Mais uma superterra na lista dos alvos para a busca por vida fora do Sistema Solar

Salvador Nogueira

Anote aí: mais um alvo potencial para a busca de sinais de vida fora do Sistema Solar acaba de ser identificado. Em artigo publicado on-line nesta quarta-feira (19) na revista “Nature”, um grupo internacional de cientistas anunciou a descoberta de um mundo rochoso, maior que a Terra, orbitando na zona habitável de sua estrela a cerca de 40 anos-luz daqui. O que deixa os pesquisadores empolgados é que sua modesta distância, a exemplo do sistema recém-descoberto Trappist-1, permitirá a busca de sinais de vida por lá nos próximos anos.

A pequena LHS 1140, localizada na constelação austral da Baleia, é uma anã vermelha, com cerca de 15% da massa do nosso Sol. Trata-se de uma estrela já madura, com mais de 5 bilhões de anos, e agora os astrônomos descobriram que ela tem um planeta com diâmetro 40% maior que o da Terra — uma “superterra”, no jargão dos cientistas — que completa uma volta em torno de sua estrela a cada 25 dias.

A descoberta original foi feita com a rede de telescópios MEarth, destinada justamente a buscar planetas similares ao nosso em torno de anãs vermelhas próximas. São dois conjuntos de quatro telescópios de 40 cm de abertura, um instalado no Arizona, no hemisfério Norte, e outro no Chile, no hemisfério Sul. Com isso, os astrônomos têm acesso a 100% da abóbada celeste para as buscas.

Os quatro telescópios do MEarth-Sul, em Cerro Tololo, no Chile. (Crédito: Jonathan Irwin)

Os telescópios fazem descobertas medindo a pequena redução de brilho causada pela passagem de um planeta à frente de sua estrela-mãe, o famoso método dos trânsitos. A técnica é boa para fornecer o diâmetro planetário, mas em geral não permite estimar a massa.

No caso de LHS 1140b, contudo, os astrônomos solicitaram uma bateria de observações com o Harps, um espectrógrafo instalado no telescópio de La Silla, do ESO, também no Chile. É um instrumento que permite medir o bamboleio gravitacional da estrela conforme ela é atraída suavemente, para lá e para cá, por planetas girando ao seu redor. O método é complementar e permite estimar a massa dos planetas, mas não seu diâmetro. Após 144 medidas precisas da chamada “velocidade radial” da estrela (termo técnico para o “bamboleio”), os cientistas puderam estimar que o planeta tem cerca de 6,6 vezes a massa da Terra (com uma margem de erro significativa de 1,8 massa terrestre).

Pode parecer um número enorme, mas lembre-se de que essa massa toda também se distribui por um volume bem maior, porque o diâmetro do planeta é 40% maior que o nosso. Calculando o volume interno de LHS 1140b (lembra da fórmula das aulas de geometria? V=4/3.π.r3), dá cerca de três vezes o terrestre. Nessas horas, é melhor usar o parâmetro da densidade, que é dada pela massa dividida pelo volume. Nesse sentido, podemos dizer que o mundo recém-descoberto é cerca de duas vezes mais denso que o nosso — provavelmente com um núcleo metálico mais avantajado que o da Terra.

De toda forma, em todas as faixas de massa estimadas, o planeta seria rochoso (planetas gasosos têm densidade muito menor) e estaria numa posição do sistema que, em tese, permitiria a presença de água em estado líquido na superfície. Com efeito, em sua órbita, LHS 1140b recebe cerca de metade da radiação que o Sol nos dá — um pouquinho mais do que Marte recebe no Sistema Solar.

E o mais interessante: “Porque LHS 1140 é próxima, telescópios atualmente em construção podem ser capazes de procurar gases atmosféricos específicos no futuro”, escrevem os autores liderados por Jason Dittmann, do Centro Harvard-Smithsonian para Astrofísica, nos Estados Unidos, em seu artigo na “Nature”.

Com isso, o planeta LHS 1140b se junta aos mundos do sistema Trappist-1 na lista de alvos preferenciais para o Telescópio Espacial James Webb, que deve ser lançado pela Nasa em 2018, assim como para os telescópios de solo de próxima geração, que devem começar a operar na próxima década.

