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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Futebol: mágico ou quântico?

Por Salvador Nogueira

Muita gente se pergunta por que o futebol é um esporte tão fascinante (e, claro, sempre tem quem se pergunta o que faz com que esse monte de gente ache que essa prática tediosa na verdade é fascinante). Então, em ritmo de Copa do Mundo, aqui vai a resposta pessoal e intransferível do Mensageiro Sideral sobre esse grande mistério do desconhecido.

Acho que o futebol é especialmente incrível porque lembra a mecânica quântica.

OK, agora você se perdeu. Mas vamos lá. Começando, lamento dizer, pela mecânica quântica.

Trata-se de uma teoria que explica como o Universo funciona em suas menores escalas — ou seja, em termos de partículas elementares e das forças trocadas entre elas. Para explicar como um elétron se comporta ao redor de um núcleo atômico, muita gente imagina esse cenário microscópico de forma convencional: o elétron giraria ao redor do núcleo como a Terra gira ao redor do Sol. Um átomo, segundo essa visão, seria um sistema solar em miniatura.

De fato, quando os físicos começaram a imaginar como um átomo seria (lá pelo fim do século 19), foi essa a imagem que eles formularam. Mas logo ela se mostrou insatisfatória –nenhum átomo seria estável dessa maneira, e os elétrons, atraídos pelos prótons no interior do núcleo, acabariam sendo arrastados para lá. Ou seja, o modelo tradicional não funcionava.

Uma nova visão começou a ser formulada a partir de 1900, quando o alemão Max Planck criou o conceito do “quantum” — a noção de que a radiação podia ser mais bem compreendida como uma série de pacotes de energia, em vez de uma coisa fluida. Albert Einstein pegou essa idéia e a levou mais adiante, iniciando a “revolução quântica”. Logo, começaram a surgir proposições mais sofisticadas que atribuíam a todas as coisas (vulgo matéria e energia) essa característica quântica.

Isso até chegarmos em 1925, quando o alemão Werner Heisenberg fundou a tal mecânica quântica — que explica o comportamento das partículas segundo esse novo paradigma.

As constatações dele (e de Erwin Schrödinger) foram impressionantes, sobretudo pela falta de bom senso. Segundo Heisenberg, nenhuma partícula existia com certeza num certo lugar ou com uma certa velocidade. Não há um lugar exato em que haja um elétron ao redor de um núcleo. Em vez disso, o elétron pode ser visto como uma onda de probabilidades — ou seja, há locais em que ele tem mais chance de estar, outros que ele tem menos, mas ele não está definitivamente em nenhum desses pontos (ou está em todos, se preferir). A situação só muda quando você o observa: se, num experimento, você tentar detectar um elétron, não há problemas. Só que você nunca conseguirá, com um experimento, descobrir tudo que há para saber sobre uma partícula. Se souber muito bem a posição, saberá muito mal a velocidade. Se souber a velocidade, não terá a posição. E por aí vai. Não é à toa que essa noção ficou conhecida como o Princípio da Incerteza de Heisenberg.

Na prática, o que isso quer dizer? Não, os físicos não ficaram todos malucos. A única coisa que podemos concluir disso é que a realidade quântica funciona com regras diferentes das nossas — lá tudo é probabilidade, e nada é certeza absoluta. Isso, convenhamos, é muito diferente das leis físicas que regem as coisas em escalas maiores. Se uma maçã se desprender de uma árvore, sabemos que ela caíra, por ação da gravidade. Mais: se ainda nos lembrarmos das aulas de física do colégio, saberemos dizer quando exatamente ela caiu, onde, e com que velocidade e aceleração. Todas as informações imagináveis parecem acessíveis, ainda que exijam alguns cálculos.

Há várias interpretações possíveis do que quer dizer essa realidade quântica (há quem fale que não existe nada no mundo, senão informação, e há quem diga que todas as probabilidades na verdade se convertem em realidade, cada uma num universo paralelo diferente), mas a verdade é que ninguém sabe com certeza o que significam esses fenômenos tão estranhos sob a nossa perspectiva “clássica”.

Vamos, portanto, ao que realmente interessa: que diabos isso tem a ver com o futebol?

É minha opinião que o futebol, embora respeite totalmente as regras da física “clássica”, apresenta resultados em formato quântico. Num jogo de basquete ou vôlei, sempre o time que joga melhor vence. Ou seja, trata-se de um jogo mais previsível.

A dificuldade natural de marcar gols, por alguma razão, torna o esporte bretão diferente. A previsibilidade de uma partida de futebol é limitadíssima: mesmo depois de assistirmos ao primeiro tempo inteiro, podemos apenas falar de probabilidades –tal time é favorito, tal time está chegando mais–, mas nunca dizer com certeza quem vai vencer. (A não ser que o jogo termine 4 a 0 no primeiro tempo, e mesmo assim convém ficar com o pé atrás.)

É essa mágica “quântica” o que dá sabor ao futebol, permitindo que, vez por outra, David derrote Golias. É o que motiva os torcedores de Japão, Austrália e Croácia, e apavora (ainda que pouco) os brasileiros.

A despeito de todos os craques (Dani Alves, David Luiz, Neymar e Fred que me perdoem), o Brasil ainda corre o risco de perder. Tomara que não. Mas a natureza do jogo não me incomoda. Ao contrário, me anima: qual é o valor de uma vitória se não há o perigo da derrota?

Boa Copa para todos.

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Texto originalmente publicado em 2006 aqui e adaptado muito suavemente para 2014. A magia do futebol ainda é a mesma.

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