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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Um satélite brasileiro em Plutão

Por Salvador Nogueira

Preparado para mais uma bateria de imagens feitas pela sonda New Horizons durante sua passagem por Plutão? Pois essa leva é especial, pois traz uma observação detalhada de um conjunto de colinas que os cientistas da missão decidiram batizar em homenagem ao primeiro satélite brasileiro!

Esse conjunto de colinas ao centro recebeu o nome provisório de Coleta de Dados, em homenagem ao Satélite de Coleta de Dados brasileiro! (Crédito: Nasa)
Esse conjunto de colinas ao centro recebeu o nome provisório de Coleta de Dados, em homenagem ao Satélite de Coleta de Dados (SCD-1) brasileiro, lançado em 1993! (Crédito: Nasa)

Eis aí as colinas Coleta de Dados, assim referenciadas em celebração ao Satélite de Coleta de Dados 1 (SCD-1), lançado em 1993 pelo Brasil a bordo de um foguete americano Pegasus.

O nome brasileiro chegou a Plutão por meio de uma sugestão feita pelo Grupo de Observação Astronômica de Santo André (Goasa), e foi a única nacional a ser abraçada pela equipe da Nasa.

A escolha seguiu a temática geral adotada pelo pessoal da New Horizons de privilegiar esforços e feitos pioneiros e lembra que o Brasil já teve seus bons momentos no espaço, a despeito das dificuldades atuais com nosso programa.

As colinas Coleta de Dados ficam em meio à região Tombaugh (o famoso “coração” de Plutão, que presta homenagem ao descobridor do astro, Clyde Tombaugh), mais especificamente (e de forma apropriada) no plano Sputnik (referência ao primeiro satélite artificial da história, lançado pela União Soviética em 1957).

Todos os nomes ainda são provisórios e carecem de aprovação pela IAU (União Astronômica Internacional), a “Fifa da astronomia”. Aliás, há uma certa animosidade perene entre a organização supranacional e o pessoal da New Horizons.

O QUE HÁ NUM NOME?
A antipatia mútua nasceu em 2006. A sonda havia acabado de decolar a caminho do planeta Plutão, e a IAU decidiu que ele não era mais planeta. Alan Stern, o cientista-chefe da New Horizons nunca engoliu o rebaixamento. Em todas as coletivas ligadas à missão, ele fez questão de chamar Plutão de planeta, ponto.

E então as imagens estonteantes da New Horizons começaram a chegar e o grupo da Nasa começou a adotar as sugestões que vieram do mundo todo por meio de uma campanha prévia realizada no site OurPluto.org (foi como o Goasa submeteu a sugestão brasileira). E anunciá-las publicamente.

Imagens estonteantes tipo essa. Clique para ser estonteado!
Imagens estonteantes tipo essa, com incremento de cor. Clique para ser estonteado! (Crédito: Nasa)

A IAU ficou furiosa, naturalmente, porque agora ela está na desconfortável posição de descartar nomes que têm a apreciação do público e foram abraçados pelos descobridores das características geológicas de Plutão, embora sejam incompatíveis com suas diretrizes anteriormente estabelecidas.

“Francamente, teríamos preferido que a equipe da New Horizons tivesse nos abordado antes de colocar todos esses nomes informais em toda parte”, disse ao site GeekWire a cientista planetária brasileira Rosaly Lopes, que trabalha para a Nasa e é membro do grupo de trabalho da IAU responsável pela nomenclatura.

Aliás, a julgar por um comunicado da IAU lançado em 24 de março (meses antes do sobrevoo da New Horizons, portanto), o nome em homenagem ao satélite brasileiro não deve permanecer nos mapas oficiais. Isso porque nomes de missões espaciais e de espaçonaves não seriam aceitos, “pois esses temas que já foram usados em Mercúrio, Vênus e Marte”. Exploradores da Terra, do ar e dos mares também seriam excluídos pelo mesmo critério.

A seguir essa regra, devem cair tanto as colinas Coleta de Dados, como o plano Sputnik e os montes Hillary e Norgay. Entendeu agora por que a IAU está pê da vida com a New Horizons por colocar todos esses nomes sabendo que, em tese, seriam recusados? E percebeu que Alan Stern está mesmo querendo dar um chute no saco da IAU? Não é preciso ser o Eduardo Cunha para perceber que o pessoal da missão está querendo, pouco a pouco, minar a autoridade da organização internacional. E, quem sabe, obter reconhecimento público para o status “planetário” de Plutão.

O engenheiro espacial brasileiro Aydano Carleial, que foi gerente do programa SCD, no Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), e hoje é presidente da Associação Aeroespacial Brasileira (AAB), não tem nada com a briga, mas torce pela manutenção do nome. “Espero que conte com apoio para prevalecer”, diz. Mas uma coisa já é certa: seja qual for a decisão final da IAU, a saia-justa será grande.

Mapa do hemisfério visível de Plutão durante a aproximação máxima. Se você não clicar na foto, vai se arrepender (Crédito: Nasa)
Mapa do hemisfério visível de Plutão durante a aproximação máxima. Se você não clicar na foto, vai se arrepender (Crédito: Nasa)

VAMOS FALAR DE PLUTÃO?
Pois é, mas nem só de nomenclatura vivem as novidades do planeta anão (ou planeta, ponto, vai que cola). As novas imagens — eu sei, você já deve estar acostumado — são espetaculares. E, desta vez, coloridas. Aliás, “ultracoloridas”, porque tiveram as cores realçadas e incrementadas com medições em infravermelho. (Ou seja, você não veria tantos tons assim com os próprios olhos, mas eles estão lá!)

Que Plutão é esse? Os cientistas não fazem ideia de como interpretar isso. (Crédito: Nasa)
Que Plutão é esse? Os cientistas não fazem ideia de como interpretar isso. (Crédito: Nasa)

Comecemos com esse terreno bizarro. “Ele se parece mais com casca de árvore ou escamas de dragão do que geologia”, brincou William McKinnon, geólogo da New Horizons. “Essa vai levar um tempo para entendermos; talvez seja uma combinação de forças tectônicas internas e sublimação de gelo conduzida pela suave luz solar de Plutão.”

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Temos também uma imagem mais ampla do plano Sputnik, com as colinas Coleta de Dados à direita e montanhas à esquerda, seguidas por um terreno mais antigo e marcado por crateras. As montanhas são feitas de gelo de água, e há sinais das dunas de Plutão.

Medições por espectrometria mostram que o metano detectado na superfície parece se concentrar muito mais nas regiões mais claras, sobretudo na região Tombaugh. “Não temos certeza do porquê disso, mas a coisa legal é que a New Horizons tem a habilidade de fazer mapas incríveis de composição da superfície e isso será crucial para descobrirmos como o enigmático Plutão funciona”, disse Will Grundy, da equipe de composição superficial da New Horizons.

E Stern termina a nota de divulgação da Nasa com uma retumbante declaração: “Com essas imagens e esses mapas recém-descarregados, viramos uma nova página no estudo de Plutão, começando a revelar o planeta em alta resolução tanto em cores como em composição. Queria que o descobridor de Plutão, Clyde Tombaugh, tivesse vivido para ver este dia.”

E você reparou como ele chamou Plutão de planeta, né?

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