A ideia é que esses futuros equipamentos, mais sensíveis, possam observar a estrela no momento em que o planeta passar à frente dela. Com isso, parte da luz atravessaria a borda da atmosfera planetária, carregando consigo uma “assinatura” dos gases presentes.

“Estamos agora fazendo os cálculos para ver exatamente o que poderíamos detectar com o James Webb e possivelmente com o Giant Magellan Telescope, que está sendo construído no Chile”, disse Dittmann ao Mensageiro Sideral. “Esperamos certamente ser sensíveis a água e ozônio, e estamos otimistas de que poderíamos detectar oxigênio molecular — a molécula de O2 que respiramos — assim como metano e dióxido de carbono”, completa o pesquisador.

LHS 1140b, os planetas de Trappist-1… vá tomando nota, pois essa lista deve aumentar e muito nos próximos anos. A essa altura, já ficou claro que planetas rochosos na zona habitável em torno de anãs vermelhas próximas são extremamente comuns. Entre o fim deste ano e meados de 2018, a Nasa também deve lançar ao espaço o TESS, um novo satélite caçador de planetas destinado justamente a fazer essa busca sistemática, em todas as regiões do céu. Não é impensável imaginar que, até 2020, teremos centenas de planetas potencialmente habitáveis ao alcance de nossos telescópios.

Será que em algum deles encontraremos uma “assinatura de luz” vinda da atmosfera que indique a presença de gases associados à vida, como metano, oxigênio e ozônio? O suspense é de matar.

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Comentários

    1. Henrique, é um experimento muito interessante como prova de princípio. Se é possível gerar massa negativa, isso abre uma série de perspectivas. Em tese, massa negativa deveria sentir gravidade como repulsão. É REALMENTE incrível. Mas ainda é muito cedo para dizer que encontraremos uma aplicação. Por enquanto, parece só um manejo esperto de condições muito particulares da matéria, próximas ao zero absoluto. Mas, de novo, só de provar que é possível, já é chocante. Massa negativa é algo que precisaríamos, por exemplo, para manter buracos de minhoca abertos e atravessáveis. 😛

      Abraço!

    2. Na verdade não existe “massa negativa”, o que acontece com a matéria nas condições do experimento é uma das surpresas do comportamento do condensado de Bose-Einstein, um estado da matéria que foi teorizado já bastante tempo, mas só de 1995 para cá tem sido melhor estudado devido ao uso de “armadilhas de átomos” que aprisionam átomos usando feixes de laser. O comportamento da matéria neste estado é bem curioso e agora se descobriu que se os átomos neste estado recebem uma força numa direção eles se movem no sentido oposto ao que aconteceria em condições normais, ela se comporta como se a massa fosse “negativa” e não que a massa é negativa de fato.

      1. Eu ainda tenho que ler o paper, mas qual seria a diferença entre ter massa negativa e parecer ter massa negativa? 😛

        1. Se desligarmos a experiência, os feixes lasers e o campo magnético, os átomos voltam a seu comportamento normal.

  1. Salvador,

    voce saberia como anda a questão da criação do momento? Já vamos poder colocar um reator nuclear pra criar um empuxo no espaço ou não? rs.

    Grande abs!

    1. Por enquanto, o único método comprovado de gerar empuxo é jogar algo na direção oposta. Então, um reator nuclear pode fornecer energia para isso, mas ainda precisamos de propelente.

  2. Fala Salvador.

    Uma dúvida. Antes de uma estrela se tornar uma anã branca ela não tem um período de expansão que pode inclusive engolir os planetas em órbitas mais próximas ? E se a estrela passa por essa expansão, não iria varrer a atmosfera desse planeta para o espaço ?

    Abraço!

    1. Thiago, nesse processo de expansão, ela destruiria os planetas mais internos — caso desse. Mas anãs vermelhas levam centenas de bilhões, às vezes trilhões, de anos para chegar a esse estágio em que o Sol vai chegar em mais 5 bilhões de anos. Então, no stress para o pessoal lá. rs

  3. Salvador,

    É possível que haja (descobrirmos) algum outro exoplaneta em zona habitável mais próximo que Próxima B? ou fisicamente a estrela mais próxima ao Sistema Solar realmente fica a tudo isso de distancia mesmo (4,22 anos luz)?

