Supernova que insiste em não apagar intriga astrônomos

Salvador Nogueira

Um grupo internacional de astrônomos encontrou uma supernova diferente de tudo que já se viu antes. O achado pode colocar em xeque nossa atual compreensão de como estrelas de massa muito alta — dezenas ou até centenas de vezes a do Sol — encontram seu fim explosivo.

Tudo começou em 22 de setembro de 2014, quando a câmera do projeto Intermediate Palomar Transient Factory detectou uma explosão estelar localizada numa galáxia distante, a cerca de meio bilhão de anos-luz da Terra. Como não havia imagens daquela região desde maio, os astrônomos não puderam dizer quando a detonação aconteceu. O que eles podiam dizer é que explosões daquele tipo acontecem quando estrelas de alta massa entram em colapso. E raras vezes seu brilho permanece por mais de 100 dias.

A iPTF14hls, contudo, permaneceu teimosamente brilhante por mais de 600 dias. Não só isso, mas, nesse período, a estrela oscilou em brilho e teve pelo menos cinco picos de luminosidade — como se ela estivesse explodindo múltiplas vezes. E, para temperar o mistério, registros históricos sugeriam que outra erupção pode ter sido registrada na mesma posição em 1954 — 60 anos antes do atual evento.

Comparação de uma imagem feita em 1954, com uma explosão visível, e uma em 1993, sem explosão. (Crédito: POSS/DSS/LCO/S. Wilkinson)

“Todas as supernovas até hoje observadas foram consideradas como a explosão terminal de uma estrela”, escrevem os pesquisadores encabeçados por Iar Arcavi, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, nos EUA. “Aqui nós reportamos observações da iPTF14hls, um evento que tem espectros idênticos aos de supernovas de colapso de núcleo ricas em hidrogênio, mas características que diferem largamente dessas supernovas conhecidas.”

Supernovas de colapso de núcleo são aquelas em que a estrela explode depois que o combustível de fusão nuclear em seu interior se esgota, levando a uma compressão cataclísmica da matéria pela gravidade. Até aí, nada de novo. Mas a supernova iPTF14hls tem um comportamento completamente inesperado.

Entre as anomalias estão a velocidade de ejeção do material, que normalmente parece diminuir depressa e aqui parece frear bem menos do que o esperado, e a manutenção da temperatura, que também deveria se resfriar com o aumento da expansão da nuvens ejetadas da estrela moribunda.

Comparação entre a curva de luz da supernova iPTF14hls e suas contrapartes conhecidas. (Crédito: LCO/S. Wilkinson)

O resultado intrigante foi publicado na edição desta quinta-feira (9) da revista “Nature” e apresenta um real desafio aos nossos modelos de supernova para estrelas de alta massa. “A iPTF14hls demonstra que estrelas no Universo local podem passar por erupções muito massivas nas décadas que levarão a seu colapso e ainda, de forma surpreendente, manter um envelope massivo rico em hidrogênio pela maior parte do tempo”, escrevem os pesquisadores. “Os modelos atuais de evolução e explosão de estrelas massivas precisam ser modificados, ou uma figura completamente nova precisa ser apresentada, para explicar a dinâmica energética da iPTF14hls e a quantidade inferida de hidrogênio que ela reteve até o fim de sua vida.”

Com toda probabilidade, a detonação misteriosa terminou com a formação de um buraco negro com muitas massas solares — talvez na escala dos objetos que foram primeiro detectados por ondas gravitacionais, com mais de 30 vezes a massa do Sol. Mas os detalhes do processo ainda são desconhecidos. E isso é uma ótima notícia, segundo Stan Woosley, pesquisador da Universidade da Califórnia em Santa Cruz que não participou do trabalho, mas comentou-o num artigo na mesma edição da “Nature”. “Por ora, a supernova oferece aos astrônomos sua maior fissura: algo que eles não entendem.”

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Comentários

  1. Grande Salvador,
    sempre leio os comentários de suas matérias pois são um grande complemento da informação dada.
    Mas, esses intrusos religiosos já deram pro gasto, todas as sequencias de comentários acabam caindo nessa ladainha interminável.
    Sugestão minha, não entre mais nessa, não responda mais quando o tema migrar para este lado, acho que perde-se tempo e energia demais com estes indivíduos, o lugar deles não é aqui.
    Vejo muitos leitores comentando e adicionando conhecimento ou solicitando esclarecimentos, esses são seus leitores de verdade, esses vão disseminar o conhecimento adquirido aqui, contribuindo para uma sociedade mais evoluida.
    Os religiosos, e também não tenho nada contra eles, que vão procurar seu espaço noutro lugar, há muitos grupos de oração na internet e o dizimo é baixo!
    Acho que você deveria ignora-los e virar o jogo, ao invés de ficar batendo em ponta de faca, deixa eles sentirem o drama.
    É a minha sugestão, e volto a dizer, seu blog é um dos motivos que mantenho minha assinatura no UOL.

    Um Abraço!

    1. Idem! Muito instrutivo o blog do Salvador e é realmente um grande motivo para manter a assinatura no UOL se compararmos com a concorrência. Tenho a impressão que esses “fanáticos” religiosos estão mais de gozação, parece coisa de quem não tem o que fazer.

  2. Anomalias existem…são exceções as regras… e devem serem analisadas a parte…sem ser a priori …levadas a descartarem as regras…

  3. Prezado Salvador
    Desde que localizei o Mensageiro Sideral, sempre que possível, tenho lido os seus textos que considero as melhores e prazerosas leituras que tenho feito.
    Com base na atenção que você costuma dar aos seus leitores, tomo a liberdade de solicitar que por favor faça uma análise do que está CORRETO ou ERRADO no texto que escrevi com o objetivo de contextualizar as muitas dúvidas que tenho sobre o assunto:
    “Se uma equipe de astrônomos que se dedica a pesquisar o Universo – origem, idade, dimensões, propriedades físicas e químicas – com um conjunto de modernos e potentes telescópios, apontar sequencialmente em todas as direções, 360° tanto horizontal quanto verticalmente, ficará no centro de uma esfera imaginária, cujo raio será de 13,72 bilhões de anos luz (27,44 de diâmetro) e que devido à expansão este mesmo raio estará com 45,0 bilhões de anos luz [90,0 bilhões de diâmetro].
    Neste caso, os corpos celestes da superfície da esfera – estrelas, galáxias – serão os mais antigos do Universo e mais próximos da origem (380 mil km) – o Big Bang.
    O Big Bang que deu origem ao Universo em que vivemos surgiu a partir de uma singularidade (Buraco Negro?), um ponto que de tão inimaginavelmente pequeno torna-se invisível, contendo potencialmente toda a matéria e energia de que é feito o Universo.
    Se esta singularidade é única então o Big Bang é realmente a origem, mas se antes desta singularidade houve outro Universo que lhe deu origem, e outra singularidade que deu origem a esse Universo antes deste, e assim por diante, então a idade do Universo poderá ser infinita e consequentemente não tivemos início nem teremos fim”.
    Grato pela sua atenção e abraço,
    E. Laerte Holanda

    1. Espedito, quase lá. Apenas pequenos reparos. A superfície da esfera do Universo observável tem a radiação cósmica de fundo — a primeira luz a fluir livremente pelo Universo –, e desconfio que você se refira a ela quando fala em “(380 mil km)”, na verdade querendo falar em “380 mil anos-luz”, referindo-se aos 380 mil anos que levou entre o Big Bang e a emissão da radiação cósmica de fundo.

