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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Detecção de hidrogênio indica que lua Encélado tem ambiente favorável a micróbios, diz Nasa

Por Salvador Nogueira

A sonda Cassini conseguiu detectar hidrogênio molecular em meio às plumas de água ejetadas da lua Encélado, de Saturno. O achado confirma a hipótese de que o oceano global que existe sob a crosta de gelo desse pequeno astro seria capaz de abrigar formas de vida similares às existentes na Terra. O resultado foi divulgado pela Nasa nesta quinta-feira (13), em entrevista coletiva, e publicado na edição desta semana da revista “Science”.

VEJA A COLETIVA DA NASA COM TRADUÇÃO SIMULTÂNEA

Em 28 de outubro de 2015, a Cassini fez seu mais intenso mergulho pelas plumas que emanam de fissuras no polo Sul de Encélado. Passando a menos de 49 km da superfície da lua, ela usou um instrumento projetado para analisar a composição de moléculas no seu caminho — o Espectrômetro de Massa Neutro e Iônico — para confirmar a presença de hidrogênio (H2) nas plumas.

O achado é importante por diversas razões. Em primeiro lugar, ele é uma confirmação independente de que o oceano subsuperficial de Encélado está em contato com um leito rochoso — como os da Terra — e é palco de atividade geotérmica — como os da Terra. Medições anteriores do conteúdo das plumas já haviam detectado a presença de dióxido de silício, o que era um indicativo claro de que havia forte interação entre água e rocha lá embaixo.

Os cientistas esperavam, contudo, que qualquer atividade de fonte hidrotermal, como as fumarolas que existem no leito dos oceanos terrestres, também pudesse gerar hidrogênio, a partir da interação da água com componentes ferrosos. Na Terra, essa geração de H2 alimenta o metabolismo de algumas das mais antigas criaturas unicelulares da Terra, os metanógenos. São bactérias que combinam hidrogênio e dióxido de carbono, gerando metano como subproduto.

Daí a gana de procurar o gás nas plumas de Encélado. E a busca deu resultado. Analisando os dados, os pesquisadores liderados por J. Hunter Waite, do Instituto de Pesquisa do Sudoeste, em San Antonio, concluíram que entre 0,4% e 1,4% do conteúdo das plumas é H2. Essa quantidade, se refletir o conteúdo do oceano interno, está em desequilíbrio termodinâmico — modo chique de dizer que é necessária uma fonte constante a reabastecer o hidrogênio por lá. Isso, por si só, corrobora a ideia de que a produção do gás tenha relação com atividade hidrotermal no leito oceânico.

Modelo da estrutura interna de Encélado, com seu oceano global descoberto pela sonda Cassini (Crédito: Nasa)

E veja só que interessante: além de detectar o hidrogênio, a Cassini também detectou dióxido de carbono (entre 0,3% e 0,8% do conteúdo das plumas), o que significa dizer que os dois gases essenciais ao metabolismo das bactérias metanogênicas estão presentes no oceano de Encélado. “A abundância relativamente alta de hidrogênio na pluma sinaliza um desequilíbrio termodinâmico que favorece a formação de metano a partir de CO2 no oceano de Encélado”, escreveram Waite e seus colegas na “Science”. Traduzindo do cientifiquês: se houvesse metanógenos por lá, eles iam se refestelar.

Quanta energia exatamente está disponível para ecossistemas em Encélado? Durante a coletiva, Chris Glein, co-autor do estudo, afirmou: “Fizemos a primeira contagem calórica de um oceano alienígena”. Ao ser questionado sobre qual era essa contagem calórica, ele deu uma resposta engraçada: “300 pizzas por hora”.

E quer algo ainda mais intrigante, para fechar a conta? A Cassini também detectou nas plumas 0,1% a 0,3% de metano — o produto do metabolismo dos metanógenos!