    1. Proxima Centauri é a estrela mais próxima. Ou seja, não fica mais perto que isso… (você poderia ter planetas errantes, ou seja, desgarrados de sistemas planetários, mas aí não estariam na zona habitável)

  4. Salvador, é de sua autoria a arte que saiu na versão impressa da sua reportagem, comparando os potenciais candidatos a servirem de habitação para vida? Me refiro aos dados que saíram na coluna da direita, no Caderno de Ciência. Se for, coloca aqui também! Um abraço.

    1. Edouard, é um ranking feito para matérias anteriores — na época fui eu que diz — que a Folha quis reproduzir nesta. Ele continua valendo, mas acho menos relevante aqui, porque estamos focados não nos mais próximos (conforme o ranking), mas nos mais próximos QUE FAZEM TRÂNSITO, o que coloca esse novo e os de Trappist-1 no topo da fila.

        1. Esse é um ranking por outro critério, o ESI (Earth Similarity Index, ou Índice de Similaridade com a Terra). E está beem desatualizado. Quem costuma manter um ranking atualizado é o pessoal do Planetary Habitabily Lab, na Universidade de Porto Rico. Dêem uma olhada em phl.upr.edu.

  5. Olá nobres amigos e iluminados leitores do Blog do Salvador Nogueira. Muitas pessoas têm dúvidas quanto a existência de vida em outros planetas. Na vída a gente pode pensar em tudo, e principalmente quando se trata da ciência, não existem fronteiras. Mas algo que se torna um desperdício de tempo, é pensar nas coisas sem fundamento cientifico, é mera especulação inútil. A vida do Homen é a prova sumária da existência no meio intergaláctico, e do outro lado é uma questão de probabilidade matemática, já que estudos acadêmicos confirmam a tese múltipla no que diz respeito a teoria e dimensão do Universo.

    Estima-se que 50 bilhões de galáxias sejam visíveis através do uso de telescópios e o número total destas no Universo certamente deve exceder este número. Porém, para termos um número conservador, vamos somente dobrá-lo. Isto é 100.000.000.000 de galáxias no Universo.

    Há tantas estrelas em cada galáxias quanto o número de galáxias no Universo previsível. Vamos dizer que este número seja de 100 bilhões de estrelas em cada galáxia.

    Levando-se os números acima em consideração, temos aproximadamente 100 bilhões de galáxias X 100 bilhões de estrelas em cada um, ou seja, 10.000.000.000.000.000.000.000 de estrelas. Isto significa 10 sextilhões de estrelas, e este é um número muito conservador.

    Uma das tecnologias atuais de caça aos planetas extra-solares, ou exoplanetas, dita que uma estrela precisa estar muito próxima de nós para que um exoplaneta seja detectado, geralmente através do ‘balanço’ de um estrela. Melhores tecnologias, que nos permitem mensurar a diminuição do brilho de uma estrela quando um planeta passa na frente de seu disco, têm agora revolucionado a caça por exoplanetas. Até hoje, já entramos na casa de milhares de exoplanetas descobertos com esta tecnologia. Mesmo este número sendo pequeno, os cosmólogos acreditam que a formação planetária ao redor de estrelas seja um processo muito comum. Assim, vamos dar a este cálculo um fator de um exoplaneta em um milhão de estrelas, e dizer que exista somente um planeta ao redor de cada estrela que possa possuir um planeta.

    O resultado é 10.000.000.000.000.000, ou seja 10 quatrilhões de planetas no Universo.

    Esses artefatos nos garantem a existência de vida em outros lugares nas escalas insondáveis.

    E, Pasmem!

  6. o que mais me anima é os tais candidatos se apresentarem cada vez mais frequentes, e sempre surgirem “próximos” (relativamente) de nós!

    cada vez mais tomamos consciência que não somos a exceção, e sim a regra! 🙂

  7. Se descobrirem planetas, onde haja metais preciosos, que mantenham em sigilo, o risco de serem roubados pela tropa de choque da lava jato é muito grande.

