Mensageiro Sideral

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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O paradoxo da água líquida no passado de Marte

Por Salvador Nogueira

Marte está tentando desesperadamente nos contar uma história de seu passado, e nós não estamos entendendo nada. Veja só o paradoxo identificado pelo jipe Curiosity: embora seus instrumentos indiquem que, na cratera onde ele pousou, já existiu um vasto lago há 3,5 bilhões de anos, eles também sugerem que a atmosfera na época não tinha dióxido de carbono suficiente para preservar o calor do Sol e manter a água em estado líquido. O resultado aparentemente contraditório figura em artigo publicado nesta segunda-feira (6) nos “Proceedings of the National Academy of Sciences” (PNAS).

Que o lago existiu é incontroverso, a julgar pela presença de minerais em sedimentos que só podem ser formados com a presença de água em estado líquido. Medições também feitas pelo Curiosity indicam inclusive que suas condições gerais seriam habitáveis, ou seja, organismos vivos terrestres poderiam viver lá com facilidade. Mas calma lá.

A estabilidade desse lago, como as evidências parecem sugerir, teria exigido uma atmosfera muito mais densa que a atual, por dois motivos. Primeiro porque um efeito estufa adicional seria necessário para manter o planeta acima da temperatura de congelamento da água, e segundo porque, na atmosfera rarefeita de hoje, mesmo acima de 0 grau Celsius a água é instável e passa direto de gelo a gás.

O principal componente da atual atmosfera marciana é o dióxido de carbono, o popular CO2, um famoso gás-estufa. Mas hoje o ar de Marte é extremamente rarefeito, com uma pressão atmosférica que é um centésimo da terrestre, e o CO2 está presente numa quantidade tão pequena que nem chega perto de produzir um efeito estufa capaz de manter água em estado líquido por períodos significativos de tempo.

Para solucionar o problema, os cientistas sempre evocaram a presença de uma quantidade bem maior de dióxido de carbono no passado do planeta, capaz de mantê-lo em condições habitáveis, mesmo sob um Sol que, no passado remoto, tinha um brilho 30% menor que o atual. Mas, se esse fosse o caso, o leito do lago investigado pelo Curiosity estaria permeado por grandes quantidades de carbonatos, resultado do contato direto com uma atmosfera rica em CO2.

Não foi isso, contudo, que o instrumento CheMin (Química e Mineralogia) do jipe detectou. Desde que desceu na cratera Gale, em 2011, ele foi incapaz de detectar quaisquer sinais de carbonatos. Eles podem estar lá, claro, mas numa quantidade abaixo do nível de detecção do instrumento. E, isso, por sua vez, implica uma quantidade ridiculamente baixa de dióxido de carbono na atmosfera do passado — incompatível com a necessária para manter Marte aquecido há 3,5 bilhões de anos.

Em resumo: os mesmos instrumentos do Curiosity que indicam que havia um lago ali também sugerem que a atmosfera, pelo menos no que diz respeito a dióxido de carbono, era insuficiente para preservar sua existência.

Falta alguma peça no quebra-cabeça. Os pesquisadores sugerem que talvez o lago estivesse em estado líquido sob uma capa de gelo (em um Marte já frio), ou que talvez houvesse outro componente gasoso na atmosfera capaz de fornecer o efeito estufa requerido. Mas, por ora, teremos de conviver com o mistério.

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