Mensageiro Sideral

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Supercivilizações subiram no telhado

Por Salvador Nogueira

O silêncio cósmico acaba de ficar um pouquinho mais ensurdecedor. Um novo estudo mais detalhado de uma amostra de galáxias com uma assinatura estranha de infravermelho, antes cogitada como possível fruto de imensas obras empreendidas por supercivilizações alienígenas, sugere que essa emissão tem causas naturais. Na prática, isso quer dizer que supercivilizações desse tipo muito provavelmente não existem em lugar algum do Universo.

Concepção artística de uma supercivilização encapsulando uma estrela para colher sua energia (Crédito: Astron)
Concepção artística de uma supercivilização encapsulando uma estrela para colher sua energia (Crédito: Astron)

O leitor habitual do Mensageiro Sideral há de se lembrar do frisson que causou o estudo publicado no ano passado, em que, de uma amostra de 100 mil galáxias, foram detectadas 50 que tinham um excesso de emissão no infravermelho médio, possivelmente explicável pela existência de uma supercivilização capaz de consumir pelo menos 50% do total de energia irradiado pela galáxia.

O trabalho fez parte do levantamento G-HAT, que se baseou em dados colhidos pelo satélite Wise da Nasa. “A ideia por trás da nossa pesquisa é que, se uma galáxia inteira tivesse sido colonizada por uma civilização espacial avançada, a energia produzida pelas tecnologias daquela civilização seria detectável em comprimentos de onda do infravermelho médio — exatamente a radiação que o satélite Wise foi projetado para detectar, para outros propósitos astronômicos”, disse, na ocasião, Jason Wright, astrônomo da Universidade Estadual da Pensilvânia e criador do projeto.

O burburinho todo, na ocasião, foi pelo fato de o trabalho original ter encontrado cerca de 50 galáxias com níveis incomumente altos de radiação no infravermelho médio. Os pesquisadores já esperavam topar com uma resposta natural para o fenômeno, mas para isso seria preciso fazer uma investigação mais a fundo delas.

E foi isso exatamente o que realizou agora Michael Garrett, do Instituto para Radioastronomia da Holanda. Em um novo artigo, aceito para publicação na revista científica “Astronomy and Astrophysics”, o pesquisador procedeu com uma análise dos 92 alvos mais promissores da pesquisa G-HAT, por meio de observações em rádio.

Em princípio, o excesso de infravermelho médio poderia ser resultado de civilizações tão obcecadas pelo consumo de energia que chegavam a encapsular a maior parte das estrelas de sua própria galáxia em invólucros capazes de absorver toda a radiação — as chamadas esferas de Dyson, concebidas pelo físico britânico Freeman Dyson –, e então, dissipar parte disso para fora na forma de calor.

A constatação do trabalho, no entanto, é de que o excesso de radiação no infravermelho médio pode ser mais bem explicado pela presença de poeira aquecida em regiões de intensa formação estelar. É o que corroboram as observações feitas em rádio dessas mesmas galáxias. Na prática, isso quer dizer que civilizações que evoluem para consumir a maior parte da energia produzida em sua galáxia muito provavelmente não existem.

QUEM TEVE ESSA IDEIA?
Em 1964, o astrofísico russo Nikolai Kardashev propôs que civilizações avançadas pudessem ser classificadas de acordo com seu nível de consumo de energia. As de tipo I seriam aquelas que usufruem do equivalente energético da radiação que chega a seu planeta emanada de seu sol. As de tipo II teriam à sua disposição a energia equivalente à produção toal de sua estrela (ou seja, poderiam construir uma única esfera Dyson e ficar confinadas em seu próprio sistema planetário e adjacências). Finalmente, as de tipo III teriam energia compatível com a produção em escala galáctica.

A nossa, no momento, nem chegou ainda ao tipo I (mas estamos quase lá, e calcula-se que, a continuarmos no atual caminho, chegaremos nisso até o final deste século). Já o projeto G-HAT buscava sinais de civilização do tipo III ou, na pior das hipóteses, numa posição intermediária entre as de tipo II e III.

Nem todas as galáxias promissoras da pesquisa original do G-HAT foram estudadas em suficiente detalhe no novo trabalho, mas, das nove mais esquisitas e compatíveis com uma supercivilização, pelo menos três delas têm propriedades que podem ser razoavelmente bem explicadas por interpretações astrofísicas. “As outras não foram estudadas em nenhum detalhe maior, e merecem mais observação”, diz Garrett, ressalvando que é bem provável que explicações convencionais também se encaixem bem nelas. “Partindo das propriedades de conjunto da amostra do G-HAT, concluo que civilizações de Kardashev do tipo III são ou muito raras ou não existem no Universo local.”

Isso desanima? Não deveria. É uma boa notícia, na verdade. Em primeiro lugar, é uma evidência forte de que na Via Láctea também não há uma supercivilização que um belo dia possa querer encapsular o Sol para atender às suas crescentes demandas energéticas. Ufa!

Mais importante, contudo, é a demonstração que o trabalho dá de como a pesquisa SETI (sigla para Busca por Inteligência Extraterrestre) segue o rigor científico que esperamos dela. Propõe-se uma hipótese verificável — no caso, civilizações avançadíssimas poderiam produzir sinais mensuráveis por conta de sua tecnologia — e testa-se com observações e possíveis explicações. Sem dogmatismo. A natureza irá responder. Nesse caso, ela respondeu negativamente, e o fato de conseguirmos determinar que civilizações do tipo III não são uma coisa comum — e muito possivelmente nem existem — é um resultado importantíssimo.

No mínimo, essas pesquisas dão uma pista do que serão provavelmente nossas limitações máximas como civilização. E nos obrigam a pensar como civilizações como a nossa evoluem — ou se extinguem –, sem nunca chegar a um tipo III “clássico”, por assim dizer. (Acabo de publicar um novo livro que sugere que o fim da civilização humana, caso não tenhamos mais sabedoria durante o século 21, pode estar na próxima esquina. Vai saber se não é isso que acontece a todas as civilizações antes que atinjam o tipo III?)

“Estamos sem uma parte importante do quebra-cabeça”, diz Garrett, tentando ser mais otimista. “Talvez civilizações avançadas sejam tão eficientes energeticamente que produzam muito pouco calor de dissipação — nosso entendimento atual da física torna isso uma coisa difícil. O que é importante é continuar procurando as assinaturas de inteligência extraterrestre até que entendamos completamente o que está acontecendo.”

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