Astronomia: O último adeus a Titã

Salvador Nogueira

Sonda Cassini faz último sobrevoo de Titã, a maior lua de Saturno, e sela seu destino.

TCHAU, TITÃ
Está chegando a hora do adeus à sonda Cassini. No sábado (22), ela realizou seu último sobrevoo próximo da maior das luas de Saturno, Titã. Foi a última oportunidade na missão, que já dura 13 anos, de conduzir observações desse mundo misterioso.

ESTRANHAMENTE FAMILIAR
Com 5.150 km de diâmetro, Titã é a segunda maior lua do Sistema Solar e a única a ter uma atmosfera densa. É também o único corpo celeste conhecido, fora a Terra, onde se observou o equivalente de um ciclo hidrológico. Só que lá o que forma rios, lagos e mares, evapora e chove, não é água, e sim metano.

SOB A NÉVOA
Em seu sobrevoo final, a Cassini passou a menos de mil km da superfície, sobre a região polar norte. É lá que ficam os dois maiores mares de metano, conhecidos como Kraken e Ligeia. A densa névoa que recobre a lua dificulta a observação, mas a sonda é equipada com radar, capaz até mesmo de medir a profundidade desses corpos líquidos.

NEWTON NO COMANDO
Além de realizar as últimas observações próximas de Titã, o sobrevoo selou o destino final da Cassini. O controle da missão programou a passagem para usar a gravidade da lua de modo a alterar a órbita da sonda ao redor de Saturno. Começa assim o “Grand Finale”.

JOGO SEGURO
A espaçonave está quase sem combustível, por isso a missão vai terminar. E o desfecho não pode permitir que a Cassini acabe à deriva, com o risco futuro de cair em alguma das luas saturninas que têm potencial para abrigar vida, como a pequenina Encélado. O temor é contaminação acidental com bactérias terrestres que possam ter pego uma carona no lançamento.

NOS FINALMENTES
Em sua nova órbita, a espaçonave se aproximará de Saturno como nunca antes, passando no estreito vão entre ele e os anéis. A trajetória arriscada será repetida 22 vezes, semanalmente. E na última passagem, em 15 de setembro, a Cassini mergulhará no planeta, colhendo dados de sua atmosfera até se tornar uma estrela cadente no céu saturnino.

BÔNUS: A última olhada da Cassini na Terra
Na quinta-feira (20), a Nasa divulgou também a última imagem que a sonda Cassini fará do sistema Terra-Lua. Feita no dia 12 de abril, a foto mostra nosso planeta e sua companheira em meio aos anéis de Saturno. Poesia pura.

A Cassini observa o sistema Terra-Lua a partir de Saturno, no último dia 12. (Crédito: Nasa)

A coluna “Astronomia” é publicada às segundas-feiras, na Folha Ilustrada.

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Comentários

  1. Somente hoje eu descobri que o satélite Titã foi descoberto por….. Cristiaan Huygens!!

    A idéia de dar o nome dele à primeira sonda a pousar lá, mais de 400 anos depois, foi poeticamente genial.

      1. Há algum tempo eu tinha um ursinho de pelúcia. Eu gostava daquele ursinho (ele se chamava Ursolino Urso da Silva), inclusive ele tinha “vida própria” e vivia pegando no pé da minha ex-esposa. Até que um dia uma faxineira confundiu o Ursinho com um trapo velho e jogou ele no lixo.

        Isso faz vários anos, mas até hoje tenho medo de pensar onde o Ursinho pode ter ido parar, onde ele pode estar agora.

        (sim, é sério).

        Imagino que nossa amiga aí de cima tenha sentido o mesmo com relação à Cassini. E posso apostar que tem muito astrônomo pensando a mesma coisa.

  2. “O temor é contaminação acidental com bactérias terrestres que possam ter pego uma carona no lançamento.”

    Não compreendo essa paranoia dos cientistas. Por que se evita tanto isto? Qual o mal que poderia surgir disto?

    Bela foto!

    1. O maior mal seria prejudicar a própria ciência. Imagine que a Cassini tromba em Encélado e daqui a duas décadas chega lá uma nova missão para procurar vida em Encélado. Aí a descoberta incrível é feita, mas depois constatamos que na verdade descobrimos a própria vida que mandamos para lá na Cassini! Ou seja, uma não descoberta. O principal problema do que eles chamam de “forward-contamination”, ou seja, contaminação daqui para fora, é esse: o potencial de estragar resultados científicos futuros.

      Fora isso, vem a questão ética: podemos povoar outro mundo com vida? Ele ter vida nativa muda alguma coisa? Quem pode tomar essa decisão? E por aí vai…

      1. Ou pior…. imagina que a terceira guerra acaba com a nossa civilização. Daqui a uns 2 milhões, dois mil e dezesste anos os chimpanzés evoluídos chegam a Titã e acham…… vida! E concluem que pela similaridade entre as bactérias de Titã e as da Terra, a Vida se originou em Titã e veio de lá pra cá!

