Mensageiro Sideral

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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O fim do Ison e o início da aventura humana

Por Salvador Nogueira

O cometa Ison passou pelo Sol e, ao que tudo indica, não sobreviveu. Todo mundo já sabia que isso podia acontecer, mas também é impossível não se sentir um pouco frustrado. Por suas propriedades intrínsecas (diâmetro estimado) e orbitais (primeira passagem por dentro do sistema, trajetória que o levaria bem perto do astro-rei), esperava-se que o objeto pudesse vir a se tornar um espetáculo no céu noturno (quiçá diurno). Ele chegou a ser proclamado “cometa do século”, mesmo tendo se passado apenas 13 anos do século 21.

Ilustração do cometa Ison feita por crianças de South Bend, divulgada pela Nasa

O fato de que o Ison não viveu para contar essa história, após passar a meros 1,2 milhão de km da superfície solar, desanima mesmo, admito. Mas só se pensarmos que o grande fenômeno era realmente o Ison. Daqui, do seu cantinho no terceiro planeta ao redor do Sol, o Mensageiro Sideral viu outra coisa: muitas pessoas acompanhando freneticamente imagens vindas do espaço em rápida sucessão e torcendo para que um velho pedregulho de gelo e rocha sobrevivesse a um fervente encontro com nossa estrela-mãe. Agora, essas mesmas pessoas estão chateadas por ele não ter resistido, como fosse um herói caído. Um minuto de silêncio pela “morte” do Ison.

Antropomorfizar objetos — ou seja, tratar estruturas inanimadas como se fossem pessoas — é algo que o ser humano intrinsecamente faz. Nossa mente parece estar programada para interpretar tudo ao nosso redor como se fosse vivo. Até aí, nada de novo. O que acho incrível é que vivemos numa era em que podemos “torcer” por astros celestes, em escala global. Pessoas de todos os continentes estavam ligadas a computadores, celulares e tablets para acompanhar o periélio do Ison — o destino de um pedaço de gelo e pedra vulgar que calhou de passar perto do Sol. Isso mostra uma comunhão entre o celeste e o terrestre que eu nunca havia visto antes. Será que esse é um dos sintomas de que estamos nos transformando numa civilização transplanetária?

Uma das razões pelas quais eu escrevo sobre espaço e astronomia é porque acredito que sim; pouco a pouco, o Sistema Solar está se tornando o quintal da humanidade, e o Universo lá fora começa a nos convidar seriamente para passear.

Aqui na Terra, ainda estamos divididos, cheios de conflitos e problemas, mas o fato de que usamos espaçonaves e cooperação internacional para acompanhar, globalmente, um evento que transcende nossas (em última análise pequenas) diferenças é motivo para nos enchermos de esperança.

O “cometa do século” terá de ficar para a próxima, mas o Ison, com todas as supresas que ele nos reservou ao longo de sua jornada, será estudado por anos a fio, graças ao esforço concentrado de monitoramento da trajetória do objeto em sua viagem por nossas vizinhanças. E deixará a animadora sensação de que, se o cosmos é mesmo recheado de belezas e surpresas, já existe pelo menos uma forma de vida capaz de apreciá-las e reverenciá-las adequadamente.

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