      Esse, contudo, é um caso em que é bem complicado equalizar distância com tempo, porque, se a hipótese inflacionária estiver correta (é provável que sim, mas ainda não sabemos), houve um período de inflação em que ele inflou mais rápido que a luz. Também há uma confusão conceitual, pois você começa descrevendo o Universo observável (tendo, portanto, a Terra como referencial), e termina querendo dizer onde está o ponto central do Big Bang, que só parece ser na Terra porque esse foi o seu referencial escolhido. Você poderia estar do outro lado do Universo observável, e o Universo observável ainda pareceria igual, centrado nesse ponto do outro lado do “nosso” Universo observável. Tenha em mente que não houve um ponto NO Universo de onde o Big Bang partiu. A teoria do Big Bang significa que TODO O Universo observável estava compactado num espaço muito pequeno que então se expandiu. Ou seja, o Big Bang aconteceu em toda parte! (Pelo menos em toda parte do Universo observável.)

      Outra pequena observação diz respeito à singularidade. Esse é o nome que os físicos dão a uma entidade de densidade infinita e dimensão zero. Ou seja, infinitamente pequena. A relatividade geral é uma teoria clássica e costuma produzir esses valores “infinitos” em condições extremas. Contudo, sabemos que o mundo muito pequeno é regido pela mecânica quântica, então talvez não haja uma singularidade no começo do Universo.

      É fato que o nosso Universo começou num ponto muito pequeno e denso — só não sabemos se numa singularidade, ou seja, infinitamente pequeno e denso.

      Tirando esse lance da singularidade, de resto você está certo — o Universo pode ter começado no atual Big Bang, ou pode ter tido outras coisas antes dele. Não sabemos.

      Abraço!

    2. Gostaria de dar um pitaco se me permite.
      Quando vc diz: “Neste caso, os corpos celestes da superfície da esfera – estrelas, galáxias – serão os mais antigos do Universo e mais próximos da origem – o Big Bang.”. Sim, mas tem sentido somente para nós. E olha q interessante, para eles nós é que estamos na “superfície da esfera”, na verdade nós não, eles veem algo que estava aqui a 13,5 bilhões de anos atrás.

      1. E seguindo nesse raciocínio, nós nem estaríamos na superfície da esfera deles porque nós não existíamos 13,5 bilhões de anos atrás. Mas um protótipo da Via Láctea talvez pudesse ser encontrado por lá… 🙂

  4. As letrinhas ficaram tão pequena que não dá mais para ler, assim continuo aqui.
    Salvador, eu sou solidário à sua estupenda ação de divulgação científica da Astronomia (e de Star Trek, by the way). E vejo como é irritante e desgastaste a interação com comentaristas pseudo-religiosos aqui (tipo Apolinário etc.). Eu nem sei porque você se dá ao luxo de responder a eles (eu ficaria quieto), bom talvez você tenha a mesma filosofia de interação com o leitor do jornalista cristão e mui paciente Reinaldo Lopes. O que eu queria dizer é que assisto essa sua batalha há muitos anos e nunca manifestei muito minha opinião. Mas como estou trabalhando com divulgação cientifica também, gostaria de fazer colocações sobre jornalismo cientifico que poderão gerar algumas reflexões suas talvez. Sei que você é uma pessoa racional e Bayesiana (ou seja, muda de opinião conforme a evidência ou os argumentos lógicos), então quem sabe isso poderia gerar uma interação mais proveitosa com o pessoal religioso que fica comentando aqui no seu blog.

    1. Vou dar um exemplo anedótico: há seis anos me apaixonei por uma mulher (Rita) basicamente porque ela decorava o celular com um app que mostrava fotos do Hubble. Ela também quis me conhecer pelo fato de eu ser físico e a primeira conversa num café foi iniciada por ela, sobre um novo tipo de buraco negro que ela tinha lido na Folha (teria sido você o reporter?). Ela tinha aquela comportamento usual (social), no sentido: Dorme com Deus, Deus te proteja, Vá com Deus etc. Citou uma vez um versículo (“Os Céus manifestam a Gória de Deus”) como uma das motivações que ela tinha para ler o seu blog na Folha.
      Bom, depois de eu falar que as fotos do Hubble eram de cores falsas, e que o tamanho do universo era apenas a prova de nossa insignificância, num Universo sem sentido, ela perdeu a fé. Junto com essa perda, ela deletou o app do Hubble no celular, não lê mais reportagens de Astronomia, não lê mais o seu blog.

      1. Bom, eu apenas gostaria de sugerir a você que ficar enfatizando que a Astronomia mostra como somos poeira de estrelas (ou seja, lixo espacial), infinitamente pequenos, desprezíveis, com uma curta vida sem sentido, em um Universo também sem sentido e fruto do puro acaso não é a melhor maneira de entusiasmar as pessoas pela ciência. Exigir que as pessoas que gostam da beleza da Astronomia precisem tirar uma carteirinha de ateu para continuar gostando do assunto, senão seriam desonestos intelectuais, com cérebros contaminados por memes religiosos destrutivos, me parece totalmente fora de propósito. Nosso objetivo como divulgadores da ciência é fazer com que as pessoas vejam a beleza da mesma, se interessem, se disponham a apoia-la (mesmo continuando religiosas, como é o caso do Reinaldo Lopes). Ou seja, o objetivo mínimo seria transformar fundamentalistas religiosos em religiosos moderados e esclarecidos como Reinaldo, que gostam de ciência e a apoiam. Não tenho certeza se afirmar que o mundo seria bem melhor sem as religiões (como foi feito – ou quase – no post sobre Star Trek Discovery) vai atrair mais gente para o campo científico. Na verdade, pode ser um poderoso instrumento para alienar ainda mais as pessoas da ciência. Bom, é isto o que penso, mas imagino que você também tenha uma opinião bem pensada sobre isso…

        1. Osame, eu não disse jamais que somos infinitamente pequenos e desprezíveis, com uma curta vida sem sentido. Jamais. Nem acho que esta seja a mensagem da ciência. Pelo contrário. No “Conversa com Bial” de que participei, foi evocada essa noção do “pequenos e desprezíveis”, e eu rebati veementemente. Disse que, ao mesmo tempo em que somos pequenos comparados ao Universo, somos grandes porque podemos compreender o Universo. O Universo é muito maior que o ser humano, mas, ao mesmo tempo, cabe no interior de nossa mente, o que é notável e nos impõe uma sublime responsabilidade: sermos os biógrafos do Universo, ou pelo menos os biógrafos do Universo, segundo nosso ponto de vista particular. Esta é uma ideia que já planejo desenvolver com mais vagar há alguns anos e, salvo alguma bola de efeito na minha direção, deve ser tema do meu próximo livro.