          1. Ah, vejo uma certa poesia em humanos espalhando a vida pelo Cosmos. Acho que me empolguei com o conto A Última Pergunta de Asimov… 😛

          2. Eu também acho muito legal espalharmos vida pelo Universo. Mas só na hipótese de faltar vida por lá, algo que não sabemos ainda.

  3. Caro, salvador, imagina , que na antropologia nórdicas, os nórdicos tem planetas como deuses, e saturno esta um deles.
    Olha que a terra nem gravita em torno deles, os 4 gigantes gasosos(Deuses).
    eu como creio em civilizações extraterrestres no nosso sistema solar.
    Na possibilidade dos extraterrestres habitarem na orbita de saturno, e se eles que gravitam por lá, e tiverem saturno como um D’eus.
    O homem lançando algo para dentro de saturno,(lixo espacial) estaria , como violar algo sagrado.
    Mesmo que para maioria dos terrenos, não tenha o sol como um D’eus, imagina se extraterrestres ,enviasse algo para dentro do nosso sol!!
    Talvez a NASA , tenha dado um tiro no próprio pé, ao decidir enviar a sonda em um voo sem volta para Saturno, e a humanidade pague o pato por esta decisão. este ceticismo astronômico deveria estar revisto, para evitar as hipóteses do paradigma do “ser ou não ser”.
    ai te pergunto não poderia ter enviado a sonda para o fim do cosmos , outra alternativa menos ceticista?

    1. falar um monte de besteira a gente até tenta suportar, mas por favor, liga a porcaria do corretor ortográfico!!!

  4. Salvador, aqui vai um OFF TOPIC:

    fiquei estarrecido com as notícias de que a administração Trump está restringindo acesso aos dados científicos de diversas agências governamentais. É notícia velha, eu sei. Mas fiquei sabendo disso só depois das marchas pela ciência. Cara, até onde vai a ignorância? Ou será que há interesses escusos no meio? Eu achei esse episódio parecido com a queima de livros pelos nazistas em 1933 ou com a destruição da biblioteca de Alexandria. Não chegou a tal ponto, mas quem garante que o Trump e os acólitos malditos anti-ciência não vão sumir com os data sets do governo antes de tudo isso acabar?

    1. Pois é. É revoltante. Os cientistas começaram a fazer backups assim que o Trump ganhou. E com razão. Várias coisas já sumiram dos servidores do governo. É obscurantismo na veia.

    2. ou pior: confiscar os dados para uso posterior. Imagina o que é ter a NSA trabalhando para interesses de um grupo pequeno com ligações com países notadamente não muito “freedom-friendly”

      1. Não consigo imaginar como um grupo pequeno poderia usar as informações sobre mudança climática…

  5. A foto da Terra e da Lua mostra muito claramente como estão longe uma da outra, coisa que não percebemos daqui. Impressiona e valoriza ainda mais as viagens do Projeto Apollo. Realmente, uma foto maravilhosa!

    1. Terra e Lua estão realmente longe, tão longe que cabem todos os outros planetas entre eles. Mas como vc conseguiu ver isso na foto? Eu só vejo um ponto!

      1. hehehe… mesmo sem aumentar a foto, aquele cisco próximo da “estrela” Terra não é exatamente um cisco no monitor!

        Belíssima foto!

      2. na verdade cabem quase todos os planetas no espaço entre a Terra e a Lua. Só não sei onde cabe sua retórica

        1. eita, essa resposta era para o Gilberto… (o pior que coincidiu com o comentário)

          foi tudo culpa do celular!

  6. Salva, uma alternativa interessante, se possível, seria usar as órbitas para dar velocidade e catapulta-la para “cima” ou para “baixo” do plano do sistema solar… Teríamos uma perspectiva diferente do plano do sistema solar, até o RTG esgotar. Como você disse, o piloto seria Newton…

    1. É, mas acho que não há delta-v suficiente para essa manobra. Ela não teria mais como escapar da órbita de Saturno.

    2. O sistema Terra-Lua, sendo visto dos anéis de Saturno, que imagem, e saber que somos arrogantes, violentos, destruindo esse planeta dia-a-dia…..nada como esta imagem simboliza muito bem nossa insignificância, dependência e nossa pequenez perante o Universo

      1. Porém, ao mesmo tempo em que somos insignificantes – enquanto não se encontre vida extraterrestre – somos únicos e especiais.

        1. Mesmo que encontremos vida extraterrestre, continuaremos sendo únicos e especiais. Duvido que eles sejam iguais a nós.

  7. Estava vendo este ótimo Post e todas as últimas fotos e textos no site da Nasa.
    Você viu que Nitrogênio borbulha em Titã, dentro dos lagos, mares e rios com a variação de temperatura? alterando inclusive a geografia de Titã?
    Off-topic, Missão Juno tem muitas fotos processadas dos últimos sobrevôos. Sensacional .

