Mensageiro Sideral

De onde viemos, onde estamos e para onde vamos

 -

Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

Recebemos um sinal de rádio artificial de uma estrela gêmea solar a 95 anos-luz da Terra?

Por Salvador Nogueira

Talvez — apenas talvez — astrônomos tenham detectado um sinal de rádio vindo de uma civilização extraterrestre avançada.

Antes que alguns comecem a dar pulinhos de alegria e outros tirem as calças e pisem em cima, vamos colocar os pingos nos is. Por enquanto, tudo que temos é a detecção de um pulso forte de rádio vindo da estrela HD 164595, na constelação de Hércules. E muito, muito provavelmente mesmo, não é nada demais.

Trata-se de uma estrela muito parecida com o Sol (0,99 massa solar), só que um pouco mais velha (idade estimada em 6,3 bilhões de anos), localizada a cerca de 95 anos-luz de distância. É uma virtual gêmea solar, que já teve seus parâmetros estudados pelo astrônomo brasileiro Gustavo Porto de Mello, do Observatório do Valongo (UFRJ). Astrônomos sabem que ela tem pelo menos um planeta — um astro do tamanho de Netuno que dá uma volta em torno dela a cada 40 dias.

No momento da detecção, a estrela estava sendo monitorada por um grupo de astrônomos com o radiotelescópio Ratan-600, na Rússia.

O radiotelescópio Ratan-600 fica em território russo, perto da divisa com a Georgia (Crédito: Wikipedia Commons)
O radiotelescópio Ratan-600 fica em Zelenchuskskaya, na Rússia, perto da divisa com a Georgia (Crédito: Wikipedia Commons)

O sinal foi recebido no dia 15 de maio de 2015 e durou por apenas dois segundos, com comprimento de onda de 2,7 cm (frequência de 11 GHz). Desde então, nunca mais se repetiu, tampouco foi detectado por outro radiotelescópio. Além disso, os radioastrônomos não estavam fazendo uma recepção que pudesse distinguir com clareza a largura de banda (banda estreita teria maior chance de ser artificial, banda larga provavelmente seria uma fonte natural). Para terminar, na Terra, a frequência do sinal detectado está dentro da faixa reservada para uso militar.

A comunidade envolvida na SETI (busca por inteligência extraterrestre, na sigla em inglês) não costuma dar muita trela a sinais assim, pois eles podem ser basicamente qualquer coisa — desde um satélite passando no céu naquela hora até a amplificação de um sinal natural que viesse de mais longe que HD 164595, por meio de um efeito de lente gravitacional. Pode também ser uma transmissão alienígena? Poder, pode. Mas muito provalmente não é.

Curva do sinal detectado e resultado simulado para uma fonte pontual (Crédito: Bursov et al.)
Curva do sinal detectado e resultado simulado para uma fonte pontual (Crédito: Bursov et al.)

Justamente para lidar com coisas assim, o pessoal do SETI criou a escala Rio. Destinada a ajudar a comunicar à imprensa potenciais descobertas, ela vai de zero (desencanem!) a dez (extraordinário!) e recebeu esse nome por ter sido anunciada pela astrofísica Jill Tarter durante o Congresso Internacional de Astronáutica realizado no Rio de Janeiro, em 2000.

Pois bem. O sinal de HD 164595 marca no máximo 2 na escala Rio, o que significaria “interesse baixo”, e mais provavelmente atingiria apenas 1, “insignificante”. Ou seja, nada tão interessante, na verdade.

E por que isso está aparecendo na imprensa agora, somente um ano depois que o sinal foi detectado? Bem, porque alguém reparou que o grupo de cientistas responsável pela descoberta apresentará um artigo sobre o caso no próximo Congresso Internacional de Astronáutica, que acontece no fim de setembro em Guadalajara, no México.

Esse não é, portanto, um caso em que os cientistas estão batendo bumbo. Muito pelo contrário. Ele é emblemático ao mostrar como os pesquisadores de SETI levam a sério essa questão e não querem criar falsas expectativas com suspeitas infundadas. Na cabeça deles, esse é apenas um episódio curioso, que merece, sim, alguma investigação adicional, mas não consiste de forma alguma em evidência de que detectamos uma civilização extraterrestre.

Diversos radiotelescópios seguem observando HD 164595 de forma insistente, inclusive o Allen Telescope Array, na Califórnia, que é gerido pelo Instituto SETI, em Mountain View. Até agora — como seria de se esperar — nada. Ele provavelmente entrará na longa lista dos sinais suspeitos e inconclusivos já detectados, dos quais o mais famoso é o “Wow!”, detectado em 1977. Para todos esses casos, lembremos o bom e velho Carl Sagan: “Afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias.”

Acompanhe o Mensageiro Sideral no Facebook, no Twitter e no YouTube

Blogs da Folha