          Quem cria a falsa dicotomia entre “ser religioso” ou “ser desprezível segundo a visão fria da ciência” é você. Ela não existe.

          No mais, sempre defendi aqui não o ateísmo, mas a separação rigorosa entre a religião e a ciência. A religião fala de verdades subjetivas, a ciência fala de verdades objetivas. O tema do blog é ciência, e não acho salutar misturar com religião. Sigo a linha dos “magistérios não interferentes” de Stephen J. Gould. Acho o jeito certo de fazer divulgação científica. Não é pregação; é ciência.

          Aliás, interessante você mencionar o Reinaldo José Lopes. É meu amigão de longa data, e admiro de fato como ele é capaz de separar uma coisa da outra na cabeça dele, mas acho temerário — e não é segredo para ninguém, inclusive ele — misturar ciência e religião no mesmo balaio, no mesmo espaço de comunicação. Quando eu fui editor de Ciência e Saúde do G1, o Reinaldo tinha dois espaços separados: o Visões da Vida, sobre biologia evolutiva, e o Ciência da Fé, para falar de temas religiosos. Eu fiz questão que assim o fosse porque é minha convicção que os temas são como água e óleo, não se misturam. Não deveriam se misturar.

          De volta à Folha, o Reinaldo conseguiu costurar as duas coisas numa só, na forma do atual Darwin e Deus. Continuo achando inadequado. Seria como se eu decidisse fazer deste blog um espaço sobre astronomia e futebol. Nada contra futebol. Adoro futebol. Mas não faria jamais. Porque não me parece adequado misturar dois temas completamente diferentes. Para isso, criaria dois blogs, permitindo que quem goste de futebol leia sobre futebol, e quem goste de astronomia leia sobre astronomia. Faz sentido para mim.

          Resumo da ópera: não tenho nada contra religião. Tenho restrições ao fundamentalismo religioso, que julgo socialmente nocivo. Mas a religiões? De jeito nenhum. Cada um no seu quadrado, com toda liberdade.

          Mas, não, não vou misturar ciência com religião como uma “isca” para atrair mais leitores para o lado da ciência. Acho, na melhor das hipóteses, inefetivo, e na pior, desonesto. O desafio que me imponho é justamente mostrar que o mundo natural — e nossa compreensão dele — já é razão suficiente para nos animarmos e acharmos que nossa vida tem sentido, um belo propósito auto-imposto, sem precisar recorrer a noções sobrenaturais. A julgar pelo fato de que este blog tem uma boa audiência regular, acho que a coisa está caminhando bem. 😉

          1. Concordo com você, Salvador… Ciência e Religião não se misturam. Seu amigo Reinaldo José Lopes tenta misturar os dois e seu blog ficou muito esquisito. Li o livro do Reinaldo “Deus, como ele nasceu” e minha avaliação é a de que ele começou bem, tratando da questão historicamente, mas o terço final do livro me pareceu mais uma tentativa de evangelização do que de esclarecimento histórico. Decepcionante, a meu ver.

          2. Salvador, falando em Darwin, você acredita que A Origem das Espécies ainda sobrevive sem precisar de alguns adendos? Tipo Einstein?

          3. Não. Mas nem Einstein resiste sem adendos. De qual Einstein você está falando? Do proponente da mecânica quântica ou do crítico da mecânica quântica? Do cara que inventou a constante cosmológica ou do cara que repudiou a constante cosmológica?

            A teoria de Darwin resiste ao teste do tempo como a relatividade geral de Einstein. Ambas continuam a nossa melhor palavra sobre seus respectivos domínios. Mas, claro, todas elas já justificaram adendos e têm limitações. A seleção natural não contempla fenômenos como a epigenética, que tem aspectos lamarckistas e fala de características adquiridas e então passadas adiante. A relatividade geral também não se presta à quantização, o que parece ser incompatível com o que sabemos sobre a natureza do mundo atualmente.

            A Origem das Espécies é uma obra-prima da ciência, figurando facilmente ao lado de obras como os Principia de Newton e a relatividade geral de Einstein. Ela deu sentido à biologia, do mesmo jeito que os Principia deram sentido ao movimento, e Einstein deu sentido ao espaço-tempo e à gravidade.

            A maravilha da ciência é que ela não precisa ser perfeita. Basta ser efetiva. Com efetividade, ela vai se aperfeiçoando. Não sei se algum cientista algum dia terá a palavra final sobre qualquer coisa. Mas é fato que o poder explicativo vai aumentando. A teoria de Darwin tem enorme poder explicativo e preditivo. A relatividade de Einstein também. São pilares sólidos, sobre os quais outros cientistas se apoiam para explorar as fronteiras do conhecimento.

          4. Li com atenção o trecho em que você diz ” O Universo é muito maior que o ser humano, mas, ao mesmo tempo, cabe no interior de nossa mente, o que é notável e nos impõe uma sublime responsabilidade: sermos os biógrafos do Universo, ou pelo menos os biógrafos do Universo, segundo nosso ponto de vista particular”.
            Na década de 80, li um livro pouco difundido, chamado “Sexta-Feira ou Os Limbos do Pacífico”. Eu o carreguei durante algumas décadas, até que ele se perdesse em uma de minhas incontáveis mudanças de endereço. O autor, Michael Tournier, faz o que alguns chamariam de releitura do Robinson Crusoé, de Daniel Defoe. Não penso assim: é antes uma busca do “entorno”, uma tentativa de entender o Universo. Não no sentido astronômico, mas no sentido existencial. Mas é interessantíssimo, e se, como você disse acima, pretende escrever uma “biografia humana sobre o Universo”, recomendo que você o leia (caso já não o tenha lido). Vou tomar a liberdade de citar uma parte de “Notas Críticas do Romance Sexta-Feira ou Limbos do Pacífico, de Michael Tournier (1967)”.

