Mensageiro Sideral

De onde viemos, onde estamos e para onde vamos

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Onde está todo mundo?

Por Salvador Nogueira

Uma simulação da evolução da Via Láctea feita por uma dupla internacional de astrofísicos sugere que a propensão ao surgimento de vida inteligente é maior nas regiões mais internas do disco galáctico, mais perto do centro da galáxia do que na faixa onde a Terra está localizada.

Concepção artística da Via Láctea; o círculo amarelo indica a posição do Sistema Solar. Simulação sugere que há mais propensão para vida inteligente nas regiões mais centrais da galáxia (Crédito: Nasa)
Concepção artística da Via Láctea; o círculo amarelo indica a posição do Sistema Solar. Simulação sugere que há mais propensão para vida inteligente nas regiões mais centrais da galáxia (Crédito: Nasa)

Segundo Ian Morrison, da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, e Michael Gowanlock, da Universidade do Havaí, nos Estados Unidos, o mesmo nível de oportunidade que a faixa da galáxia que inclui o Sistema Solar tem hoje de abrigar uma civilização — e nós sabemos que há pelo menos uma, a nossa, aí nesse lugar — foi atingido nas áreas mais internas da Via Láctea cerca de 2 bilhões de anos atrás! Isso significa que, se surgiu alguém mais nessas regiões, essas sociedades alienígenas tendem a ser vastamente mais antigas — e avançadas — do que nós.

Certo, tudo muito interessante, mas você obviamente não aceitará essa conversa toda sem entender de onde estão vindo esses números, não é mesmo? Por sorte, Morrison e Gowanlock escreveram um artigo de 47 páginas recém-publicado no periódico científico “Astrobiology”, explicando tim-tim por tim-tim a história. E hoje é mesmo seu dia de sorte, porque o Mensageiro Sideral vai contar tudo, mas com um texto muito menor e mais divertido!

A EVOLUÇÃO DA GALÁXIA E DA VIDA
Tudo começa ao entendermos como a galáxia evolui. Morrison e Gowanlock partem do que os astrônomos mais ou menos já sabem — a galáxia envelhece de dentro para fora, e a densidade de estrelas é maior quanto mais perto do centro da Via Láctea.

Isso, por si só, já ajuda a entender parte do negócio. Como planetas rochosos são feitos de elementos pesados, e elementos pesados são forjados no coração das estrelas e depois espalhados quando elas morrem, semeando a geração estelar seguinte. Quanto mais “evoluída” quimicamente é um setor da galáxia, maior a chance de ele ter planetas habitáveis, como a Terra.

Para vida simplesmente, o raciocínio é basicamente esse. Onde a galáxia for mais “velha” do ponto de vista químico e tiver mais planetas habitáveis, devem existir mais mundos efetivamente habitados.

Mas Morrison e Gowanlock não querem estimar onde está a chamada “zona habitável galáctica” para bactérias que vivem em fontes hidrotermais no fundo de um oceano qualquer. Eles estão atrás de vida inteligente. E aí as coisas ficam mais complicadas. Porque se há uma coisa que sabemos pela história da própria Terra é que a evolução da inteligência demanda uma quantidade significativa de tempo. Bilhões de anos.

Primeiro, formas de vida simples precisam evoluir para criaturas complexas, ou seja, animais. E, depois, animais precisam evoluir para seres capazes de fazer as cenas de abertura de “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Olhando para o registro fóssil da Terra, temos a impressão de que, por aqui, o passo número 1 parece ter dependido da oxigenação da atmosfera — e de tempo para a evolução. Por aqui, entre a oxigenação atmosférica e o surgimento de vida animal complexa, passaram-se cerca de 1,5 bilhão de anos.

Na Terra primitiva, a atmosfera pobre em oxigênio "barrou" a evolução animal por bilhões de anos.
Na Terra primitiva, a atmosfera pobre em oxigênio “barrou” a evolução animal por bilhões de anos.

Ou seja, tomando nosso planeta como um exemplo típico, para chegarmos a ter animaizinhos fofos (ou não tão fofos) caminhando pela superfície de algum planeta lá fora, ele precisa passar pelo menos 1,5 bilhão de anos sem ser perturbado para ter ao menos alguma chance de chegar à vida complexa. E depois ainda precisamos dar mais tempo à evolução, até ela encontrar um caminho viável entre os equivalentes alienígenas dos trilobitas e dos humanos. Na Terra, isso levou uns 600 milhões de anos. No total, 2,1 bilhões de anos sem um chamado “evento esterilizante” para que pudéssemos estar aqui hoje trocando essas figurinhas.