Podemos abrir a champanhe então? Detectamos evidência de vida em Encélado? Não, calma lá. Repita comigo o mantra de Carl Sagan: “Afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias”. É totalmente plausível que o metano detectado não tenha origem biológica — há outros mecanismos que sabidamente poderiam produzi-lo.

Além disso, há uma questão importante sobre a idade de Encélado — recentemente alguns cientistas começaram a suspeitar que a lua possa ser relativamente recente, com coisa de 100 milhões de anos. Ela teria nascido do colapso de um antigo sistema de satélites saturnino, e o mesmo processo, por sinal, teria dado origem aos famosos anéis do planeta. Se esse for mesmo o caso, talvez não tenha havido tempo suficiente para a vida se desenvolver por lá.

O que podemos afirmar com segurança é que, se as conclusões dos cientistas estiverem corretas, Encélado de fato preenche os três requisitos básicos de habitabilidade: água líquida (os pesquisadores estimam que o oceano lá seja um pouco mais alcalino que os nossos, com pH entre 9 e 11, contra cerca de 8 dos terrestres), compostos orgânicos (o metano não nos deixa mentir) e uma fonte de energia (atividade hidrotermal produzindo hidrogênio a partir da água). E isso é uma grande coisa para uma pequena lua saturnina. Quem diria, antes da Cassini, que essa modesta bola de gelo de 504 km de diâmetro, recebendo apenas um centésimo da luz solar que a Terra recebe, pudesse ser um abrigo para a vida?

As plumas de Encélado, além de terem revelado a habitabilidade da lua, ainda podem nos dar acesso facilitado ao conteúdo do oceano interno, de forma que não seria impensável no futuro detectarmos evidências de vida lá, caso ela exista.

Infelizmente, contudo, essa busca terá de esperar. A Cassini, além de não estar equipada para estudar moléculas orgânicas complexas, está chegando ao fim de sua vida útil. Com efeito, a sonda realizou seu 22o e último sobrevoo de Encélado em dezembro de 2015 e terminará sua missão num mergulho espetacular em Saturno em 15 de setembro próximo.

Com isso, os olhos da Nasa se voltam para outra lua-oceano do Sistema Solar: Europa, de Júpiter. Na coletiva da Nasa, por sinal, ela também foi assunto.

Concepção artística das plumas de Europa detectadas pelo telescópio Hubble. (Crédito: Nasa)

AS PLUMAS DE EUROPA
William Sparks, do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial, em Baltimore, apresentou os últimos resultados obtidos com o Telescópio Espacial Hubble na tentativa de medir a presença de plumas também na lua Europa, de Júpiter. Já se sabe desde o fim dos anos 1990, graças à sonda Galileo, que ela também abriga um oceano de água líquida potencialmente habitável em seu interior.

A grande novidade recente, contudo, foi a determinação de que ocasionalmente Europa também tem plumas de água sendo ejetadas para o espaço — algo que a Galileo não viu durante sua missão joviana. O Hubble observou traços do que podem ser plumas em 2014 e 2016, e sua localização coincide exatamente com o local da superfície de Europa em que a Galileo detectou uma anomalia térmica — uma região mais quente da superfície. As duas observações juntas dão grande confiança de que, a exemplo de Encélado, Europa também tem ejeções regulares de água para o espaço.

Com isso, aumenta a esperança de que a missão Europa Clipper, que a Nasa pretende despachar para lá no começo da década de 2020, possa analisar as plumas europanas com ainda mais detalhes que a Cassini investigou as de Encélado.

Caso os cientistas estejam certos ao pressupor que o surgimento da vida depende apenas de condições similares às que reinavam no fundo dos oceanos da Terra há 4 bilhões de anos, tanto Europa quanto Encélado são ótimas apostas para a busca por sinais de biologia extraterrestre em nosso Sistema Solar. Se algo será encontrado ou não, ninguém sabe. Esse, afinal, é o sabor da ciência: se soubéssemos de antemão as respostas, nem faria sentido procurá-las.

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