Mensageiro Sideral

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Brasil campeão… em Tau Ceti!

Por Salvador Nogueira

Bem, amigos do Mensageiro! Neste exato momento, a grande vitória do Brasil sobre a Alemanha (o jogo dos jogos!) na final da Copa do Mundo de 2002 está sendo transmitida, ao vivo, para Tau Ceti. É isso mesmo. Se houver uma civilização alienígena num planeta ao redor dessa estrela amarela similar ao Sol, ela pode estar agorinha mesmo vendo a conquista do Penta.

As estrelas mais brilhantes num raio de 50 anos-luz do Sol. Potenciais telespectadores?
As estrelas mais brilhantes num raio de 50 anos-luz do Sol. Potenciais telespectadores da Copa do Mundo?

Essa é uma das coisas engraçadas da discussão sobre se devemos ou não transmitir mensagens a nossos possíveis vizinhos cósmicos. Mesmo sem intenção, já estamos fazendo isso consistentemente nas últimas décadas. A Copa do Mundo, por exemplo, já faz uso de telecomunicações via satélite desde 1966. Quando o sinal é transmitido do ponto de origem (o estádio) até um satélite em órbita, que o retransmite para outro ponto da Terra, é óbvio que parte da transmissão “vaza” para o espaço, viajando à velocidade da luz para outras regiões do cosmos.

De certa forma, isso faz com que todas as Copas desde então estejam acontecendo ao mesmo tempo — mas em sistemas estelares diferentes. O mais próximo desses sistemas é composto por um trio de estrelas chamado de Alfa Centauri. Ele está a 4,3 anos-luz de distância, o que significa dizer que em poucos meses seus potenciais habitantes poderão assistir, em todas as suas emoções, à Copa de 2010, na África do Sul.

Já Sírius, a mais brilhante estrela do céu noturno, está a 8,6 anos-luz. Se houver alguém por lá, eles logo verão o Tetra da Itália em solo alemão, na Copa de 2006. Altair, outra estrela maior que o Sol, a exemplo de Sírius, está a 16,7 anos-luz da Terra, e vai curtir o show de Zidane e cia. sobre a Seleção na Copa de 1998. E o sistema quádruplo de Capella, a 42,2 anos-luz, ainda há de ter vívidas lembranças de Pelé, Tostão, Gérson e Rivellino, que conquistaram o Tri em imagens que chegaram por lá dois anos atrás, tendo partido do sistema Sol em 1970.

UMA VIZINHANÇA CHEIA

É improvável que algum desses sistemas tenha habitantes inteligentes. O maior candidato nesse sentido é justamente Tau Ceti, atual palco do Penta. Suspeita-se que existam pelo menos cinco planetas ao redor dessa estrela, um dos quais similar em porte à Terra e numa órbita que o colocaria na zona habitável, onde a água pode ser mantida em estado líquido na superfície (condição tida pelos cientistas como essencial para a existência de vida como a conhecemos).

Isso, contudo, não é o mais importante. O surreal é que estamos falando de cerca de 2.000 estrelas num raio de 50 anos-luz (praticamente o atual limite das nossas comunicações “copísticas”). A maioria desses astros ainda não foi estudada em detalhes pelos cientistas em busca de possíveis planetas, mas podemos fazer um pequeno exercício estatístico baseados num trabalho feito por Erik Petigura, Andrew Howard e Geoff Marcy, que em 2013 usaram dados do telescópio espacial Kepler para calcular a probabilidade de estrelas similares ao Sol terem planetas parecidos com a Terra na zona habitável de suas estrelas. Eles chegaram à conclusão de que 22% delas têm ao menos um mundo rochoso na região adequada para adquirir uma biosfera.

Sabemos por outros estudos que estrelas similares ao Sol (para os íntimos, as que pertencem aos tipos K e G) correspondem a cerca de 20% das estrelas da Via Láctea. Se nossa região da galáxia for típica, das cerca de 2.000 estrelas num raio de 50 anos-luz, cerca de 400 devem ser parecidas com a nossa. Dessas, uma em cada cinco tem um planeta possivelmente adequado à vida. Portanto, são 80 potenciais mundos habitados — e isso descartando estrelas muito menores que o Sol, as anãs vermelhas, que são bem mais numerosas e talvez também possam suportar biosferas. Aí a conta fura o teto.