            ( http://www.revistaacademicaonline.com/products/notas-criticas-do-romance-sexta-feira-ou-limbos-do-pacifico-de-michael-tournier-1967/ ):

            “outrem pode ser um objeto (qualquer objeto no campo perceptivo) ou sujeito (ainda que fosse outro sujeito para um campo perceptivo), mas sua teoria ainda repousa nas categorias de sujeito e objeto, em que outrem é aquilo que me constitui como objeto quando me olha e, se converte em objeto quando o olho.
            Esse clássico dualismo esboroa aqui, pois o problema não é mais colocado entre sujeito e objeto, mas numa estrutura diferente – um mundo com outrem (outrem não é o outro, ele é uma condição que estabelece um possível envolvido, e um mundo na ausência de outrem (sem a estrutura que torna os mundos possíveis)”.
            Acho que seria quase impossível você abordar o tema que se propõe para o próximo livro, “salvo alguma bola de efeito”, sem uma “pega” filosófica. Fica a dica do livro do Tournier.

            Um grande abraço

          5. No meu comentário acima, falei de filosofia e existencialismo. Poderia parecer fora de contexto, num blog de Astronomia e Astrofísica.

            Mas tive uma razão para isso. Você fala de uma biografia humana sobre o Universo. Você fala de uma responsabilidade que temos para escrevê-la. Entendo perfeitamente: somos inteligentes, somos tecnológicos, e conseguimos fazer o universo caber em nossa mente. E ainda: não conhecemos ninguém mais (que não o Homo sapiens) capaz de tomar essa tarefa para si.

            Proponho uma hipótese, que está longe de ser impossível: um dia, a vida na Terra se extingue, por acidente natural ou não. Associo a essa hipótese, outra, mais improvável na minha (humilde, mas sem modéstia alguma) opinião: não existe outra inteligência tecnológica no Universo. Repito: improvável, não acredito nisso. Por uma mera questão estatística: o Universo é grande demais e tem tempo demais para ter gerado vida inteligente apenas aqui.

            Mas prosseguindo com a soma das duas hipóteses: vida (um dia) extinta na Terra, e nenhuma outra inteligência no Universo. Então tudo perde o sentido.

            Antes: e a incerteza da mecânica quântica, como ficaria sem um Observador? Indefinida e sem relação causa-efeito para todo o sempre? E mais arrasador ainda: para que um Universo sem um Observador? Que diferença faria existir ou não o Universo sem um Observador?

            Você gosta do termo “questão metafísica”, e podemos usá-la aqui. Mas também é uma questão existencial, “sartreana” ou “pós-sartreana”. E foi por isso que me lembrei do livro do Michael Tournier.

            Na primeira parte do livro ele está só, em uma ilha, que poderíamos chamar de Terra. Ele entra numa caverna, onde fica provido de som e luz. E se pergunta: será que o que torna o mundo possível, o que faz o mundo existir, é a minha percepção dele? Será que ele deixa de existir quando não posso testemunhá-lo e não tenho um outro testemunho de sua existência?

            Estou sendo grosseiro, e apelando em excesso para minha memória. Li o livro pela última vez há bem mais de uma década. Mas me recordo que essa era a essência da primeira parte do livro, antes que um “outro” chegasse à ilha.

            Enfim, foi o que me levou à audácia de te recomendar a leitura do livro. Porque mais que pertinente, é assustadoramente atual, embora escrito em 1967. E repito: podemos chamar de questão metafísica, mais a seu gosto, ou questão existencial…não importa. Importa é que uma biografia humana do Universo terá que contemplar essa questão, concorda?

            De longe, será, se “nenhuma bola de efeito” te desviar desse projeto, seu livro mais completo e desafiador. E querendo ou não, você estará criando uma “Escola”. Merecerá meu mais profundo respeito, sem demagogia.

            Mais um abraço, desta sua testemunha desde os tempos das “Pensatas”

          6. Opa, legal saber que você está por aí desde os velhos tempos das Pensatas! Foi uma longa estrada! 🙂
            Então, essa coisa de perder o sentido é, com o perdão do trocadilho, relativa. Se, como Einstein já disse, o tempo é uma “ilusão persistente”, tanto faz se deixarmos de existir e com ele nossa explicação do Universo. No espaço-tempo, ela sempre existe, porque o tempo é tão somente mais uma dimensão. O espaço-tempo torna tudo atemporal, em certo sentido.
            Outro aspecto interessante é que, de novo, pensando no tempo, a história que podemos recontar sobre o Universo hoje não se escora somente em nossa capacidade de narrá-la, mas no fato de que ainda vivemos numa época cósmica em que as pistas do passado estão por aí. Mas podemos perfeitamente imaginar uma civilização emergindo um gigalhão de anos no futuro que veria sua galáxia isolada em meio a um fundo completamente escuro, e nenhuma radiação cósmica de fundo detectável para lhes contar que o Universo nasceu num Big Bang.
            Por fim, lembremos que somos capazes, hoje, de construir monumentos que podem sobreviver a nós por bilhões de anos. As Voyagers estão aí, vagando pela Via Láctea, e não me deixam mentir. Quase certamente sobreviverão mais tempo que nossa civilização. E espero que lancemos outras “Voyagers” ainda, maiores e melhores, antes de decretarmos o nosso fim — tornando nossa “pegada” muito mais longeva que nossa própria existência.
            Abraço!

          7. Respondendo ao Eduardo de Castro, que imaginou a possibilidade de um dia não haver nenhum ser inteligente no Universo,”vida (um dia) extinta na Terra, e nenhuma outra inteligência no Universo. Então tudo perde o sentido.”

            Está correto, tudo perde o sentido, pois quem cria um sentido (objetivo) para as coisas somos nós, seres inteligentes. Na verdade, o Universo apenas existe, nós apenas existimos (por enquanto), não há um sentido exterior a nós, apesar do desejo de muitos, que ele exista.

          8. Discordo de você ao mesmo tempo que discordo dele. O fato de termos existido já criou um sentido. E apagar a nossa existência não apaga o sentido, do mesmo modo que a morte de um cientista ou um poeta não apaga a sua obra. Somos parte da história do Universo, e a história do Universo não vai mudar se sumirmos amanhã. O que acho encantador e surpreendente — e o verdadeiro sentido do Universo, por assim dizer — é que o Universo gera criaturas capazes de lhe dar um sentido. Nós somos meramente a bola da vez, e mesmo que sejamos a única bola de todo o jogo, ainda assim o feito não é menos impressionante. O Universo é tão rico que é capaz de gerar seu próprio sentido — através de criaturas como nós. Não é incrível?

