Mensageiro Sideral

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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Sem amostra de solo para o Philae

Por Salvador Nogueira

Qual notícia você quer primeiro, a boa ou a má? A má é que aparentemente a perfuratriz do módulo de pouso Philae não conseguiu colher uma amostra do cometa Churyumov-Gerasimento para ser analisada por seu laboratório interno. A boa é que, mesmo assim, a sonda encontrou a matéria-prima da vida — moléculas orgânicas — na poeira fina do objeto. Elas foram detectadas por um dos instrumentos da sonda, mas os cientistas ainda precisam analisar os resultados para saber quais são elas.

Concepção artística do Philae descendo no terreno acidentado do cometa Churyumov-Gerasimenko.
Concepção artística do Philae descendo no terreno acidentado do cometa Churyumov-Gerasimenko.

Por enquanto, o achado não é tratado como evidência concreta de que os cometas ajudaram a semear os compostos essenciais à vida em planetas como a Terra. É apenas uma confirmação de que há compostos orgânicos em cometas, algo que já havia sido observado por outras sondas e por análises telescópicas.

O melhor ainda está por vir, quando esses dados forem analisados e indicarem especificamente que substâncias provavelmente existem em maior quantidade no cometa. Um dos instrumentos responsáveis por isso é o COSAC, instalado no interior do Philae.

Ele tinha dois modos de operação. Num, que os cientistas chamam de “modo farejador” (“sniff mode”), ele apenas analisa os compostos que porventura tenham chegado a ele durante a descida. Noutro, ele deveria analisar uma amostra colhida pela perfuratriz da sonda, a SD2.

A detecção de moléculas orgânicas se deu pelo método passivo. E ele terá de servir. Embora tanto a perfuratriz como o instrumento tenham operado com sucesso, de acordo com a telemetria, o experimento não produziu resultados.

Segundo Fred Gösmann, do Instituto Max Planck, cientista-chefe do COSAC, os dados mostram que a amostra não chegou ao instrumento. “Não há nada lá”, disse ele, segundo o repórter Eric Hand, da revista “Science”.

Os dados do instrumento recebem especial atenção, pois ele não só é capaz de detectar compostos orgânicos como aminoácidos (os tijolos de que são feitas as proteínas), como também pode diferenciar entre versões “canhotas” e “destras” dessas moléculas. Curiosamente, embora elas apareçam nos dois tipos na natureza, a vida (ao menos na Terra) só faz uso das versões canhotas.

Uma detecção desbalanceada das duas versões poderia ser um indicativo indireto de atividade biológica no cometa. Mas, sem a amostra de solo, isso ficou mais difícil.

CHÃO DURO
Enquanto isso, saíram também dados preliminares do instrumento MUPUS — basicamente uma agulha que penetrava no solo para medir sua temperatura e outras propriedades. Ele não conseguiu avançar muito e empacou perto da superfície. Nem mesmo com a máxima potência aplicada, houve perfuração.

Isso leva os cientistas a pensar que, sob uma camada de 10 a 20 cm de poeira, exista gelo muito duro. Curiosamente, dados obtidos da órbita sugerem que o interior profundo do cometa é bem poroso e de baixa densidade. Ao que parece, o cometa tem uma camada de poeira recobrindo uma casca dura.

Os cientistas trabalharão duro analisando todos os dados, enquanto torcem pelo retorno do Philae. Ele entrou no modo de hibernação e recebe muito pouca energia em seus painéis solares. Mas há a esperança de que, com o tempo, suas baterias possam se recarregar e ele volte ao trabalho. Mas isso só em 2015, quando o cometa se aproximar mais do Sol.

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