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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Objeto interestelar é diferente de tudo que já se viu no Sistema Solar, diz estudo

Por Salvador Nogueira

Os grandes telescópios finalmente entraram na onda do estudo do ‘Oumuamua, o primeiro objeto interestelar a ser detectado numa passagem por nossas redondezas. Um estudo submetido à revista “Nature” e publicado em apenas 20 dias revelou que esse objeto é diferente de tudo que já se viu no Sistema Solar — extremamente alongado.

Recapitulando: o astro foi descoberto em 19 de outubro pelo telescópio Pan-STARRS, no Havaí, que se dedica à busca de bólidos espaciais próximos à Terra. Ao determinar a trajetória do astro, então provisoriamente conhecido pela sigla C/2017 U1, constatou-se que ela era fortemente hiperbólica, o que equivale a dizer que ele vinha de fora do Sistema Solar.

Também determinou-se que o astro não tinha traços de cometa, como originalmente se suspeitou, o que fez a União Astronômica Internacional trocar C/2017 U1 por A/2017 U1 (C de cometa, A de asteroide). Por fim, a “Fifa da astronomia” decidiu criar uma nova classificação para objetos desse tipo, marcada pela letra I, de interestelar, e o astro passou a ser oficialmente 1I/’Oumuamua. (O nome é baseado na língua nativa dos havaianos e quer dizer algo como “o primeiro a ir além”.)

Diversos estudos preliminares do astro começaram a pulular, mas ainda faltavam os resultados mais esperados — obtidos pelos grandes telescópios, como o CFHT (Canada-France-Hawaii Telescope), no Havaí, e o VLT (Very Large Telescope) e o Gemini Sul, ambos no Chile. Pois bem, agora eles chegaram.

Imagem do ‘Oumuamua captada pelo VLT e por outros telescópios. (Crédito: ESO)

Combinando observações feitas em 22 de outubro pelo CFHT, seguidas por observações entre os dias 25 e 27, no VLT e no Gemini Sul, foi possível constatar que o astro varia de brilho de forma consistente e periódica, com uma variação por um fator 10, o que indica que seu formato é altamente assimétrico — mais como um charuto, dez vezes mais longo do que largo.

As dimensões são incertas, mas os astrônomos estimam algo em torno de 400 metros para o comprimento e bem menos para a largura. Embora asteroides e cometas tenham formas bem assimétricas, nenhum objeto assim, tão desproporcional, já foi visto no Sistema Solar antes.

As observações também puderam determinar que o período de rotação dele é de 7,3 horas. “Também descobrimos que tem uma cor avermelhada escura, similar à de objetos no Sistema Solar exterior, e confirmamos que ele é completamente inerte, sem o menor sinal de poeira ao redor dele”, diz Karen Meech, do Instituto para Astronomia, da Universidade do Havaí, primeira autora do estudo.

É um conjunto de propriedades bastante intrigantes que sugerem uma composição rochosa ou metálica, mas sem a presença de material volátil (gelos). Especula-se que ele tenha ganho sua cor escurecida e avermelhada pelo tempo presumivelmente longo a que ficou exposto no espaço interestelar antes de chegar ao Sistema Solar, medido provavelmente em pelo menos alguns milhões de anos.

Diagrama mostra a viagem do ‘Oumuamua pelo nosso Sistema Solar (Crédito: ESO)

A origem do astro continua incerta. Ele veio da direção da constelação de Lira e agora viaja novamente para fora do Sistema Solar rumo à constelação de Hércules. Quando entrou, sua velocidade era similar à de sistemas estelares vizinhos na nossa faixa da Via Láctea, mas sua passagem por aqui e a interação gravitacional com o Sol alterou sua velocidade e trajetória de saída de forma significativa. Por esse padrão, presume-se que essa deve ter sido sua primeira passagem pela região interna de outro sistema planetário, após a ejeção de seu local de origem.

BÔNUS: UMA ENTREVISTA COM KAREN MEECH
Primeira autora do novo artigo sobre o ‘Oumuamua, a pesquisadora Karen Meech, do Instituto para Astronomia da Universidade do Havaí, respondeu a algumas perguntas do Mensageiro Sideral sobre esse estranho vagabundo interestelar. Confira aí.

Mensageiro Sideral – É muito intrigante que o objeto tenha uma forma tão incomum. Temos alguma ideia de como um objeto desses, tão alongado, poderia se formar naturalmente? Indo além, podemos descartar a hipótese de que seja artificial?

Karen Meech – Nós não sabemos como algo tão alongado assim possa ter se formado, mas muitos em nossa equipe, e estou certa de que outros, estão animados em explorar possibilidades. Coisas que são muito alongadas poderiam ser objetos binários de contato, mas algo assim não poderia permanecer grudado rotacionando tão depressa, e cada parte teria de ser muito alongada. Outros imaginara se poderia ter haviado uma colisão entre corpos num sistema solar jovem que teria moldado esse objeto, mas neste caso se esperaria o mesmo tipo de processo tenha operado em nosso sistema solar. Outros na equipe se perguntam se pode ter havido algum processo quando esse objeto foi ejetado de seu sistema solar, como uma explosão de supernova, que poderia tê-lo moldado. Podemos bolar teorias, mas talvez nunca saibamos, porque já temos agora a maior parte dos dados que colheremos deste objeto — ele está se afastando depressa e ficando tão pouco brilhante que apenas os maiores telescópios podem enxergar alguma coisa neste momento.

Este objeto é inteiramente consistente com a ideia de que seja um objeto natural; as cores (refletividade versus comprimento de onda) são consistentes com muitas coisas em nosso Sistema Solar, a taxa de rotação é similar à de coisas em nosso Sistema Solar, e a rota que ele está fazendo pelo Sistema Solar é consistente com a de um objeto natural. Tendo dito isso, não temos dados suficientes para provar que não é artificial, mas um objeto natural é o mais provável.

Mensageiro Sideral – E quanto à densidade, há algo que podemos dizer a respeito? Suponho que seja difícil, considerando que ele não está numa órbita kepleriana, mas vi no artigo científico vocês apresentarem algumas hipóteses sobre a densidade. Ele parece típico por esse aspecto?

Meech – A equipe trabalhou duro para tentar estimar sua densidade — em particular Olivier Hainaut e Jan Kleyna. Eles concluem que ele precisa ou ter alguma força, ou ter uma densidade maior que 1.500 kg/m^3 (1,5 a do gelo de água), ou seja, não é incomum comparado a outros objetos do Sistema Solar. Mas ele pode ter densidade maior.

Mensageiro Sideral – Sendo esse um objeto tão estranho, não deveríamos tentar “manter contato” com ele, fazendo tantas observações quantas pudermos e talvez até tentar enviar uma sonda para alcançá-lo?

Meech – Este objeto está perdendo brilho rápido, agora seu brilho médio é de cerca de 25,7 magnitudes (o que significa que, no brilho máximo, ele está com cerca de 24,5) e isso requer um telescópio muito grande. Então não há muito agora que possamos fazer cientificamente com ele — até mesmo fazer qualquer detecção dele exige um telescópio muito grande.

Mensageiro Sideral – Você acha que podemos obter dados suficientes para dizer de onde ele veio com alguma medida de certeza?

Meech – Esperamos obter mais algumas medições de posições antes do fim do ano para fazer exatamente isso!

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