          9. Em outras palavras, Salvador, você concordou que somos nós que damos ao Universo um sentido… Concordo com você que esse sentido não se destrói com nossa morte, a morte do indivíduo, não da espécie, porque esse sentido é passado para as gerações seguintes nele trabalharem e até modificarem. A morte da espécie destrói qualquer sentido dado por ela, outra terá que surgir para criá-lo.

          10. Nós damos um sentido ao Universo, mas nós SOMOS o Universo. Você e eu não somos coisas à parte do Universo. Somos apenas arranjos particulares de matéria e energia que são parte integrante do Universo. Então, por um silogismo simples, podemos concluir que o Universo está dando sentido a si mesmo. E dizer que isso é falso é como dizer que não somos nós que damos sentido às coisas, são as sinapses no nosso cérebro. Para todos os efeitos práticos, as sinapses do seu cérebro somos nós, assim como nós somos o Universo — somos a parte pensante, consciente, do Universo. E talvez não a única. Mas mesmo que seja a única, já valeu — somos um Universo que pensa a si mesmo e lhe confere sentido. 🙂

      2. O erro foi todo seu, ao tirar essa falsa conclusão de que o tamanho do Universo era apenas prova de nossa insignificância. 😛

    2. Eu agradeço, Osame. É um assunto muito interessante, e tenho prazer em travar discussões como esta que estamos tendo.

      Tenho essa preocupação de não gerar antagonismo entre ciência e religião. Até porque considero um falso antagonismo. Disse isso com todas as letras no post que fiz sobre evolução.

      “Este é um assunto dos mais controversos: a origem das espécies, desde as bactérias mais simples até os orgulhosos seres humanos. A razão básica da confusão é que algumas pessoas querem fazer crer que existe um conflito intrínseco entre a teoria da evolução pela seleção natural e as religiões. É mentira.

      “A ciência, aliás, não é inimiga da religião. As duas são naturalmente complementares, e existe beleza no equilíbrio — admirá-las igualmente pelo que são, tentativas de contextualizar a existência humana respectivamente nos níveis natural e espiritual.

      “Uma diferença importante entre elas é que a ciência, por sua própria natureza, se propõe a estabelecer (tanto quanto possível) fatos objetivos. Já a religião fala de “verdades” pessoais. Por isso cada um de nós pode ter suas próprias crenças, mas temos todos em comum uma única ciência. E também é por isso que neste texto, daqui em diante, vamos discutir apenas ciência.”

      (Aqui o post completo: http://mensageirosideral.blogfolha.uol.com.br/2014/05/26/cinco-provas-da-evolucao-das-especies/)

        1. Essa é uma pergunta complicada. Podem ser ou não.
          O Hubble, como todo telescópio profissional de ponta, tem diversos filtros. Ele tem filtros de cor real e amplo espectro, que se aproximam do azul, verde e vermelho que enxergamos, e ele tem filtros especiais, de espectro estreito, focados em detectar fenômenos específicos. Esses filtros vão do infravermelho até o ultravioleta, embora se concentrem na luz visível. Então a maior parte do que vemos nas imagens do Hubble é, em princípio, luz que enxergaríamos.
          Contudo, dependendo da composição de filtros (e da intenção da composição), a imagem resultante pode estar mais próxima ou mais distante do que veríamos com os próprios olhos.
          Veja o que diz um documento do STScI sobre isto:
          “In some cases, the resulting images may be relatively close to a visually accurate rendering of the target, provided the filter/detector response matches the human visual system model, and taking into account the enhancement afforded by optics and detectors. In most cases, the rendering is a visualization of phenomena outside the limits of human perception of brightness and wavelength. Nevertheless, the goal in producing presentation images remains to stay honest to the data, and to avoid misleading the viewer, but also to produce an aesthetically pleasing image.”
          Ou seja, as imagens são REAIS. Mostram coisas que estão lá. Não é arte de Photoshop. A única diferença é que o Hubble enxerga melhor que a gente, e em muitos casos a imagem traduz em cores que podemos ver algumas cores reais do Universo que não podemos ver. É interessante notar que existe todo um esforço de equilibrar estética, realidade e ciência. Por exemplo: se estamos vendo um filtro específico, de banda estreita, mas que está perto do azul, ele será representado em azul na imagem final, e não, digamos, em vermelho.
          Da mesma maneira, se as imagens incorporam ultravioleta e infravermelho, o ultravioleta vai ser violeta, e o infravermelho vai ser vermelho. E por isso vemos estrelas azuis azuis e estrelas vermelhas vermelhas nas imagens do Hubble.
          A “realidade” das cores fica mais evidente ainda quando o Hubble é usado para ciência planetária. Quando você vê uma foto de Marte feita pelo Hubble, pode constatar que a cor é bem aproximada daquela que você veria com os próprios olhos.
          De novo, como no outro caso, o grande lance da ciência é que você precisa explicar. Claro, se você resume a ópera com “é tudo cor falsa, é tudo de mentira”, você não está fazendo um favor à ciência. Mas se você resume a ópera como “é tudo verdade, as cores aproximam o que veríamos com os próprios olhos, mas ao mesmo tempo permitem aos astrônomos enxergar coisas que estão lá, mas nossos limitados sentidos não podem ver”, a coisa fica muito mais bonita e poética.
          Veja como, a exemplo do seus comentários anteriores, apresentar a ciência não significa diminuir o ser humano. Você pode ver o copo meio vazio e pensar, “poxa, o Hubble me mostra que meus olhos, longe de ser aquela maravilha divina, são uma porcaria bem limitada, comparada ao espectro eletromagnético total”. Ou você pode ver o copo meio cheio e pensar, “poxa, a ciência, uma invenção humana, criada pelo cérebro humano, permite que a gente construa olhos melhores que o nosso, como o Hubble, e enxergue em sua plenitude a beleza do Universo, e isso é uma coisa incrível, algo que já justifica a existência humana como algo que vale a pena no Universo”.

  5. O domo duo-hexa (coroa solar),
    entrou variou entre estado de ressonancia sincrona e assincrona com a explosao da supernova.
    uma enquanto a estrela explodia ele (domo)implodia e vice versa.
    Provavel que tenha hora ejetado ora se alimentado de grandes corpos celestes e planetas em teu sistema e cinturoes ao redor antes do domo duo-hexa entrar em colapso.

  6. ah claro a ciência diz que a tal supernova não poderia estar brilhando mas ela está. E a ciência está correta quem está errado eh Deus.

    sabem tudo sobre terra em forma de bolinha e homem na lua. Quero ver eh no dia do Juízo. Aí vem chorar….

