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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Como Donald Trump ameaça o futuro da civilização

Por Salvador Nogueira

Um dos maiores problemas de eleger um demagogo é que não há como saber o que ele realmente vai fazer uma vez que assuma o cargo. Mas se Donald Trump cumprir o que prometeu, ainda que apenas em linhas gerais, o futuro não só dos Estados Unidos, mas de toda a civilização estará em jogo.

E nem precisamos falar de potenciais conflitos internacionais e dos muros que ele planeja construir para “fazer a América grande” ao apequená-la no concerto das nações. Fiquemos no que ele pretende para a Nasa, a agência espacial civil americana. Trump quer cortar investimentos no estudo do planeta mais importante para o futuro da humanidade: a Terra.

Como em tudo mais no discurso do presidente eleito, há poucos detalhes concretos. Política espacial não costuma ser um tema quente nas campanhas presidenciais. Quando questionado em New Hampshire por um menino de dez anos, naturalmente entusiasmado sobre espaço, durante um evento sobre sua opinião a respeito da Nasa, o presidente eleito dos EUA respondeu: “Sabe, nos velhos tempos, [espaço] era ótimo. Agora, temos problemas maiores. Você entende isso? Temos de consertar nossos buracos de rua. Você sabe, não temos exatamente muito dinheiro.”

É o tipo de afirmação que gera alguma trepidação, mas ela foi feita há um ano, quando até mesmo sua vitória nas primárias republicanas parecia improvável. Algo mudou de lá para cá? Com o passar da campanha, Trump começou a dar mais pistas — ou despistes, como queira — dos rumos que pretendia para a agência espacial.

Em um discurso proferido no mês passado na Flórida, um dos estados americanos mais ligados ao programa espacial, Trump declarou: “Eu vou libertar a Nasa da restrição de servir primariamente como uma agência de logística para atividades em baixa órbita terrestre — grande coisa. Em vez disso, vou reconcentrar a missão em exploração espacial. Sob uma administração Trump, a Flórida e os EUA liderarão o caminho para as estrelas.”

Bem, o que isso quer dizer exatamente? Sem um dicionário trumpês-português, é difícil saber. Felizmente sua equipe não é tão vaga quanto ele.

Um artigo para o jornal “SpaceNews”, Robert Walker e Peter Navarro, dois dos principais assessores de Trump para política espacial, soletra de forma mais clara a nova política: “A Nasa deveria estar concentrada primariamente em atividades no espaço profundo em vez de trabalho Terra-cêntrico que seria melhor conduzido por outras agências.”

Pode soar como uma boa notícia para aqueles que querem ver a humanidade progredir para visitar Marte, como o presidente Barack Obama já vem defendendo, mas certamente não é uma boa notícia para quem fica aqui no nosso combalido planeta natal. Na esteira do trabalho “Terra-cêntrico” da Nasa estão importantes esforços de monitoramento espacial dos efeitos da mudança climática.

Essa guinada da Nasa para fora da Terra sem sequer olhar para trás é ainda mais assustadora em vista da agenda negacionista do aquecimento global encampada por Trump durante toda a campanha.

O consenso de 98% dos cientistas do clima é o de que estamos perto de um ponto de não retorno no que diz respeito a mudanças climáticas perigosas. Mas Trump ameaça reprisar o papel que George W. Bush teve em atrasar a reação americana ao problema — e estamos falando de um dos dois maiores poluidores do planeta, que só fica atrás da China. Naquela ocasião, em 2001, apoiado pela indústria do petróleo, Bush rejeitou o Protocolo de Kyoto. Agora, quinze anos depois, Trump promete descartar o histórico acordo firmado em Paris.

Não há garantias de que o mundo possa esperar mais quatro, que dirá oito anos, para retomar o caminho da busca por soluções limpas para as demandas energéticas globais. Um retrocesso agora pode significar o fim de um ainda frágil processo internacional de mitigação dos impactos da mudança climática.

Em resumo, bagunça o coreto do mundo. Isso sem precisar falar em Síria, Rússia, China, México ou Otan — nomes que apareceram com muito mais frequência na campanha presidencial do que Nasa.

Concepção artística de uma cápsula Dragon, da SpaceX, em Marte (Crédito: SpaceX)
Concepção artística de uma cápsula Dragon, da SpaceX, em Marte (Crédito: SpaceX)

E A TAL EXPLORAÇÃO?
Certo, Trump não é fã de ciências da Terra na Nasa. Mas do que exatamente ele é fã?

“Após assumir o governo, vamos fazer uma revisão abrangente de nossos planos para o espaço, e vamos trabalhar com o Congresso para estabelecer prioridades e missão”, foi a resposta oficial dada por Trump ao “SpaceNews”.

(Aliás, para chorar um pouco com o quão vazio é o discurso do presidente eleito em contraste com o de Hillary Clinton, leia todas as perguntas e respostas sobre espaço enviadas aos candidatos aqui.)

Pessoalmente, toda vez que ouço falar em “revisão do programa espacial americano”, tenho calafrios. Acontece a cada mudança de governo e consome tempo e dinheiro sem nunca chegar a lugar algum. Ocorreu com George W. Bush, que, na esteira do acidente com o ônibus espacial Columbia, em 2003, lançou a chamada “Visão para Exploração Espacial”, prevendo um retorno tripulado à Lua até 2020 — desta vez para ficar. Quando Barack Obama assumiu o governo, uma nova “revisão” foi feita, concluindo que o plano de Bush era insustentável e que uma nova “visão” era necessária — uma que miraria um alvo mais ambicioso, Marte, mas com um prazo mais elástico — até o fim da década de 2030.

Agora, vamos de novo por esse caminho da revisão. Provavelmente os dois elementos “sobreviventes” da era Bush continuarão em desenvolvimento — o foguete de alta capacidade SLS (na época chamado de Ares V) e a cápsula Orion. Mas não duvido que o foco imediato seja mais uma vez modificado, possivelmente para um retorno à Lua, deixando Marte para depois.

A única coisa de fato clara (e positiva) no discurso de Trump para o espaço é o entusiasmo com a participação de empresas privadas, em parceria com a Nasa, no desenvolvimento de uma indústria espacial robusta para o século 21. Essa política já defendida por Obama de “comercialização do espaço”, que até hoje encontrou uma boa dose de resistência no Congresso, pode ser sedimentada durante a nova administração.

De resto, o assessor Robert Walker também sugeriu a intenção de convidar a China para fazer parte da Estação Espacial Internacional. Resta saber se Trump encamparia essa ideia em particular e se o Congresso americano embarcaria com ela. Atualmente, há lei nos EUA que proíbe a cooperação espacial com os chineses.

De todo modo, a única coisa certa é que teremos tempos incertos para a Nasa daqui para a frente. A previsibilidade saiu voando pela janela junto com os votos democratas em Wisconsin, Michigan e na Pensilvânia.

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