Mensageiro Sideral

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Astrônomos detectam atmosfera em exoplaneta de porte terrestre

Por Salvador Nogueira

Usando um telescópio de modestos 2,2 metros de abertura, um grupo de astrônomos acaba de reportar a detecção da assinatura de luz da atmosfera de um planeta ligeiramente maior que a Terra, a 39 anos-luz daqui, na constelação da Vela. Ao que tudo indica, ela pode ser rica em vapor d’água. O pequeno mundo é quente demais para abrigar vida, mas trata-se de um feito importante para finalmente começarmos abrir a “caixa-preta” dos exoplanetas.

O exoplaneta GJ 1132 b completa uma volta em torno de sua estrela, a pequena anã vermelha GJ 1132, a cada 1,6 dia. Com essa órbita tão curta, ele tem uma temperatura de equilíbrio de cerca de 350 graus Celsius, o que faz dele um péssimo candidato para abrigar formas de vida terráqueas — mas um ótimo candidato a ter sua atmosfera detectada. A proximidade entre o planeta e a estrela ajuda, assim como o fato de que ele realiza trânsitos periódicos à frente dela com relação a nós, aqui na Terra.

Usando o telescópio de La Silla, do ESO (Observatório Europeu do Sul), no Chile, o grupo de astrônomos liderado por John Southworth, da Universidade Keele, no Reino Unido, observou nove desses trânsitos, colhendo simultaneamente luz em diversas frequências do espectro eletromagnético, entre visível e infravermelho. A ideia era observar a redução do brilho da estrela conforme o planeta passava à frente dela, nos diferentes comprimentos de onda observados.

E o que eles notaram foi que em um dos comprimentos de onda, no infravermelho, o planeta parecia sensivelmente maior que nos demais. Essa diferença só poderia ser explicada por uma atmosfera que é “opaca” (ou seja, barra a luz estelar) nessa frequência, mas “transparente” (ou seja, deixa a luz passar) nas demais.

De acordo com as análises feitas pelos pesquisadores, publicadas no “Astrophysical Journal”, a detecção é bastante robusta e inequívoca — o efeito é real com mais de 99% de confiança. Trata-se do menor exoplaneta, portanto, a ter sua atmosfera detectada. Estima-se que ele tenha diâmetro 40% maior que o da Terra, e massa 60% maior. Para que se tenha uma ideia, o recordista anterior a ter sua atmosfera sondada, 55 Cancri e, tinha 700% mais massa que a Terra. (O Mensageiro Sideral falou dessa detecção aqui, no ano passado.)

E A COMPOSIÇÃO?

O principal ganho em observar uma atmosfera exoplanetária é poder dizer de que ela é feita. Com a detecção feita em La Silla, ainda não dá para cravar, mas os principais gases suspeitos de barrar a luz estelar na frequência medida são vapor d’água e/ou metano, em concentrações variadas. Os pesquisadores indicam inclusive que, com a câmera WFC3, do Telescópio Espacial Hubble, seria possível confirmar que se trata mesmo de água, se for o caso. (E aposto que eles já devem estar solicitando tempo de observação com o venerável satelite da Nasa para fazer essa checagem.)

Claro que a presença de vapor d’água, nesse caso, não seria um indicativo de habitabilidade; GJ 1132 b é um mundo escaldante, com temperaturas altíssimas, e viver nele seria mais difícil do que no interior de uma panela com água fervente.

Ainda assim, a potencial detecção de uma atmosfera relativamente espessa nesse planeta (com altitude estimada em 1.400 km, bem maior que a da Terra, que já não é muito apreciável além dos 100 km) é uma boa notícia para a busca por vida. Isso porque ele orbita uma estrela anã vermelha de meia-idade, com mais de 5 bilhões de anos.

Esses astros costumam ter uma infância muito turbulenta, de modo que alguns astrônomos consideravam bastante possível que planetas ao redor delas tivessem sua atmosfera completamente devastada logo nos primeiros milhões de anos do sistema. A detecção mostra que, pelo menos em alguns casos, isso não acontece, e exoplanetas de anãs vermelhas são capazes de reter respeitáveis invólucros de ar — pré-requisito para a presença de água líquida em sua superfície, que por sua vez é condição essencial para a vida tal qual a conhecemos.

Não custa lembrar que anãs vermelhas, menores que o nosso Sol, respondem por três quartos de todas as estrelas da galáxia, de modo que a perspectiva de que elas abriguem mundos habitáveis aumenta em muito a chance de encontrarmos um deles nos próximos anos.

Estamos só esquentando os motores. Daqui para frente, a pesquisa de exoplanetas será de arrepiar.

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