    1. Você realmente curte esse terrorismo religioso?

      A supernova não poderia estar brilhando, mas está, porque não entendemos completamente supernovas. Mas é justamente essa observação, e outras como ela, que nos permitirão entender mais e melhor.

      E nunca vi nenhum cientista dizer que Deus está errado. Você já viu? Referência, por favor.

    1. Isso prova que sempre há algo novo a aprender. E é para isso que existem cientistas. Se não houvesse coisas novas a aprender, para que serviriam cientistas?

  7. Obrigado pela matéria, Salvador. Interessante ver a foto de 1954 mostrando a explosão, realmente o acúmulo de conhecimento é a base de tudo.
    E a imagem do topo é arte? Tem umas fotos do Hubble bem parecidas, fiquei na dúvida. Se bem que nessa imagem a nuvem está muito definida.
    Se (ou quando, e se houver humanos por aqui rs) Betelguese explodisse, poderíamos ver uma imagem como essa com um telescópio caseiro? Ou binóculo?

    1. É arte. E, no caso de Betelgeuse, poderíamos ver, mas ia demorar um pouco, até a nuvem expandir desse jeito. Podemos ver algo assim nas supernovas de 1572 e 1604. 😉

    1. Se for aquele papo da Bíblia, achei sem pé nem cabeça. Basta ler o texto bíblico para ver que o dia teve uma duração maior, o que é totalmente incompatível com um eclipse solar (e totalmente compatível com uma lenda maluca). rs

      Cliquei. É aquele papo da Bíblia. Eu não me fiaria nessa interpretação doida aí.

      1. Salvador. é um artigo acadêmico. Os autores mostram que a tradução usual do fenômeno (dia com duração maior etc) está errada. Uma tradução melhor seria “o sol deixou de fazer o que sempre faz”, ou seja, brilhar. As mesma palavras são usadas em línguas próximas do hebraico para denotar eclipses. Ou seja, escondido na lenda de Josué, existe vestígios literários de uma observação de eclipse. Poderia ser numa lenda chinesa, entende? Não é por que está na Biblia que TEM QUE ESTAR ERRADO! Sejamos mais acadêmicos… menos ateus ideológicos. A coisa importante é que,
        se for verdade, essa eclipse é a mais antiga registrada pela humanidade e permite nova datação das dinastias egípcias… Algo bem legal!

        1. A revista Astronomy & Geophysics da Oxford Academics tem peer review rigoroso etc. Não é forum para fundamentalistas bíblicos, mas sim para astrônomos profissionais. Não deixe que seus preconceitos religiosos interfiram com sua avaliação imparcial como jornalista cientifico, please…

        2. Osame, não é ateísmo ideológico, nem de qualquer outro tipo. Nem ateu eu sou, para começo de conversa. E, pessoalmente, nada contra esse tipo de trabalho que busca encontrar evidências históricas ou mesmo astronômicas de narrativas de textos religiosos antigos. É como as interpretações que se tenta dar à Estrela de Belém, emparelhando com fenômenos astronômicos (talvez o Halley, talvez uma conjunção particularmente brilhante de planetas), numa tentativa de datar os eventos do Novo Testamento, em particular a época do nascimento de Jesus. É interessante, divertido. Mas em geral nunca chega a alguma conclusão sólida. Esse, em particular, também não chega. Até mesmo o artigo ressalta que seria uma “possível” explicação. Muitas coisas são possíveis. É igualmente possível, senão mais, que eles estejam viajando na maionese.

          Veja, seria muito fácil para mim escrever meia dúzia de parágrafos a respeito — um baita clickbait. Imagine só na home do UOL: “Texto bíblico pode conter descrição mais antiga de um eclipse”. Ia dar audiência até não chegar mais. E o título estaria totalmente correto. Como também estaria correto “Texto bíblico provavelmente não contém descrição mais antiga de um eclipse”. Mas esse não ia dar cliques. Serve, contudo, para explicar por que optei por não abordar essa história. A chance de estar errado provavelmente é maior do que a de estar certo, e não há nenhum método independente para verificar qual é o caso. É um beco sem saída.

          Não vou me comover toda vez que alguém diz ter uma nova interpretação de um texto religioso, baseada numa nova tradução, que TALVEZ possa se referir a um eclipse solar que ajude a datar as dinastias egípcias. É tudo muito, muito, muito na base do talvez. E sem o nível de rigor que eu pessoalmente julgo saudável.

          O artigo é acadêmico? OK, é. Mas tem toneladas de lixo sendo publicadas em journals todos os dias. Ser acadêmico não é garantia de qualidade. Você sabe que artigos publicados por aí nem sempre têm mérito, apesar de às vezes figurarem até em periódicos respeitosos. Esse em particular está num journal cujo fator de impacto é um terço do “Brazilian Journal of Physics”, para te dar uma ideia. Por que ele foi publicado num periódico tão obscuro, sendo um tema tão interessante? Já soa aí um alerta para o repórter de ciência mais cauteloso.

          Ademais, o trabalho, como baseado numa interpretação do texto bíblico (mais do que nos aspectos astronômicos, que são bem conhecidos), parece-me que cairia melhor sendo submetido a um journal de arqueologia ou linguística, onde o lado mais controverso de suas afirmações poderia ser pesado adequadamente. Imagine o que reviewers astrônomos e geólogos teriam a dizer sobre uma interpretação alternativa de um texto escrito em hebraico ou aramaico. Não muito, eu suponho. Então, o peer-review aí, na melhor das hipóteses, foi inócuo. Na pior, suspiciosamente conivente.

          Por fim, como o que aqui se interpreta como uma descrição de um eclipse, mesmo com essa nova interpretação textual, em nada se parece de fato com um eclipse, dizer que esta é a primeira descrição de um eclipse é meio como dizer que Jesus andando sobre o mar da Galileia é o primeiro texto a versar sobre a tensão superficial da água. Forçar um pouco a amizade, se é que você me entende.

          Então, por favor, compreenda que isso não tem nada a ver com ateísmo ou qualquer aversão a religião ou a textos de cunho religioso. Tem a ver com o fato de que este trabalho em particular, apesar de curioso, não me convenceu minimamente. Vi publicado em algum lugar e fui ler avidamente. Ao ler, o detector de bullshit apitou forte aqui, fazer o quê?

          Claro, não sou eu que julgo o mérito de trabalhos acadêmicos. Eu só julgo o mérito de trabalhos que escolho para divulgar neste espaço. Foi o que fiz. 😉

          Abraço!