Ou seja: não é impossível que exista um grande público não-contabilizado nas transmissões da Copa do Mundo. (Fica a dica para a Fifa, caso ela queira vitaminar ainda mais o preço das cotas para patrocinadores, considerando a exposição aos mercados interestelares.)

ISSO É BOM OU RUIM?

Será que essa é a imagem que queremos transmitir aos nossos vizinhos? Ocorreu-me, após ler o livro da Nasa sobre comunicações interestelares, que um vídeo de uma partida de futebol pode ser uma ótima representação da humanidade. Supondo que os alienígenas consigam decodificar a transmissão e compreender que se trata de um vídeo (o que não deve ser tão difícil, considerando a obviedade de serem as imagens sequenciais), um evento esportivo pode revelar muito sobre nós mesmos sem exigir grande esforço verbal.

Uma das críticas a mensagens já disparadas por cientistas para o espaço é que elas pintam um quadro excessivamente róseo da humanidade, como se nós fôssemos criaturas 100% altruístas em busca de conhecimento e contato pacífico com nossos vizinhos no espaço. Quem já passou uma temporada na Terra sabe que somos bem menos bacanas que isso. A miríade de emoções durante um jogo de bola facilmente revelará nossa natureza. Os alienígenas verão que podemos expressar atitudes bem agressivas (um carrinho violent0, uma briga entre os jogadores) e também sermos solidários (quando um jogador levanta o outro). Verão que somos bastante emotivos e testemunharão a estranha catarse que envolve torcida e participantes durante uma partida de futebol. Entenderão que regras são importantes para nós (afinal, o jogo tem um sentido lógico que pode ser deduzido a partir de seu próprio desenrolar) e saberão um bocado sobre nossa anatomia, nossa capacidade física e sobre as condições ambientais gerais de nosso planeta.

Ocorre-me também que um evento esportivo é uma representação universal do ser humano. Temos capitalistas, comunistas, socialistas, anarquistas, liberais, conservadores, radicais, moderados, religiosos, ateus, fanáticos, terroristas, ladrões, assassinos, e por aí vai. Não conheço ninguém que seja, por definição, contra o esporte. Ele exprime algo sobre nós que está acima de nossas preferências ideológicas da vez. Era popular na Grécia Antiga e continua sendo hoje. Parece falar algo bastante elementar a respeito de nós mesmos. Será que alienígenas também praticam esportes? Seria um universal cultural? Não sabemos. O que dá para dizer é que ele representa bem a própria humanidade.

Minha única dúvida diz respeito à representação sexista do esporte. Homens competem com homens, e mulheres com mulheres, e os alienígenas podem se sentir tentados a pensar que praticamos algum tipo de segregação radical dos gêneros — se é que entenderão a dualidade sexual presente em tantas espécies na Terra. Mas desconfio que seja um preço relativamente pequeno a pagar por uma mensagem que seria, de todo modo, bastante informativa para eles e bem representativa de nossa cultura.

Supondo que realmente uma transmissão esportiva seja o melhor meio de iniciar um contato com outra civilização, isso quer dizer que não precisamos fazer nada? Afinal, já estamos emitindo nossos jogos para o espaço há décadas. Bem, não é bem assim. Nossas comunicações via satélites têm baixa potência para atravessar o espaço interestelar, o que significa que alienígenas a fim de captá-las teriam de ter radiotelescópios monstruosos — muito maiores e melhores que os que temos por aqui. Além disso, elas são codificadas para otimizar seu uso na Terra. Não foram projetadas para ser facilmente “lidas” por uma sociedade alienígena que não saiba nada, a priori, sobre nós.

No momento, assistir aos jogos da Copa em Tau Ceti dá um trabalho danado. Mesmo que exista uma civilização tecnológica lá, ela provavelmente tem se limitado à programação local.

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