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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Parte da Via Láctea se tornou ‘estéril’, diz estudo

Por Salvador Nogueira

Há definitivamente algo de estranho com a Via Láctea. Ao que parece, existe uma vasta região em torno do centro da galáxia que foi “esterilizada” — novas estrelas praticamente não nascem lá há centenas de milhões de anos.

O achado foi feito por uma equipe liderada por Noriyuki Matsunaga, da Universidade de Tóquio, em parceria com astrônomos sul-africanos e italianos, e os resultados acabam de ser publicados no periódico “Monthly Notices of the Royal Astronomical Society”.

O estudo se concentrou na detecção de um certo tipo de estrela, as chamadas variáveis cefeidas. Elas são interessantes porque têm um um padrão de pulsação específico, de acordo com a sua rotação, que permite estimar com alguma precisão sua distância — um elemento essencial para descobrir onde elas exatamente elas estão no contexto da galáxia. Lembre-se: a Via Láctea é uma galáxia espiral, semelhante a tantas outras que vemos nas imagens obtidas pelo telescópio Hubble, mas, como estamos do lado de dentro dela, temos uma noção bastante precária de sua organização interna — nós a vemos daqui como uma faixa estreita a cruzar o céu, e só.

Matsunaga e seus colegas se concentraram numa faixa do céu que passa pelo centro da galáxia, localizado na constelação de Sagitário, em busca de variáveis cefeidas. Além de permitirem uma estimativa de distância, elas são o resultado de uma das fases finais de estrelas bem maiores que o Sol — o que significa que elas vivem bem menos que o nosso astro-rei. Enquanto o nosso Sistema Solar já tem 4,6 bilhões de anos, as variáveis cefeidas só podem ter entre 10 milhões e 300 milhões de anos. São, portanto, uma boa referência do nível de formação estelar em tempos recentes nas regiões do espaço que ocupam.

O Sol está a meio caminho entre o centro e a borda da galáxia, a cerca de 26 mil anos-luz do buraco negro supermassivo que mora no coração da Via Láctea. A expectativa original era a de que, olhando “para dentro”, na direção do centro galáctico, eles encontrariam densidade maior de cefeidas, indicando maior nível de produção estelar.

Em amarelo, as cefeidas identificadas, quatro mais perto do centro, e as demais todas do outro lado da galáxia. Note a posição do Sol, outras cefeidas conhecidas em nossa região, e o deserto no centro, em verde claro (Crédito: Universidade de Tóquio)
Em amarelo, as cefeidas identificadas, quatro mais perto do centro, e as demais todas do outro lado da galáxia. Note a posição do Sol, outras cefeidas conhecidas em nossa região, e o deserto no centro, em verde claro (Crédito: Universidade de Tóquio)

O resultado, entretanto, foi bastante surpreendente. Embora eles tenham confirmado a descoberta anterior de algumas cefeidas muito próximas do centro, a apenas 150 anos-luz de distância dele, não puderam achar nenhuma que num anel que começava um pouco mais afastado do centro galáctico e avançava a um raio de cerca de 8.000 anos-luz do centro — um deserto de cefeidas nas regiões mais internas. Eles só puderam encontrá-las além do centro, bem afastadas.

O trabalho é consistente com observações em rádio que indicavam fraca formação estelar naquela área, mas intriga os astrônomos. O que gerou a “esterilização” da região? Mistééério.

BÔNUS: Dicas de observação celeste em agosto!
O popular “alinhamento planetário”, que permitiu a visualização dos cinco planetas clássicos (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno) no céu ao mesmo tempo, continua em agosto, e terá um marco final apoteótico no dia 27, quando Mercúrio, Vênus e Júpiter farão uma conjunção tripla bem pertinho do horizonte oeste. Além disso, em agosto, no dia 12, temos o pico da chuva de meteoros Perseidas. Confira as dicas de observação deste mês no vídeo abaixo!

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