ainda estão lá). Isso significa que o Pimentel provavelmente jamais chegou perto o suficiente do Sol para sofrer transformações muito significativas. Em outras palavras, ele é uma relíquia praticamente intocada da época em que os planetas ainda estavam se formando, 4,6 bilhões de anos atrás.

“Meu palpite é que esse cometa veio da nuvem de Oort e em algum momento foi capturado pela ação de Júpiter e levado a se tornar periódico”, diz Jacques. “Mas para confirmar isso seria preciso realizar simulações complicadas da evolução dele.”

Uma coisa, contudo, é certa: por ser periódico e ter um periélio perto da órbita de Marte, ele seria um ótimo candidato para futura visitação por uma espaçonave.

Quem sabe um dia a Agência Espacial Brasileira decide mandar uma sonda não-tripulada para explorar de perto o cometa Pimentel? Pode parecer um cenário improvável hoje, a julgar pelo estado vergonhoso do nosso programa espacial, mas pense bem: esse cometa dá uma volta no Sol a cada 21 anos e provavelmente não sairá dessa toada nos próximos milhões de anos. Temos tempo para planejar…

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