Mensageiro Sideral

De onde viemos, onde estamos e para onde vamos

 -

Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

Perfil completo

Publicidade
Publicidade

Ceres tem criovulcões de água ativos, sugere sonda

Por Salvador Nogueira

Os famosos pontos brilhantes de Ceres são geologicamente jovens e, segundo um novo estudo, são evidência firme de que o planeta anão residente no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter até hoje é palco de episódios de criovulcanismo. Em resumo, ele tem vulcões de água.

Os resultados foram apresentados pela equipe do Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar, na Alemanha. É lá que trabalham os responsáveis pelo projeto e pela fabricação das câmeras instaladas a bordo da sonda americana Dawn, da Nasa, que segue firme e forte na investigação de Ceres.

Os pontos brilhantes da cratera Occator — visíveis até mesmo em imagens do Telescópio Espacial Hubble, embora com resolução tão baixa que era difícil dizer qualquer coisa a respeito deles — foram o mais intrigante dos traços analisados pela Dawn. Primeiro descobriu-se que eles consistiam em sais depositados principalmente num monte na região central da cratera.

Desde esse ponto especulou-se que eles fossem o resultado da ejeção de água do manto de Ceres, com sua subsequente sublimação. Água salgada vira vapor — produzindo algumas observações intrigantes de vapor d’água feitas pelo satélite Herschel da ESA –, e o que resta são os sais (do mesmo jeito que quando saímos do mar e a água seca, deixando a gente como se fosse um espetinho que acabou de ser esfregado no prato de farofa).

Restava datar o processo. Foi o avanço de agora. Os cientistas têm um método razoavelmente seguro de datar terrenos de corpos sem atmosfera apreciável por imagens remotas, que se resume em basicamente contar crateras.

Faz sentido: supondo que o ritmo de pancadas é mais ou menos igual ao longo do tempo, terrenos com mais crateras são mais antigos, e terrenos com menos crateras são mais novos. Modelos de impactos e observações ajudam a fechar a conta, atribuindo a idades específicas a diferentes contagens de crateras.

Com base nisso, eles puderam estimar que a cratera Occator, um buraco de respeitáveis 92 km de diâmetro, tem cerca de 34 milhões de anos. Mas a região interna — o monte de sais no centro da cratera — é bem mais novo, cerca de 4 milhões de anos.

Em termos geológicos, 4 milhões de anos é o que os cientistas costumam chamar de “hoje”. Para eles, é evidência suficiente de que Ceres tem atividade criovulcânica atualmente. O quadro, a propósito, se encaixa perfeitamente com outros sinais, como a enorme montanha Ahuna Mons, que também parece ter origem criovulcânica.

“A idade e a aparência do material cercando o domo brilhante indicam que a Cerealia Facula [nome oficial dado para a região altamente reflexiva de Occator] foi formada por um processo eruptivo, recorrente, que também atirou material para regiões mais externas do buraco central”, diz em nota Andreas Nathues, líder da equipe da câmera.

Imagem em perspectiva feita pela sonda Dawn da cratera Occator, em Ceres (Crédito: Nasa)

PRECISAMOS FALAR SOBRE CRIOVULCANISMO
Como o nome sugere, é um processo de erupção, a exemplo dos vulcões que temos na Terra. Só que esse aí ocorre em corpos muito mais frios que nosso planeta, em que a água faz o papel que aqui é do magma — nome bonito para rocha derretida.

Nas regiões mais frias do Sistema Solar, água se comporta como rocha — dura feito pedra. Mas sabemos que há processos internos nos mundos gelados — seja por energia geotérmica, seja por força de maré — que permitem que as camadas internas de água se mantenham ao menos parcialmente em estado líquido — casos típicos são Europa e Ganimedes, em torno de Júpiter, e Encélado e Titã, em torno de Saturno.

A pressão lá dentro é enorme e, se fissuras surgirem ligando a superfície ao interior, a água vai explodir para fora, como uma erupção vulcânica. Criovulcânica.

Com a descoberta, Ceres tornou-se o corpo celeste mais próximo do Sol a exibir traços de criovulcanismo. E o fato de ser recente é uma ótima justificativa para a contínua exploração pela Dawn. Quem sabe não pegamos uma erupção ao vivo no futuro próximo?

Acompanhe o Mensageiro Sideral no Facebook, no Twitter e no YouTube

Blogs da Folha