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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Viagem a Marte, por US$ 1,5 trilhão

Por Salvador Nogueira

Enquanto a Nasa mantém seu discurso genérico de que está se preparando para enviar astronautas a Marte, uma dupla de especialistas independentes americanos com larga experiência no programa espacial avalia o custo do projeto em US$ 1,5 trilhão. É um jeito sutil de dizer que não vai rolar.

Concepção artística de espaçonave para missão marciana tripulada. (Crédito: ESA)
Concepção artística de espaçonave para missão marciana tripulada. (Crédito: ESA)

“Um custo chutado da primeira missão marciana em 2035 totalizaria US$ 230 bilhões. A segunda missão e outras subsequentes, ocorrendo em intervalos de três anos, custariam cerca de US$ 142 bilhões cada. Um módulo de pouso para a primeira e as missões subsequentes não está incluído nessas estimativas”, escrevem em artigo publicado no “SpaceNews” O. Glenn Smith, ex-gerente de engenharia de sistemas dos ônibus espaciais da Nasa, e Paul D. Spudis, cientista lunar americano. “Mandamos nove tripulações [no programa] Apollo à Lua (seis pousaram). Se mandarmos nove tripulações a Marte, a conta total será na casa de US$ 1,5 trilhão.”

A dupla de especialistas ressalta que até há viabilidade econômica. Só que não. “O programa não está totalmente fora de questão se realmente, realmente quisermos fazê-lo”, dizem. “O orçamento anual da Nasa teria de ser aumentado gradualmente até chegar a US$ 54 bilhões (em dólares de 2015) por ano para a primeira missão a Marte e então se manter assim.”

Para ter uma noção de como não vai dar pé, basta lembrar que hoje o orçamento anual da Nasa, que inclui todas as iniciativas tocadas pela agência espacial americana, é de US$ 18 bilhões.

OBJETIVOS DE ÍNTERIM
Não por acaso o presidente Barack Obama precisou estabelecer missões intermediárias para exploração além da órbita terrestre, antes de um primeiro voo a Marte na década de 2030. Mas mesmo essa ideia está degringolando. Repare.

O ano é 2010: Obama faz um ousado anúncio de que os Estados Unidos levariam astronautas a um asteroide por volta de 2025. Legal. Se você pensar que a maioria dos asteroides próximos à Terra está em órbitas que ficam a distâncias intermediárias, se comparados a Marte, faz algum sentido.

Mas aí a Nasa, pressionada por critérios orçamentários, resolveu “trapacear” e trazer um asteroide até a órbita da Lua roboticamente, para então visitá-lo com astronautas. Era o único jeito de bancar essa missão de ínterim com o atual nível de financiamento.

Anteontem, num discreto anúncio feito pela agência espacial, o conceito sofreu mais uma mudança, para pior: agora é só um pedaço de um asteroide que será trazido até as imediações lunares para receber visitação.

Pegando um pedaço de asteroide e levando até a órbita lunar para visitação. Será?(Crédito: Nasa)
Pegando um pedaço de asteroide e levando até a órbita lunar para visitação. Será?(Crédito: Nasa)

Como se isso não fosse ruim o suficiente, fica pior: dos três possíveis asteroides-alvo escolhidos até agora, dois foram ou serão visitados por missões robóticas de retorno de amostras num futuro próximo — reduzindo ainda mais o já exíguo custo-benefício científico da iniciativa.

O alvo só será definido em 2019, então ainda há tempo para corrigir pelo menos isso. Mas, sinceramente, se eu tivesse que apostar, acho que a infame Missão de Recuperação de Asteroide (ARM, na sigla inglesa) vai subir no telhado.

Diz a Nasa que testará com ela diversas tecnologias importantes para a futura viagem a Marte, como propulsão elétrica avançada, mas esse não chega a ser um ótimo motivo para realizar uma missão cujo objetivo é questionável a um custo estimado em US$ 2,6 bilhões.

Bem, mas então para onde irão os astronautas que voarão nas cápsulas Orion e no foguetão SLS, atualmente em desenvolvimento pela agência espacial americana, também supostamente em suporte à futura missão marciana? Vou dar uma dica: ambos começaram a ser desenvolvidos na época em que o plano da Nasa ainda era retornar à Lua…

UMA VOLTA À LUA
Os Estados Unidos têm sofrido essa coisa (não muito) peculiar de trocar seus objetivos espaciais junto com o presidente. E Obama vai deixar a Casa Branca no ano que vem. Tenho a impressão de que a ARM será varrida para debaixo do tapete na próxima administração.

Chineses, russos e europeus estão todos de olho na Lua. É improvável que, com a faca e o queijo na mão (SLS e Orion), os americanos deixem outros chegarem lá primeiro só porque já estiveram por ali entre 1968 e 1972.

Sem falar que a Lua é o único objetivo cientificamente interessante ao alcance das tecnologias já financiadas pela Nasa para voo tripulado nos anos que se passaram. Não repare então se a Nasa voltar a falar dela como objetivo de ínterim na rota para Marte a partir de 2017, exatamente como propunha Bush antes de Obama. E isso independe de quem for morar na Casa Branca no ano que vem, seja ele republicano ou democrata. A conferir.

NA TV: Neste sábado (28), às 16h, na TV Cultura, o programa “SP Pesquisa”, produzido pela Itinerante Filmes e com participação do Mensageiro Sideral, vai explorar um mistério arqueológico: a origem dos primeiros habitantes da América. E como se não bastasse isso, a partir das 22h, no “Jornal das Dez” da GloboNews, o Mensageiro Sideral faz sua homenagem ao Ano Internacional da Luz. Confira!

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