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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Astrônomos encontram cometa interestelar

Por Salvador Nogueira

Em setembro último, um cometa passou raspando pelo Sol. Até aí nada de novo; esses astros fazem isso o tempo todo. Mas este foi especial, pois ele parece ter vindo de outro sistema solar — um viajante interestelar.

Se essa conclusão se confirmar, será a primeira vez que se detecta um cometa interestelar, ou seja, que viajou de um sistema planetário a outro, cruzando o imenso vazio entre as estrelas.

O astro foi descoberto na semana passada pelo projeto Pan-STARRS, um sistema de busca de bólidos celestes próximos à Terra apoiado pela Nasa, a agência espacial americana. De início, parecia só mais um cometa, como tantos outros, sem risco de colisão com nosso planeta.

No entanto, o acompanhamento do objeto indicou que ele estava numa rota hiperbólica, termo técnico para “não estava preso a uma órbita ao redor do Sol”. Mais que isso, sua velocidade de deslocamento era incomum. “Foi medida em 26 km/s, compatível com a de objetos situados no disco galáctico”, diz Cristóvão Jacques, astrônomo do SONEAR, observatório brasileiro de busca por asteroides próximos à Terra. “Por causa dessa velocidade, sabemos que ele não é do Sistema Solar, e sim de fora.”

Os astrônomos sabem que cometas são ejetados do Sistema Solar o tempo todo, então é de fato esperado que eles transitem por aí, entre as estrelas. Mas ninguém tinha visto até agora um exocometa cruzar o Sistema Solar, e esse em particular mostrou uma peculiaridade adicional. “O que é estranho e uma incrível coincidência é como um cometa de fora do Sistema Solar passa tão perto do Sol”, diz Jacques. “Foi quase um sungrazer“, referindo-se a cometas que mergulham tão próximos de nossa estrela que muitas vezes são completamente destruídos e nem saem do outro lado.

O cometa interestelar, C/2017 U1 (Pan-STARRS), segue sendo observado atentamente conforme se afasta depressa do nosso Sistema Solar, para nunca mais voltar. A esperança é que se possa confirmar sua órbita e sua natureza hiperbólica, que indicaria origem extra-solar.

Entre os que estão registrando sua fugidia presença por essas bandas é o astrônomo brasileiro Paulo Holvorcem, que, trabalhando em parceria com o americano Michael Schwartz, registrou o objeto no último dia 21. “Nelas, não se vê atividade cometária”, diz Holvorcem, num elemento que aumenta o mistério. Seria um núcleo de cometa esgotado? Ou sua passagem tão rápida pelo Sol limitou o nível de atividade?

Imagens em negativo do cometa interestelar, feitas do Observatório Tenagra, no Arizona (EUA). (Crédito: Paulo Holvorcem e Michael Schwartz)

Imagens colhidas e tratadas pela Mount Lemmon Survey de início pareceram detectar uma pequena coma (a atmosfera do cometa), compatível com a que se esperaria de um objeto desses, da ordem de meros 100-200 metros de diâmetro. Mas observações posteriores refutaram isso — se for um cometa, está inativo ou extinto.

E as investigações continuam. Na noite desta quarta-feira (25), Joe Masiero, astrônomo do JPL (Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa), usará o Observatório de Palomar para tentar capturar o espectro — a assinatura de luz — do objeto e assim dizer algo sobre sua composição.  (Ciência em tempo real é assim!)

E eis a maior de todas as perguntas: de onde ele teria vindo? Os astrônomos ainda não sabem com certeza, mas, com o que se pôde calcular até agora, ele deve ter vindo da direção da constelação Lira, muito perto de onde se localiza a estrela Vega, a 25 anos-luz daqui. Contudo, a trajetória até agora não bate exatamente lá. Talvez com a coleta de mais dados e a definição mais precisa da órbita, possamos determinar se esse ilustre visitante veio de lá ou de outro lugar.

Indicação da faixa de onde pode ter vindo o cometa. (Crédito: Daniel Bamberger)

O mais provável, contudo, é que sua origem permaneça para sempre desconhecida. Seria mais uma enorme coincidência (além da passagem próxima do Sol) que ele viesse diretamente de uma estrela próxima, em vez de ter vagado a esmo pela galáxia por bilhões de anos antes de cruzar o nosso caminho.

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