  8. já pensou se os sinais de habitabilidade pipocam em um desses? Imagina o pessoal queimando a cabeça para tentar saber se lá realmente tem vida e se tem tecnologia igual ou superior.

    bem que poderia acontecer ainda esse ano!

  9. Que boa notícia. Não vejo a hora de jogarmos um caminhão de areia em cima do Paradoxo de Fermi, que quanto mais se lê mais se incomoda. Mas Salvador, um gravidade mais alta, não dificultaria a formação de vida? No caso você cita que é mais ou menos 3G. Teria alguma influência?

    1. Não. Vida no fundo do oceano não tá nem aí pra essa gravidade… rs. Bactéria não liga pra gravidade. E mesmo vida complexa. Quem disse que a vida complexa não acha 1 G forte demais e preferiria 0,5 G? Não sabemos. Cada biosfera evolui em seus próprios termos…

    2. Conhece ;O PARADOXO DO UNIVERSO (A TESE)?.
      Pode parecer sem sentido, mas a seletividade proposta pelos adjetivos e advérbios do e-ser, substituindo, o verbo-substantivado do “Estar universal”, faz com que a expectativa de se encontrar vida fora do nosso sistema solar, diminua a medidas quase infinitas, já que se traduz em fazer com que dois Pontos materiais, no caso: a vida na terra e a vida em outro sistema solar, na galaxia ou em outra galaxia, esteja sobre a influencia seletiva e negativa dos paradigmas causados pela distorção deste Paradoxo,SER X ESTAR.
      Dai acredito, que ao menos que; “estejamos” encontrados por elas,(as formas de vidas que estão por ai)!, acho pouco provável este contato!
      O mais provável, “esta” que encontremos vida em nosso sistema solar; já que digamos “estas formas de vida, “estejam” ; tenham estado semeadas pelo próprio planeta terra, em eras passadas; ou como dizem os criacionistas, pelo mesmo criador! que “esteve esta e estará”!

  10. Salvador, em primeiro lugar parabéns pela excelente coluna, muito didática e ponderada.

    Gostaria de saber se, para o caso desse tipo de pesquisa, existe alguma forma de pessoas contribuírem com capacidade computacional, a exemplo do projeto SETI.

  11. 5 dias atrás, NASA confirmando grandes possibilidades de vida em Encélados e Europa.
    Hoje, mais uma superterra com grandes possibilidades de existir água, campo magnético, atmosfera…etc.
    Estamos no momento para encontrarmos Vida? Acredito que sim. Não só micróbios.
    Nos próximos 5 – 10 anos,vamos ser premiados. Estamos fazendo por merecer.
    Um contato a longa distância, imaginem?

    1. Eu sou menos otimista com relação a encontrarmos inteligência extraterrestre tão já. Mas vida? Só não vamos encontrar se não tiver. rs

      1. Vida, vamos encontrar. Estamos aprendendo a detectá-las por aparelhos, telescópios, etc.
        Inteligência extraterrestre…bem aí, é outra história. Meu desejo é que Sim.
        Mas, será difícil. Estamos vendo que somos tão raros e insignificantes nesta imensidão.
        Só se “Nós” formos encontrados. Aí mudaria nossa história.
        Seria incrivel.

        1. E quem sabe? Talvez haja alguém esperando a gente descobrir algo para se revelar. Vai saber. Essa é uma das N soluções pro paradoxo de Fermi…

          1. Sempre. Você devia tentar. Ajuda a abrir a cabeça. Tem aquele episódio ótimo em que o capitão Kirk encontra um ser que se diz Apolo e afirma que a humanidade já transcendeu sua necessidade de deuses. Século 23 tá aí! 😉

        2. Que bonitinho. Os ETs vão ficar esperando que nós tenhamos competência para descobri-los e então eles se apresentam. É preciso ser muito inocente para acreditar numa coisa dessas…

          1. Eu particularmente não acredito nisso. Mas reconheço que é uma possível explicação do paradoxo de Fermi, eles terem algo como uma “diretriz de não interferência”, à la Star Trek, que os impediria de fazer contato com certas culturas até que atinjam certo grau de conhecimento. É improvável? É. Mas não é tão improvável quanto formas de vida inteligentes nascendo a partir do barro depois de um sopro de uma criatura sobrenatural — e tem um monte de gente que acredita nessa loucura. rs

        3. E, se os ETs forem hostis, não será nem um pouco incrível eles nos encontrarem. Seres mais evoluídos, provavelmente, vão nos tratar como insetos. Ainda bem, acredito, que as longas distâncias nunca serão superadas.

