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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Schiaparelli: foi bom enquanto durou

Por Salvador Nogueira

Um quadro inevitavelmente pessimista sobre o resultado do pouso do módulo Schiaparelli foi pintado na entrevista coletiva promovida pela ESA (Agência Espacial Europeia) na manhã desta quinta-feira (20). Os engenheiros ainda hesitam em confirmar que o veículo não sobreviveu à descida até a superfície de Marte. Fato é que ele interrompeu contato antes de chegar ao chão e não se ouviu nada dele com as espaçonaves que sobrevoaram a região do pouso desde então.

No dia anterior, por volta de 12h42, enquanto sua nave-mãe, o Trace Gas Orbiter, disparava seu motor principal para se inserir com sucesso em órbita marciana, o Schiaparelli adentrou, conforme o previsto, a atmosfera do planeta vermelho. Viajando a 21 mil km/h, ele iniciou sua furiosa descida rumo à superfície.

O escudo térmico responsável por proteger o módulo do atrito com o ar desempenhou seu papel, e então os para-quedas foram abertos. A descida prosseguiu de acordo com as expectativas e a nave foi freada até modestos 250 km/h. E então o para-quedas se desprendeu do veículo — e foi aí que os dados de telemetria começaram a divergir das previsões. O próximo passo no procedimento de descida, a menos de um minuto do toque no solo, era o acionamento dos retropropulsores.

E a telemetria recebida confirma que eles foram ativados — por quatro segundos, pelo menos. E então as comunicações com o Schiaparelli foram interrompidas. Como para baixo todo santo ajuda, é certo que ele chegou à superfície — em que estado de conservação, não se sabe.

E é isso que temos.

Cerca de 600 megabytes de dados transmitidos pela sonda durante a descida foram recebidos e ajudarão os engenheiros a reconstruir o cenário do pouso. E, como se tratava essencialmente de um teste tecnológico, o fato de a telemetria até o ponto da perda de contato ter sido recuperada foi comemorado como um sucesso importante.

Claro que os jornalistas presentes não compraram essa versão, chegando a irritar Jan Wörner, o diretor-geral da ESA. “Eu não entendo isso. O orbitador funcionou perfeitamente. O módulo de pouso era um teste. Temos os dados dele. É um sucesso, não há dúvida.”

De fato, para pelo menos um dos instrumentos científicos embarcados no Schiaparelli, isso pode ser verdade — chamado AMELIA, ele ia operar basicamente durante a descida (usando os sensores de engenharia), e suas medições devem ter sido recebidas antes da falha de comunicação.

Mas óbvio que a história toda deixou um gosto de guarda-chuva na boca.

A análise detalhada da telemetria recebida será feita ao longo das próximas semanas e traz, ao menos, o reconforto de que os problemas do pouso serão identificados. “Tenho convicção de que poderemos entender exatamente o que aconteceu”, disse Andrea Accomazzo, diretor da Divisão de Missões Solares e Planetárias da ESA, ressaltando que a análise preliminar não permite nem mesmo estimar em que estado — ou em que velocidade — o Schiaparelli chegou ao solo.

Novas tentativas de comunicação serão feitas nos próximos dias, e discute-se inclusive a possibilidade de enviar um comando às cegas para o Schiaparelli, para que ele reinicialize seu sistema de transmissão (algo que, no planejamento original, não seria necessário), numa esperança de fazê-lo voltar à vida, caso exista algo ali que ainda funcione.

Em paralelo, o orbitador americano Mars Reconnaissance Orbiter, com sua câmera de alta resolução HiRISE, deve tirar uma foto da região de pouso nos próximos dias, para tentar encontrar o módulo na superfície e determinar seu destino final.

De resto, Jan Wörner tem pela frente a desconfortável tarefa de solicitar aos países-membros da ESA, em dezembro agora, verba extra, cerca de 300 milhões de euros, para bancar estouros de orçamento do jipe ExoMars 2020. Isso sem a demonstração cabal de que a agência tem o que precisa, em termos tecnológicos, para levar um veículo ao solo marciano em segurança.

Confira abaixo a transmissão ao vivo do pouso do Schiaparelli — com todas as angústias que ela envolveu — e uma rica discussão sobre o potencial científico representado pelo sucesso da inserção orbital do Trace Gas Orbiter, na busca por evidências de vida, passada ou presente, em Marte. Com sucessos e alguns contratempos, a missão ExoMars 2016 está em operação!

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