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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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RIP: Espaçonave da Nasa fotografa local do impacto do Schiaparelli em Marte

Por Salvador Nogueira

A imagem fala por si mesma. Dois pontos que não existiam antes em Marte agora estão lá. Um, mais claro, parece ser um para-quedas. O outro, escuro, a um quilômetro de onde caiu o para-quedas, é o local de pouso do Schiaparelli. Só que a mancha escura tem tamanho de 15 x 40 metros. Ou seja, é sinal de uma colisão das brabas. Descanse em paz, Schiaparelli.

O registro foi colhido pela câmera de baixa resolução da sonda americana Mars Reconnaissance Orbiter, a CTX. Fazia sentido começar por essa câmera porque ela tem um campo de visão que permitiria confirmar com alguma precisão o local de pouso, antes de tentar usar o olhar mais afiado, mas com campo mais estreito, da câmera HiRISE. Se tudo tivesse corrido bem, o Schiaparelli não apareceria na imagem, mas o para-quedas sim.

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O “antes” e “depois” do Schiaparelli em Marte, pela MRO (Crédito: Nasa)

Agora, sabendo exatamente para onde olhar, o plano é que a Mars Reconnaissance Orbiter volte a sobrevoar a região de Meridiani Planum em mais alguns dias e então use a HiRISE para revelar com mais detalhes o que restou do Schiaparelli. Mas um quadro do que foi a tentativa de pouso — a essa altura inequivocamente fracassada — já começa a se formar.

O tamanho da mancha indica que foi uma queda livre significativa, entre 2 e 4 km acima do solo, segundo a ESA (Agência Espacial Europeia). A descida descontrolada deve ter começado logo após a liberação do para-quedas. Os retropropulsores se acionaram por quatro segundos e depois desligaram — a razão para isso ainda é desconhecida. Mas o corte prematuro da propulsão naturalmente levou a sonda a seguir seu caminho atmosfera abaixo atraída apenas pela gravidade.

O impacto deve ter acontecido a mais de 300 km/h (o que bate muito perto com uma conta de verso de envelope que o Mensageiro Sideral havia feito junto com o astrônomo Cássio Barbosa no dia do pouso, depois que começaram a circular os rumores de que a coisa pegou o caminho errado depois do desprendimento dos para-quedas. Havíamos projetado a velocidade de chegada ao solo em 400 km/h).

A imagem em contexto, com a elipse de probabilidade de pouso, o recorte da imagem da MRO e o destaque revelando os novos traços no chão. (Crédito: Nasa)
A imagem em contexto, com a elipse de probabilidade de pouso, o recorte da imagem da MRO e o destaque revelando os novos traços no chão. (Crédito: Nasa)

Não bastasse o impacto violentíssimo, precisamos lembrar que os propulsores só queimaram por quatro segundos, dos mais de 30 esperados, o que significa que o Schiaparelli ainda devia estar cheio de combustível. A mancha escura provavelmente é resultado de uma explosão após o toque com o solo, revirando e calcinando o material da superfície.

As análises continuam para descobrir o que levou ao fracasso e corrigi-lo para a próxima tentativa. Mas, ao menos por ora, a Nasa segue soberana como a única entidade que conseguiu realizar pousos bem-sucedidos em Marte.

E, se quiser ver como o foi o drama ao vivo, o Mensageiro Sideral transmitiu, com comentários do engenheiro Lucas Fonseca e do astrônomo Cássio Barbosa. Confiraí.

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