      1. Não é que os americanos são mentirosos, é que você não consegue entender o que dizem, por sua inaptidão cognitiva, então acha que é tudo mentira.

        Mas na realidade o problema é com você, apenas e tão somente.

        Sugiro que estude um pouco. Assim começará a ver quem realmente está mentindo pra você.

    2. Nosso maior problema é, ainda, não dominarmos a tecnologia para altas velocidades. Para vencer o tempo e o espaço precisamos de naves superpoderosas. A tecnologia de hoje ainda é muito primária. Quando teremos espaçonaves com a velocidade da Luz? 2050?

          1. Entendi, mas nada próximo da velocidade da luz né? rs e mesmo que alcançássemos essa famigerada, nossos corpos não suportariam né? Ou seja a ideia de viagens interestelares rumo a sistemas que estejam há anos-luz daqui, mesmo que com tecnologia suficiente somente seria possível através de evolução fisiológica do homem ou quiçá por buracos de minhoca correto? Abraço!

          2. Eu acho cedo para pensarmos em viagens interestelares tripuladas. Não sabemos ainda o que a tecnologia (e nossa compreensão cada vez maior das leis da física) pode produzir. É meio como uma reunião feita pela galera da Idade da Pedra discutindo como ir à Lua. Para eles, perda de tempo. Para nós, foguetaria 101. Então, sejamos pacientes enquanto civilização. Temos tempo para encontrar as respostas. 🙂

      1. talvez seja mesmo impossível, nenhuma inteligência no universo, por mais inteligente que seja, possa ser capaz de criar algo fisicamente impossível, e tenhamos que nos contentar em contactar inteligências acessíveis com tecnologias apenas um pouco superiores às atuais. mas quem garante que isto já não seja uma experiência incrível? talvez esperar demais nos atrapalhe, e esperar menos de nossas capacidades já nos proporcione experiências incríveis!

  12. Salvador,

    Com um núcleo metálico imenso e uma rotação muito lenta, há a possibilidade de este planeta possuir na verdade um campo magnético fraquíssimo, o que praticamente inviabiliza a existência de atmosfera (pois esta seria varrida pelo vento solar, como acontece em Marte)?

    1. Então, pode ser. A verdade é que ainda não temos um entendimento muito completo de como são gerados campos magnéticos. Mas gostaria de apontar que Mercúrio, no nosso Sistema Solar, tem um núcleo metálico desproporcionalmente grande, se comparado à Terra, tem uma rotação de modorrentos 58 dias terrestres, tem um manto superestreitinho e ainda assim tem campo magnético — embora bem mais fraco que o da Terra. Então um rotação de 25 dias a priori não é razão para pessimismo, nem o tamanho do núcleo. Sem falar que gravidade para segurar atmosfera, nesse planeta, não vai faltar. 😉

    2. não temos muita certeza de como tais coisas funcionam, pois temos ainda poucos exemplos delas (3, 4..) para estudar… 🙁

  13. Salvador, a única maneira de encontrar planetas com um período de translação parecido com o da Terra seria mantendo um telescópio apontado para uma estrela por meses ou anos a fio? Já se sabe o que é mais comum: períodos de rotação curtos ou longos?

