Mensageiro Sideral

De onde viemos, onde estamos e para onde vamos

 -

Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

Perfil completo

Publicidade

Pesquisadores descobrem fósseis de algas vermelhas com 1,6 bilhão de anos

Por Salvador Nogueira

Um quarteto de pesquisadores do Museu Sueco de História Natural diz ter identificado, em rochas na Índia, os mais antigos fósseis preservados de algas vermelhas. Eles teriam 1,6 bilhão de anos — 400 milhões de anos mais antigos que o recorde anterior para esse grupo de seres vivos — e sugerem que a vida complexa emergiu na Terra mais cedo do que antes se suspeitava.

Ainda há grande incerteza sobre a época em que surgiram os primeiros eucariontes — o grupo de criaturas mais sofisticadas da Terra, que tem núcleo diferenciado em suas células. Uma estimativa recente com base em análises genéticas sugerem que o último ancestral comum de todos esses seres — que englobam desde as amebas até os seres humanos, passando pelas plantas — viveu entre 1,9 bilhão e 1,6 bilhão de anos atrás.

Por isso é surpreendente a presença de rodófitas, as famosas algas vermelhas, há 1,6 bilhão de anos. Isso porque a maioria delas não só é eucarionte, mas também é multicelular — um segundo salto no caminho da complexidade biológica.

Não é à toa que, durante anos, esses resquícios fósseis localizados na bacia Vindhyan, na Índia central, foram interpretados como sendo muito mais recentes, a despeito das datações de rochas — baseadas em decaimento radioativo e bem confiáveis — indicarem a idade de 1,6 bilhão de anos.

Quem bateu na tecla de que eles eram mesmo tão antigos assim, num estudo publicado em 2009, foi justamente o mesmo grupo que agora voltou à carga, para descrever detalhadamente os resquícios das rodófitas. O trabalho claramente revela a natureza multicelular dos fósseis, ao detalhar sua estrutura tridimensional graças a uma técnica de microscopia tomográfica de raios X com radiação síncrotron.

Reconstrução tridimensional dos fósseis por microscopia tomográfica. (Crédito: S. Bengtson et al.)

“Esses fósseis predatam as algas vermelhas mais antigas reconhecidas por cerca de 400 milhões de anos, sugerindo que os eucariontes podem ter uma história mais longa do que comumente presumido”, dizem Stefan Bengtson e seus colegas, em artigo publicado na “PLoS Biology”.

Apesar do entusiasmo dos autores, não conte com um consenso rápido por parte de toda a comunidade científica. É bem provável que esses fósseis continuem em disputa, assim como outros possíveis traços de criaturas multicelulares encontrados com datas ainda mais antigas.

Aos poucos, no entanto, a pilha acumulada de estudos começa a cristalizar a noção de que os eucariontes podem ter tido um caminho mais longo e tortuoso na árvore da vida do que geralmente se pensava.

Recentemente, inclusive, o Mensageiro Sideral abordou um estudo independente que mostrou que o surgimento de condições para suportar vida complexa, com o aumento de oxigênio no mar e na atmosfera, emergiu na Terra pela primeira vez mais de 2 bilhões de anos atrás. Se isso de fato aconteceu, essas rodófitas estiveram entre as beneficiárias — e contribuintes, uma vez que são seres vivos fotossintetizantes — do ambiente mais amigável à vida complexa.

A descoberta é quase como um trailer de um filme. A história completa de nossa linhagem evolutiva primordial ainda está por ser contada, claro, mas já está claro a essa altura que a saga da vida na Terra, reconstruída passo a passo pela ciência, é fascinante e cheia de nuances. Ficamos no aguardo do próximo emocionante capítulo.

Acompanhe o Mensageiro Sideral no Facebook, no Twitter e no YouTube

Blogs da Folha

Publicidade
Publicidade
Publicidade