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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Oceanos antigos em Plutão e Caronte?

Por Salvador Nogueira

Estamos chegando aos finalmentes, e a sonda New Horizons não está decepcionando. Em suas últimas imagens, recém-divulgadas pela Nasa, é possível ver o que talvez sejam imensas depressões em Plutão e também em Caronte — sinais de que tanto o planeta anão como sua maior lua podem ter tido oceanos de água líquida sob a crosta de gelo no passado remoto.

Plutão e Caronte em um retrato de família, feito pela New Horizons a 6 milhões de km deles, no dia 8 (Crédito: Nasa)
Plutão e Caronte em um retrato de família, feito pela New Horizons a 6 milhões de km, no dia 8 (Crédito: Nasa)

Uma das previsões mais intrigantes feitas pelos cientistas planetários nos últimos anos é a de que haveria fraturas — sinais de tectonismo — tanto em Caronte como em Plutão caso eles tivessem sido submetidos a um estresse de maré intenso no passado.

É o mesmo mecanismo que gera os oceanos subsuperficiais em Europa e Ganimedes, duas luas de Júpiter, e em Encélado, uma lua de Saturno. O vai-e-vem desses satélites conforme se afastam e se aproximam de seu planeta em órbitas ligeiramente achatadas é suficiente para chacoalhar seu interior e aquecê-lo, a ponto de preservar uma camada de água em estado líquido sob a crosta congelada.

Hoje, a órbita de Caronte parece estabilizada, formando um círculo perfeito em torno de Plutão, então o efeito de maré já é praticamente nulo. Mas se essa órbita já foi mais elíptica no passado, é muito provável que ambos tenham tido oceanos de água líquida em seu interior.

As últimas imagens de Plutão e Caronte revelam fraturas consideráveis no solo de ambos — e elas parecem distribuídas na região equatorial, exatamente onde o estresse de maré seria mais concentrado. Suspeito, não?

Se você não acredita, leia o que disseram Amy Barr, da Universidade Brown, e Geoffrey Collins, do Wheaton College, ambos nos Estados Unidos, num estudo publicado no periódico “Icarus” no ano passado: “Se a New Horizons encontrar evidência de atividade tectônica antiga produzida por maré em qualquer dos corpos, a explicação mais provável é a de que Plutão teve um oceano interno durante a evolução orbital de Caronte.”

Uma possível cratera de impacto em Plutão  e, mais ao lado, quase na borda do disco, possíveis desfiladeiros. Sinais de tectonismo? (Crédito: Nasa)
Uma possível cratera de impacto em Plutão e, mais ao lado, quase na borda do disco, possíveis penhascos. (Crédito: Nasa)

Ou seja, a essa altura, acho uma boa aposta a de que tanto Plutão como Caronte já tiveram oceanos. O que, por si só, é uma chocante revelação. Nós, que até outro dia considerávamos o cinturão de Kuiper a “zona morta” do Sistema Solar, teremos de repensar a história.

E a pergunta que não quer calar: será que ainda pode haver água líquida até hoje em Plutão? Não é algo que se possa descartar, e quero muito ouvir o pessoal da New Horizons a respeito.

A propósito, os cientistas da missão ainda não deram nenhum pitaco sobre as possíveis depressões recém-observadas. Aliás, agora, pelo menos para Plutão, ainda não se descarta nem que seja uma distorção gerada pelo processamento das imagens.

“Plutão tem que ser bem esférico”, diz Felipe Braga-Ribas, astrônomo da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) “Isso [que aparece muito recortado na borda de Plutão] é muito grande pra ser irregularidade mesmo. Artefato de processamento. Já os cânions de Caronte me parecem realmente grandes depressões.”

Provavelmente os cientistas da New Horizons falarão mais a respeito na terça-feira (14), quando a sonda fará seu encontro definitivo com Plutão e suas luas, ou a partir de quarta, quando tiverem imagens ainda mais próximas. Mas já dá para antecipar que eles terão histórias interessantes para contar.

Caronte revela mais crateras de impacto. Mas também tem desfiladeiros maiores que o Grand Canyon. (Crédito: Nasa)
Caronte revela crateras de impacto. Mas também tem desfiladeiros maiores que o Grand Canyon. (Crédito: Nasa)

AS MANCHAS ESPAÇADAS
Nos últimos dias a New Horizons também nos deu as melhores imagens que teremos durante pelo menos algumas décadas das intrigantes manchas espaçadas no lado de Plutão que fica sempre voltado para Caronte.

Elas foram colhidas no sábado (11). Como Plutão leva 6,4 dias terrestres para dar uma volta completa em torno de seu próprio eixo, quando a New Horizons passar raspando por ele, amanhã, terá diante de si exatamente o lado oposto. Ou seja, para esse pedaço do planeta anão, essa imagem aí embaixo é o melhor que vai ficar.

A melhor imagem que teremos das manchas espaçadas de Plutão, feitas a 4 milhões de km de distância (Crédito: Nasa)
A melhor imagem que teremos das manchas espaçadas de Plutão, a 4 milhões de km de distância (Crédito: Nasa)

E ainda há tantos mistérios pela frente. O que gera as diferenças de cor na superfície? Por que Plutão e Caronte são tão diferentes? E aquela esquisita calota polar escura em Caronte?

Já estamos a menos de 1 milhão de km de Plutão e nos aproximando. Quando a New Horizons passar, será capaz de ver na superfície do planeta anão coisas tão pequenas quanto o lago do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Amanhã será um dia especial. Eu, se fosse você, não perderia. O Mensageiro Sideral, claro, estará de olho em tudo.

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