    1. É exatamente isso. Para observar um planeta com período orbital de um ano, teríamos de observar por pelo menos uns 3 anos pelo método do trânsito (para ele ter três passagens consecutivas pela estrela, as duas primeiras para se estabelecer um período e uma terceira para “testar” a predição de que deveria acontecer um novo trânsito naquele momento). Para o método de velocidade radial, um ano bastaria (uma órbita completa). Então, você pode imaginar que existe um viés de observação — enxergamos órbitas mais curtas com mais frequência porque exigem menos tempo de pesquisa. Mas temos boas pistas de que tem órbita de todo jeito. As câmeras destinadas a imageamento direto tem o viés oposto — enxergam melhor os planetas mais afastados da estrela, e portanto com órbitas mais lentas. Não por acaso, vimos com elas já uns planetas gigantes bem mais afastados da estrela que os nossos no Sistema Solar. Ou seja, há sistemas planetários de todo tipo lá fora. 😉

  14. Extraordinário! Até o final da década de 2020, acho que teremos condições de dizer se algum planeta próximo tem condições de abrigar vida! Sobre o mundo discorrido no post, deve ter uma gravidade superficial bruta, hein? Bom local para uma atmosfera densa (se não for travado em relação à estrela).

    1. É, a gravidade deve ser meio brutinha, sim. Pouco mais de três vezes a da Terra na superfície, se minha conta estiver certa.

  15. Salvador, pelo núcleo de LHS 1140b possivelmente ser um núcleo bem “metálico”, existe a possibilidade de existir um campo magnético semelhante ao da terra?

    1. Isso vai depender não só do núcleo metálico, mas da rotação também, que não sabemos (possivelmente travada em 25 dias). É bem possível que tenha campo magnético.

  16. dá pra estimar quanto seria a gravidade na superfície desse planeta com os dados que já se tem?

  17. Boa tarde, Salvador!

    Com uma volta a cada 25 dias é possível analisar uma possível atmosfera com o mesmo método usado no exoplaneta GJ 1132 b?

    1. Vai ser mais desafiador, mas a próxima geração de telescópios, com paciência, vai conseguir. 😉

  18. Salvador, no meio de tanta notícia ruim que sai hoje na nossa imprensa, (e tem que sair mesmo), ler a sua coluna é um oásis para nossa cabeça, meus parabéns e continue nos deliciando com suas informações.

    1. Valeu, Antonio! E eu também estou com saco cheio do resto do noticiário, para ser franco.

  19. Esse me parece ainda mais promissor que os planetas da Trappist1… A alta densidade apontando para a possibilidade de haver um belo dínamo no interior é algo muito animador…

    1. É bem legal, concordo. Trappist-1 ainda é meu favorito pela quantidade. Mas na qualidade esse leva. rs

  20. Salvador, duas perguntas:

    1) Existe algum motivo para priorizar as buscas em anãs vermelhas e deixar as estrelas amarelas como o nosso sol de lado?

    2) Você ja explicou antes que estamos encontrando muitos planetas de curto período orbital por que é mais fácil, já que as muitas observações necessárias são feitas em menor tempo. Existem buscas por planetas de periodo orbital parecidos com a terra (365 dias?)

    1. 1) Estrelas anãs vermelhas são menos brilhantes, de modo que o contraste entre elas e a sombra do planeta é maior no trânsito. Facilita a detecção. Além disso, planetas habitáveis em estrelas anãs amarelas precisam de órbitas muito mais longas, que exigem mais tempo de observação. O Kepler, que passou 4 anos olhando pro mesmo canto do céu, conseguiu achar uma superterra numa anã amarela com órbita de aproximadamente um ano, como a nossa, o Kepler-452b. Mas a 1.100 anos-luz, ele está longe demais para qualquer estudo subsequente no momento.

      2) O Kepler foi projetado exatamente para isso — determinar estatisticamente a quantidade de planetas de tipo Terra em órbitas de tipo Terra em torno de estrelas de tipo Sol. Mas ele tinha algumas limitações — só conseguia pegar planetas nessas condições que fossem ligeiramente maiores que a Terra (1,3-1,4 raio). Além disso, pifou e teve de mudar de estratégia de observação, limitando os dados originais a pouco menos de 4 anos. Considerando que é preciso observar pelo menos 3 órbitas para pegar 1 planeta com alguma segurança, é pouco para órbitas de um ano de duração. Ainda assim, as estatísticas nos ajudaram bem: sabemos que cerca de 20% das estrelas tipo Sol têm um planeta rochoso na zona habitável. As próximas gerações de telescópios ajudarão a encontrar alvos — estamos procurando, por exemplo, em Alfa Centauri A e B. Mas sabemos que eles estão lá. (Há um candidato em Tau Ceti, a 12 anos-luz de distância.)