          1. Ainda sobre este tema, curioso, fui ver como outros veículos estão dando títulos à história. Se eu fosse um praticante do ateísmo ideológico, como você sugere, não teria perdido a oportunidade de abordar a história com um título similar ao do Science Alert: ‘A Biblical “Miracle” Could Be One of the First Documented Solar Eclipses’
            http://www.sciencealert.com/ancient-biblical-miracle-solar-eclipse-near-east-1207-bce

            E veja o “could be”. Poderia perfeitamente ser “could not be”. 😛

          2. Eu já tinha lido essa matéria antes. Achei bem interessante. Para mim que sou leigo, ler um texto dizendo que, a partir de cálculos, um eclipse anular poderia ser visto naquela região por volta de 1200 AC é até mais aceitável do que a datação do próprio universo tendo 13,7 bilhoes de anos, datação esta que nos últimos 17 anos já mudou umas 3x pelo menos.
            Eu leio por gostar dos temas, mas nem tudo eu acredito.

          3. Veja, não é que um eclipse anular poderia ter sido visto naquela região. Ele certamente FOI visto naquela região. Com nosso conhecimento atual de astronomia, podemos afirmar com absoluta confiança — e você tem razão, com mais confiança do que a que temos da idade do Universo — que um eclipse anular aconteceu naquela região na data mencionada e certamente foi visto por muitas pessoas.

            O que não podemos afirmar é que com certeza aquela passagem bíblica que diz que o Sol e a Lua pararam na verdade quer dizer que o Sol e a Lua pararam de ter seu comportamento habitual, e que o fato de que o texto menciona posições diferentes para o Sol e a Lua deve ser ignorado, e que a passagem que fala que o dia teve uma duração maior deve ser atribuído a um efeito psicológico da observação do eclipse. Veja a ginástica feita para encaixar o texto bíblico num eclipse.

            Esse é todo o problema.

          4. Ora, ora, é o roto falando do rasgado. O que mais se vê nas matérias deste blog são as palavras ‘talvez, ‘pode ser’, ‘é provável que’, ‘ainda não sabemos’, ‘precisamos enviar novas sondas’, etc, etc. Dá até para fazer uma cartela e ver em quanto tempo se faz o bingo.kkkkkkkkkk!!!!

          5. Você não entendeu a crítica. Eu me oponho a “pode ser” que não ofereça formas de confirmar ou refutar. A ciência é essencialmente isto: o cientista diz “pode ser tal coisa”, acompanhado por “podemos testar de tal maneira”. O teste é feito, a ideia sobrevive ou naufraga, e aí passará por novos testes. Ideias que sobrevivem a incontáveis testes e que nos permitem prever coisas antecipadamente são chamadas de teorias. Então, quando os fundamentalistas religiosos falam “é só uma teoria”, eles estão dizendo na verdade “é só uma ideia tão poderosamente verdadeira que é capaz de prever resultados no mundo real antes mesmo que eles aconteçam”.

            Então veja: a ciência evolui pelo método do “pode ser isso ou aquilo, podemos testar assim ou assado”. Sou totalmente a favor disso. Mas me oponho a “pode ser isso, pode não ser, e não há meio de testar”. Aí, muito obrigado, a ideia é tão boa quanto qualquer outra, porque não se submete ao crivo de um teste objetivo e independente.

            Entendeu?

        3. Aproveito essa pequena polêmica para lembrar que o blogueiro, com certa frequência, despreza e ridiculariza a Religião. Portanto, não se enganem com o longo e educado comentário das 10:28. Ele esconde um ateísta contumaz, um seguidor fanático de Richard Dawkins.

          1. Eu já critiquei incontáveis vezes o ateísmo fanático de Dawkins. Não acho justificável. (Embora ache compreensível, dado o fato de que os religioso é que sempre buscam se contrapor aos cientistas, e não o inverso; nunca vi um cientista entrando numa igreja para dizer o que ele acha do sermão do padre. O fato de os religiosos muitas vezes não respeitarem as fronteiras faz com que alguns cientistas partam para a ofensiva, como é o caso de Dawkins. É errado, mas compreensível.)

            Também já declarei incontáveis vezes que não sou ateu. Disse e repito: acho que a única postura filosoficamente aceitável é o agnosticismo.

            Eu não ridicularizo a religião. Jamais. Faço objeção à interpretação tapada e literal de textos religiosos, porque ela contraria verdades objetivas demonstradas. Fora isso, cada um acredita no que quiser, e nunca defendi nada diferente.

    1. Não. A distância é grande demais, o objeto “some” depois que para de brilhar explosivamente. Que é o que este já deveria ter feito, se seguisse o padrão geral de supernovas.
      Só podemos estudar o que “resta” para supernovas próximas, na Via Láctea ou no limite em galáxias vizinhas próximas. As supernovas de 1572 e 1604, por exemplo, que detonaram na Via Láctea, nós vemos até hoje a nuvem remanescente.

        1. Bom, os números dão a dica. 1572 e 1604. A primeira foi bem observada por Tycho Brahe, a segunda por Kepler. 🙂

          1. Opa!

            Salvador, na verdade eu perguntei QUANTO e não QUANDO…. eu me referia à magnitude aparente do brilho delas no nosso céu!

          2. Tá me sacaneando né? rsrs. Perguntei a intensidade do brilho APARENTE para nós da Terra dessas supernovas de 1572 e 1604. Qual foi a magnitude aparente do brilho dessas supernovas para o observador terráqueo.

            Obrigado.

          3. Ah, não existia ainda a escala de magnitude, nem quem medisse isso. Como nenhuma delas foi visível de dia, podemos supor que tinham magnitude inferior à de Vênus. Uma supernova que detonou no céu em 1054, registrada por árabes e chineses, ficou visível durante o dia por 23 dias, e deve ter tido uma magnitude 4 vezes maior que a de Vênus. Vênus tem magnitude -5. Essa supernova de 1054 deve ter chegado a -6 e quase a -7.

  8. Salvador,

    Só especulando, não seria o caso de estarmos diante de um sistema duplo de estrelas, uma muito próximas uma da outra? Só que uma das estrelas já morreu e a outra agora está ejetando a sua massa coronal, a exemplo da Eta Carinae?

  9. Salvador, faz sentido dizer que, se a Terra fosse plana, aqueles que vivessem nas bordas sofreriam mais com a gravidade os puxando pro centro? 😛

    1. Sim. E seriam puxados na diagonal, como se estivessem numa ladeira cada vez mais terrível, conformem caminhassem na direção da borda. Na bordinha, seria praticamente como escalar uma parede.