Mas no que consiste esse tal “evento esterilizante”? Não estamos falando de um asteroide qualquer, supervulcanismo, ou qualquer outra megacatástrofe trivial. Essas coisas fazem um estrago danado, podem matar mais de 90% de todos os bichos, mas jamais conseguiram acabar com a vida animal na Terra de forma completa. Zerar a evolução animal exige algo muito pior: a detonação de uma supernova próxima.

Uma explosão dessas, mesmo a mais de uma centena de anos-luz de distância, pode detonar a camada de ozônio de um planeta oxigenado. Aí, o que a radiação inicial da supernova não matou, os raios ultravioleta da estrela-mãe tratam de exterminar. Game over. Retry?

E aí, quando levamos em conta esse aspecto da questão, é que as regiões centrais da galáxia poderiam em tese ficar menos simpáticas. Elas são mais ricas em elementos pesados, essenciais à vida? Sim! Também são mais densas, em termos de estrelas e planetas habitáveis? Sim! Mas também têm mais supernovas próximas a esses mundos! Problema à vista?

Difícil dizer de cara. É meio como morar numa cidade superpopulosa, como São Paulo, e muito violenta, como São Paulo. São muitos crimes todos os dias, mas o número imenso de habitantes pode diluir a probabilidade de que você seja o assaltado da vez. Ou não. Será que o número maior de planetas habitáveis compensa o número maior de supernovas nas regiões mais centrais da galáxia?

Simulação da onda de choque da supernova W44, feita pela Universidade Keio.
Simulação da onda de choque da supernova W44, feita pela Universidade Keio. Cabum!

ESTUDANDO A CIBERGALÁXIA
Morrison e Gowanlock resolveram testar isso, construindo uma simulação de computador que representasse de forma fiel, ao longo do tempo, o aparecimento de planetas habitáveis em todas as regiões da Via Láctea (menos o centrão mesmo, uma região com raio de 8.000 anos-luz em torno do núcleo galáctico) e, ao mesmo tempo, também simulasse a detonação de supernovas ao longo do tempo.

Então, contrastaram isso com os intervalos disponíveis entre eventos esterilizantes em mais de 70 milhões de planetas habitáveis simulados. E o que eles descobriram é que, embora o número de supernovas nas regiões mais internas da Via Láctea seja bem maior, o número ainda maior de planetas potencialmente habitáveis acaba se sobrepondo, de forma que as chances de mundos com 1,5 bilhão de anos ou mais de evolução sem eventos esterilizantes são maiores mais para dentro.

“Mesmo se variemos o tempo esperado para a emergência da inteligência para um valor mais de três vezes maior do que aquele que foi exigido na Terra, o disco interno da galáxia fornece o maior número de oportunidades para a inteligência emergir, a despeito de ter uma taxa de supernovas maior do que todas as outras localizações no disco”, escrevem os pesquisadores.

Embora os cálculos não permitam estimar o número de civilizações, é possível calcular o número médio de oportunidades para que elas aparecessem em várias regiões da galáxia ao longo do tempo. E o mesmo número de oportunidades que encontramos hoje, a uma distância de 26 mil anos-luz do centro da galáxia — vulgo, nossa posição na Via Láctea –, já existia nas regiões mais internas cerca de 2 bilhões de anos atrás.

Também é possível afirmar que as chances melhoram um pouco para estrelas que estão um pouco acima ou abaixo do plano do disco galáctico (nós estamos bem no meio dele!) e que o número de oportunidades para vida inteligente cai drasticamente na direção da periferia da galáxia, mergulhando a virtualmente zero a uns 47 mil anos-luz do centro. (O raio da Via Láctea tem entre 50 mil e 60 mil anos-luz.)

Outra conclusão geral — talvez meio óbvia — é a de que as chances estão melhorando cada vez mais em toda a galáxia, independentemente da distância ao centro. “Elas são atualmente as maiores já vistas na história galáctica e continuarão a subir por vários bilhões de anos no futuro”, dizem os autores.

E o que isso informa de fato sobre as chances de encontrarmos outra civilização lá fora? Muito pouco, na verdade. O que dá para dizer é que, se o caso terrestre for minimamente típico, devem existir mais sociedades inteligentes nas regiões centrais da galáxia do que na nossa própria faixa. Mas, na real, não sabemos se o exemplo da Terra pode ser usado como referência. “A emergência da vida e a da inteligência podem ser eventos verdadeiramente raros, e sua ocorrência na Terra pode ser um desvio estatístico. É possível que nenhuma outra forma de inteligência (ou vida de qualquer tipo) tenha surgido em qualquer outro lugar da nossa galáxia”, alertam Morrison e Gowanlock. “Entretanto, a alternativa — de que a vida e a inteligência existam em outro lugar da nossa galáxia — também é possível, e os resultados desse estudo sugerem que esse possa ser o cenário mais provável.”

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