      1. Obrigado, Mestre! Voce é 10! Seu blog tambem! A melhor área de comentários da internet brasileira proporcionada pelo melhor blogueiro de divulgação científica do Brasil!

        1. Uau! Parabéns a todo mundo! Né por nada, não, mas acho a qualidade dos comentários aqui realmente acima da média. E espero que só melhore daqui por diante, porque o mundo está precisando como nunca dessa sensação de que podemos ser melhores!

  21. Devo admitir que estou ansiosíssimo para a próxima década. Talvez seja muito otimismo da minha parte, mas até 2030 vida fora da Terra será algo confirmado, e eu não consigo me segurar pra ver esse momento chegar, hahahaha.
    Obs: para mim presença de metano, oxigênio e ozônio (todos os três juntos) ja é uma confirmação.

    1. Dependendo das condições do planeta, seria mesmo, porque não haveria outro meio conhecido de explicar.
      Eu acho assim: se não encontrarmos sinais nem de habitabilidade nesses planetas todos, pelo menos aprenderemos as 1.001 maneiras pelas quais a Terra podia ter dado errado. rs

        1. Ah, não seja pessimista. No máximo a humanidade vai encontrar isso. Mas a Terra vai sobreviver numa boa sem nós. rs

          1. De qualquer forma, dentro de uns três bilhões e meio de anos a Terra e todo sistema solar viram cinza, quando o Sol estiver em
            processo mais acelerado de extinção. Se até lá houver ainda humanos no planeta, é bom que tenham já desenvolvido tecnologia de navegação em velocidade de dobra.

    2. hmmmm… pra mim, a presença de metano, oxigênio e ozônio é só uma evidência fortíssima difícil de ser explicada por causas não biológicas, mas não impossível…

      evidência inquestionável para mim seria um micróbio extraterreno pulando na objetiva de um microscópio, hehehehe!!!

      1. Por isso temos tanto interesse em Marte, Europa e Encélado, mesmo com tanto planeta em zona habitável fora do Sistema Solar… 🙂

  22. Um planeta rochoso 6,6 vezes maior que a nossa Terra deve ter uma visão espetacular, principalmente se for um planeta vivo (núcleo ativo/campo magnético) e com uma atmosfera parecida com a nossa.

    1. O bacana disso tudo, na verdade, é enxergar a variedade. Tem planeta de todo jeito, sabor e cor lá fora. 🙂

      1. É verdade, Mano.

        Agora uma pergunta de principiante:
        É possível que exista exo-planetas com o dobro da idade da Terra, tipo, 9, 10 bilhões de anos?

  23. Caro Salvador, como sempre surpreendendo e ajudando muitos a compreender sobre o assunto de forma muito legal mesmo.
    Me tire uma dúvida, suponhamos que em um futuro não muito distante conseguimos descobrir vida inteligente em outro planeta, na sua opinião qual seria a melhor forma de comunicarmos esses extraterrestres a nossa existência, ou de até, manter algum tipo de contato?

    Recentemente li em um blog, uma teoria bem interessante de criar satélites de extensões, para ampliar o envio e recebimento de dados e comunicação, basicamente interligar “internet” em alguns pontos estratégicos para ajudar na velocidade compartilhamento de informações, imagens e comunicações. Na sua opinião? O que você acha a respeito?

    1. Knox, acho que, com nossa tecnologia atual, comunicação de duas mãos entre civilizações deve ser muito complicada, por conta do limite imposto pela velocidade da luz. A não ser que existam civilizações muito próximas mesmo (digamos, um raio de 50 anos-luz), “conversa” é impraticável. Para distâncias maiores, acho que a melhor coisa que podemos fazer é simplesmente adotar a filosofia da “enciclopédia galáctica” — transmitimos sinais para eles com tudo que nós sabemos, algo como uma cópia da Wikipedia, e esperemos que eles estejam também transmitindo tudo que eles sabem para nós.

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