    1. Sim, uma das coisas que esse último sobrevoo vai fazer é estudar mudanças nos mares e rios.
      E sim, as últimas imagens da Juno estão realmente de babar. Pena que falta ciência nova para acompanhá-las num post. 😉

  8. prezado mensageiro sideral… mesmo depois destes 13 anos viajando pelo espaço, ainda existe as chances desta sonda, a cassini, conter algum tipo de bacteria oriunda da terra ???? a radiação espacial, tanto falada, bem como os ventos solares já não teriam esterelizados qq forma de vida que porventura viessem a ter seguido junto com a mesma ????

    1. Matar vida é menos fácil do que se imagina. A galera faz experiências bombardeando Deinococcus radiodurans com raios gama e a danada sobrevive…

  9. Anos 90: “Com a internet o conhecimento humano será universal e de fácil acesso.”
    2017: “A terra é plana.”
    É meus amigos alguma coisa deu muito errada no meio do caminho. E não me venham falar que têm alguma a ver com religião, pois assim como eu existem milhões de cristãos que não enxergam nenhuma contradição entre ciência e religião. E vamos sorrir porque que a piada é engraçada, isso ela é….

    1. Acho que nada realmente deu errado. A previsão dos anos 90 se confirmou. Hoje o conhecimento humano é universal e de fácil acesso. Acho coisas incríveis na internet, acompanhamos missões espaciais em tempo real, temos enciclopédias muito mais vastas e completas que as de papel, o Google digitalizou boa parte da biblioteca universal, e podemos levar milhares de livros no bolso, assim como acessar informações em tempo real.

      Certo, mas então como chegamos a 2017, com “a Terra é plana”? Simples na verdade. Criamos os meios para disseminar o conhecimento, mas nada fizemos com relação aos receptores do conhecimento. Eles continuam tão suscetíveis quanto antes ao engodo. Só que agora os engodos também têm acesso universal — a mesma tecnologia que nos deu o conhecimento farto e inesgotável.

      Resumo da ópera: quem é inteligente e/ou racional vai ficar ainda mais inteligente, e quem é burro e/ou supersticioso vai ficar ainda mais burro. Eis aí a tragédia dos nossos tempos. Ao democratizar o acesso, aumentamos radicalmente a desigualdade entre os cultos e os incultos. Paradoxal, mas verdadeiro.

      1. Salvador, jura que quando você está jogando WAR e só tira número baixo nos dados você não muda a maneira de lançá-los “pra ver se a sorte muda”????

        Todo mundo tem um pouco de superstição, isso não significa ser burro. Ser burro é deixar-se prejudicar (a si ou a terceiros) por usar a superstição em lugar da razão. Mas dar 3 batidinhas na madeira pra espantar o azar numa conversa de bar não me parece ser burrice.

        1. Por isso o “e/ou”. Mas quando me refiro a superstições, não falo daquelas inofensivas, mas sim das nocivas — como rezar em vez de tomar um antibiótico, ou achar que uma pessoa pegou HIV por punição divina. O lance é que a suscetibilidade a superstições não distingue entre as inofensivas e as nocivas. Se você é capaz de separar algumas das outras, no fundo, você admite que aquilo não funciona. E aí você não é supersticioso. Ou seja, você pode até mudar o modo como você joga os dados no WAR, mas você não acredita, no fundo, que isso vá mudar seu destino no jogo. Eu bato na madeira com frequência, mas como uma expressão de comunicação, no sentido de dizer “tomara que não”, e não realmente para impedir um mal. Estou convencido de que bater três vezes na madeira não protege ninguém de nada. rs

        2. discordo. achar que nossa fé num resultado específico esperado vai alterar de alguma forma os parâmetros de algum evento aleatório é burrice sim!

      2. Fora que há muitas más intenções travestidas de boas nesta história toda, não é Salvador? Há gente fazendo campanha anticientífica com o fim de manter o povo na ignorância para poder controla-lo melhor e tem gente que duvida de tudo como se tivesse conhecimento para duvidar de alguma coisa. Se aproveitando de serviços como o AdSense, ainda conseguem financiamento para divulgar ainda mais as suas ideias.

  10. Legal, Salvador!… Melhor ainda é ver o nosso pálido ponto azul através dos Anéis. A saber, anel F e borda do anel A, onde se vê a falha de Keeler e a Falha de Encke com seu aproximados 325 Km. Magistral!…

    1. Sobre um único planeta e seu sistema de luas e anéis, sem dúvida. Mas é difícil compará-la com missões como as Voyagers, que nos deram um panorama muito mais vasto de vários planetas e, de certo modo, orientaram missões como a Galileo (que ficou bastante limitada por uma falha em seu sistema de comunicação) e a Cassini (essa sim bombou).

    1. Só agora notei que a matéria é sua! Kkkkkkk.
      Aproveite e corrija a data de início do projeto, logo na introdução: “Em 2011, nascia a Biosfera 2″…
      Muito boa a matéria. Parabéns novamente. 🙂

    2. Pois é, o “olho” está com a data errada. Mas não tenho como corrigir, não tenho acesso ao sistema da Super. Fiz essa matéria para a revista impressa, tempos atrás.

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