  10. Seria possível que a supernova de 1954 e a de 2014 não fossem a mesma, mas sim outra na mesma direção? Afinal, é uma galáxia distante, ambas podem estar BEM longe e ainda assim nos aparecerem no mesmo ponto no céu.

    1. Poder, pode. Mas como essa supernova já explodiu aí umas cinco vezes em 600 dias e uma supernova dessas a cada 50 anos seria uma taxa um pouco acelerada demais para uma galáxia dessas, e a explosão se deu exatamente no mesmo ponto da galáxia (que pode ser vista como uma mancha difusa na foto), é imensamente mais provável que seja a mesma. Agora, se não for, também não faz grande diferença, uma vez que a análise do evento em si é baseada nos espectros colhidos de setembro de 2014 em diante, e é essa parte do fenômeno que é bizarra. A detecção anterior só é auspiciosa porque se espera que estrelas de altíssima massa tenham mesmo esses soluços décadas antes de sua detonação final.

    1. Ou um Kim Jong-un extragalático cumprindo suas ameaças de explodir bombas de quarks… 😀

  11. Uma estrela orbitando, e antes de ser absorvida por um buraco negro, não poderia aumentar de brilho devido à energia das forças de maré? E próximo ao horizonte de eventos, o tempo de colapso poderia ser longo para um observador externo, embora fosse bem mais curto no referencial da estrela. É verdade que nesse caso deveria haver um aumento progressivo no comprimento de onda observado.

    1. Sem contar que o espaço próximo ao horizonte de eventos também é maior – intrissico ao tempo – o que pode aumentar o brilho do astro consideravelmente.

  12. Bem interessante ao demonstrar um comportamento fora dos padrões previsto, pelos aspectos da estrela ela parece ter muita atração para se manter coesa apesar de tantas explosões, estava lendo que ela pode ter um fim definitivo em uma grande explosão e que este tipo de comportamento que ela demonstra seria de estrelas que não deveriam ser desta época, e sim do pós big bang. Acredito que ainda ela irá nos mostrar muita coisa interessante a respeito de seu comportamento incomum.

  13. Parece que algo anda mal em relação a aferição de alguns fenômenos do universo. Aqui é mais uma exceção à regra. O MS tem noticiado esporadicamente mais desvios deste tipo sobre outros assuntos. A própria estrela Matusalém, HD 140283, que está localizada aqui pertinho (190 anos luz) aparenta ter 14,5 bilhões de anos, mais antiga que o universo que teria 13,8 bilhões de anos. Não vejo isto como um mistério, mas sim como uma certa afobação em divulgar teorias visando autopromoção para prêmios e menções que virão em seguida. Acho que a associação de astrônomos deveria alterar o critério de avaliação e criar um 6 sigmas para para publicação da notícias com mais segurança.

    1. Eu acho justamente o contrário, é o público que precisa aprender que a ciência é um eterno “work in progress”, e não os cientistas pararem de expor seus resultados para o escrutínio do resto da comunidade, pois é essa atitude que permite identificar erros mais rapidamente e fazer progressos. Um sistema de 5-sigma faz sentido para descobertas baseadas em estatística. Não é o caso da maioria dos achados astronômicos.

  14. E se a estrela em questão é uma múltipla, sendo que as componentes dela orbitam próximas e cada uma explodiu nos anos citados?

      1. refreamento da expansão do material nos cosmos por um violento buraco negro ao qual orbitava a estrela não seria uma hipótese desse delay luminoso? quanto os pulsos, explosões sequenciais, a hipótese de realimentação por fusão do cadáver estelar com objetos de grande massa em sua órbita, tudo girando violentamente pelo buraco negro não seria uma ideia?

        1. Gosto da ideia. Acho uma boa hipótese. Só não acho certo chamar um bn de cadáver estelar. No ver seria o contrário, embriões estelares.

        1. Difícil dizer. Há alguns modelos em que a detonação de uma levaria à detonação precoce da outra… depende do nível de simetria da detonação… essas coisas não são simples de modelar.

    1. Mas se um buraco negro vier em nossa direção disparamos uns mísseis nucleares para destruí-lo por implosão.
      Ou esperamos que ele nos engula e saímos num Universo paralelo em que o Palmeiras tem Mundial…

      Mas acho a primeira hipótese mais plausível…

      1. Vi um documentário do Discovery Channel (ou foi do History Channel?) que falava um pouco sobre isso. Se um buraco negro se aproximar demais do nosso sistema solar várias coisas poderão ocorrer, todas ruins.

        Se me lembro mais ou menos, vários asteroides e cometas da nuvem de Orth serão atirados para dentro do sistema solar interno e muitos deles atingirão a Terra, depois a própria Terra sairá da sua órbita habitual em razão da influência gravitacional do buraco negro e iremos para longe do Sol, o que restar do nosso mundo congelará.

        Se chegarmos perto do horizonte de eventos do buraco negro, as forças de maré irão despedaçar o nosso mundo.

        1. Uma vez eu usei um simulador de interação gravitacional e fiz algo desse tipo. Lembro que usei um modelo do sistema solar, deixei o tempo bem acelerado (para ficar bem claro o movimento dos planetas). Criei um objeto com 30 massas solares e compactei bastante simulando um buraco negro. Coloquei ele em rota de colisão com o Sol cruzando o plano orbital dos planetas. O resultado foi uma doideira só. Não lembro todos os detalhes, mas todos os planetas mudaram de órbita. Teve um ou dois que foram engolidos, acho q Venus foi jogado para longe. O mais interessante que o BN e o Sol não colidiram, ficaram orbitando um ao outro bem pertinho e os planetas com orbitas malucas em volta. Não deu para ver o resultado final de tudo isso, mas o sistema aparentava ser instavel, talvez no final alguns planetas seriam ejetados para fora, o restante colididos ou engolidos, e o Sol fundido ao BN.
          Seja com for um BN faz um estrago e tanto rsrsr.

          Obs: vou tentar achar qual aplicativo usei e postar aqui.

          1. Estas órbitas vão depender das posições iniciais dos planetas quando o buraco negro estiver se aproximando, qualquer coisa pode acontecer e qualquer planeta pode ser engolido ou ser ejetado e certamente um ou outro pode ficar orbitando ambos os corpos centrais mais massivos se suas órbitas iniciais estiverem afastadas o suficiente para não sofrer muita influência do buraco.

          2. Usei o aplicativo “Universe Sandbox”, que por sinal, é bem legal.

            Sim Geraldo, vc tem razão. Cada simulação o resultado é diferente. Mas invariavelmente o sistema solar fica todo bagunçado.

            Fiz uma outra interessante, transformei Júpiter em um BN… o resultado foi outra doideira rsrsr

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