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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Nasa está pronta para o fim da missão Cassini

Por Salvador Nogueira

A Nasa realizou uma entrevista coletiva para apresentar a conclusão dramática de sua missão a Saturno, a Cassini. Apelidada de “Grand Finale”, a última fase do projeto começa no próximo dia 26 e verá a sonda mergulhar no vão entre o planeta e seus majestosos anéis, não uma, mas 22 vezes, antes de queimar furiosamente na atmosfera saturnina, em 15 de setembro.

Em termos de navegação — acertar o vão –, o problema não é tão grande. A sonda terá de passar numa faixa de 2.400 km de largura, numa série de órbitas alongadas ao redor do sexto planeta do Sistema Solar. O maior desafio será passar incólume ao encontrar um fluxo de partículas perigosamente alto, proveniente dos anéis mais internos.

“Fizemos muita modelagem dos anéis”, explicou Earl Maize, gerente do programa da Cassini. “Esperamos que seja mais como atravessar fumaça do que realmente receber impactos de partículas maiores.”

A manobra, contudo, não é livre de riscos. Na pior das hipóteses, segundo Maize, há um risco de 3% de perda da espaçonave por uma colisão imprevista e fatal. “De todo jeito, a Cassini vai terminar onde planejamos, na atmosfera de Saturno.”

Isso porque as últimas manobras terão um piloto insuspeito: Isaac Newton. No próximo dia 11, a programação para o Grand Finale será transmitida para a Cassini. E no dia 22 a sonda fará seu último sobrevoo próximo de Titã, a maior das luas saturninas. E será a gravidade do satélite natural que colocará a espaçonave em sua rota para sua primeira passagem entre os anéis e o planeta, marcada para acontecer no dia 26.

A órbita resultante permitirá que a sonda complete 22 desses sobrevoos rasantes de Saturno, ao ritmo de um por semana. Mas Newton seguirá no comando e uma última intervenção gravitacional, distante, de Titã em setembro alterará suavemente o trajeto da sonda, que então mergulhará na atmosfera do segundo maior planeta do Sistema Solar no dia 15 de setembro.

Concepção artística de sobrevoo da Cassini pelo polo Norte de Saturno, em suas órbitas finais. (Crédito: Nasa)

E ainda bem que podemos contar com a gravidade para o serviço, porque a razão pela qual a Cassini está sendo encerrada, após 20 anos no espaço e mais de 13 nos arredores de Saturno, é que não há mais combustível a bordo para operá-la de forma segura. Arriscar prosseguir com o tanque praticamente vazio implica perder o controle sobre o futuro da sonda, e aí arriscar derrubá-la numa das luas saturninas potencialmente habitáveis. A pequena Encélado tem um oceano habitável em seu interior, e evidências mais recentes colhidas pela espaçonave sugerem que Dione também tem o seu.

Como a Cassini não foi esterilizada com tanto cuidado ao sair da Terra (ninguém imaginava esse “show da habitabilidade” que a sonda descobriu por lá), ela pode ter em seu interior bactérias que “entraram de gaiato no navio”. Em caso de possível colisão com uma dessas luas, nada garante que elas não desembarquem e façam vida por lá. Por isso a sonda terá de encontrar seu fim na atmosfera de Saturno em 15 de setembro.

A última etapa da missão será a mais arriscada, mas promete incríveis recompensas científicas. Espera-se com a manobra poder medir com precisão a massa dos anéis e, com isso, determinar sua idade — há controvérsias sobre se eles são tão velhos quanto Saturno ou recentes, formados há meros 100 milhões de anos. Também será possível sondar a estrutura interna do planeta gigante, a exemplo do que a Juno está fazendo em Júpiter, e observar os anéis de uma distância inédita. Por fim, a Cassini promete dar seu mergulho final transmitindo informações sobre a composição da atmosfera do planeta. “Sabemos que ela é 99% hidrogênio e hélio, mas estamos atrás desse 1%”, disse Linda Spilker, cientista-chefe do projeto.

Este dia fatídico, 15 de setembro, será agridoce para todos os entusiastas da exploração espacial. Haverá razão para festejar o sucesso de uma incrível e longeva missão, que literalmente reescreveu tudo que sabíamos sobre Saturno, mas também motivos para tristeza, pelo fato de que não teremos mais uma conexão direta com o majestoso planeta dos anéis. A Cassini já está lá desde 2004 e fez descobertas incríveis. Quando ela se for, teremos de nos acostumar a olhar apenas de longe por alguns anos — talvez décadas –, até que a próxima espaçonave possa continuar de onde ela parou.

Se você é fã da Cassini, tente ver o trailer acima e não chorar. Eu não consegui.

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