Mensageiro Sideral

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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A última jornada do cometa Ison

Por Salvador Nogueira

Pois é, primeiro ele estava morto. Depois não estava mais. E no final acabou morrendo de novo. Agora já dá para dizer sem medo de errar: o cometa Ison já era. Observações da Nasa e de astrônomos amadores fracassaram até na tentativa de ver a nuvem de destroços resultante da passagem pelas redondezas do Sol.

Recapitulando rapidamente a saga: descobriram o dito cujo em setembro de 2012, e ele tinha um brilho bem bacana para um cometa tão distante. Calcularam a órbita e determinaram que ele vinha das profundezas do Sistema Solar, uma região conhecida como nuvem de Oort, que consiste num cemitério de destroços deixados pela formação dos planetas, 4,7 bilhões de anos atrás. E o mais bacana: pela rota indicada, ele passaria a apenas 1,2 milhão de km da superfície do Sol no dia 28 de novembro de 2013.

Ninguém sabia se ele poderia sobreviver a tamanha proximidade, enfrentando temperaturas próximas de 3.000 graus. Mas imaginava-se que, pelo menos na aproximação, o aumento de brilho, conforme o gelo que existia nele começasse a evaporar, proporcionaria um grande espetáculo. E se o Ison por um acaso sobrevivesse ao encontro, poderia se tornar visível até à luz do dia, o que o tornaria sem dúvida o “cometa do século”.

O grande dia chegou e o mundo inteiro acompanhou, graças a uma flotilha de satélites que monitora o Sol em tempo real, a aventura do pequeno cometa em seu sobrevoo de raspão por nossa estrela-mãe. O Ison entrou de um lado e sumiu de vista. Um dos satélites, o SDO (Solar Dynamics Observatory) foi até deslocado para observar a passagem no ponto cego das outras espaçonaves, mas nada viu. A Nasa decretou a morte do Ison.

Então, eis que do outro lado surge um cometa. Depois de titubear por algumas horas, Karl Battams, coordenador da campanha de observação da Nasa, afirmou que pelo menos uma parte pequena do núcleo do Ison teria sobrevivido. Isso reacendeu a esperança de que ele pudesse voltar a brilhar.

Mas 48h depois, no dia 30, pouco antes de sair do campo de visão dos satélites solares, ele parecia só uma nuvenzinha difusa, sem sinal de núcleo. O Ison era só uma nuvem de poeira e gás.

Ainda assim, havia esperança de ver alguma coisa. A Nasa continuou bancando a ideia de usar o Telescópio Espacial Hubble para identificar o que teria sobrado do cometa, coroando assim uma série de observações sem precedentes da jornada completa de um cometa desse tipo por nossas imediações no Sistema Solar.

Só que eles não sabem nem para onde apontar. Astrônomos amadores têm buscado o Ison e saído de mãos vazias. Isso implica que, se há algo ainda lá fora, teria de ter magnitude superior a +17 (quanto maior o número, menos brilho ele tem). Tentativas de observá-lo feitas com o a IRTF (Instalação de Telescópio Infravermelho da Nasa) fracassaram. Há quem continue observando, mas não há sinal do cometa. Ele já era.

Restará agora, para os próximos anos, o trabalho duro: os cientistas vão analisar todas as informações colhidas para contar com precisão a saga do Ison. Quando ele teria se fragmentado e começado a derreter? Sobrou algo dele? Qual era sua composição exata? Seu tamanho? É pano para a manga, mas numa arena que fica longe dos olhos do público.

Contudo, o Mensageiro Sideral tem a certeza de que restará a todos na Terra que acompanharam esta aventura uma lembrança nostálgica do episódio. O Ison não foi o cometa do século como desejávamos, mas certamente nos ensinou muito sobre os perigos que um pedregulho de gelo enfrenta em sua jornada para as redondezas do Sol. Quando o verdadeiro cometa do século surgir, estaremos bem mais preparados para apreciar sua beleza!

(Obrigado ao leitor Marcelo Falcão que montou o vídeo acima com imagens do satélite Soho.)

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