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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Lua de Plutão tem sua própria lua?

Por Salvador Nogueira

Uma imagem muito suspeita produzida pela sonda New Horizons parece sugerir que uma das luas de Plutão pode ter sua própria lua. É isso mesmo.

Hidra vista pela New Horizons a 231 mil km de distância. Deram uma dentada na lua? Acho que não... (Crédito: Nasa)
Hidra vista pela New Horizons a 231 mil km de distância. Deram uma dentada na lua? Acho que não. (Crédito: Nasa)

Bem que o Mensageiro Sideral desconfiou, quando viu a melhor imagem divulgada pela Nasa da lua Hidra, a segunda maior de Plutão (o que não quer dizer muito, pois ela só tem 55 km de comprimento). Sobre sua superfície, no momento da imagem, havia algo que se parecia muito com uma sombra, como se algum objeto menor houvesse se interposto entre ela e o Sol.

Será? Quando você começa ver sombras em fotos de Plutão às 3h da manhã é hora de ir dormir. Mas, por via das dúvidas, resolvi disparar um e-mail para André Amarante, pesquisador da Unesp que está fazendo doutorado na Universidade de Maryland em Laurel (mesma cidade onde fica o APL, Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, que por sua vez é o centro de operações da New Horizons). Amarante já estuda há tempos o sistema de Plutão do ponto de vista da dinâmica orbital e um dos seus maiores interesses é justamente a busca por outras luas por ali.

E aí descobri que a tal sombra não existia só na minha mente. “Tive essa mesma discussão hoje à tarde com o professor Douglas Hamilton, que é um dos membros do “hazard team” da New Horizons, então você está bem é acordado!”, ele me disse.

O principal trabalho do “hazard team” (na tradução, “equipe de perigo”) era analisar o sistema de Plutão o tanto que fosse possível a partir das imagens obtidas à distância pela sonda, de forma que a New Horizons pudesse cruzá-lo sem correr risco de trombar com nada pelo caminho (o que, felizmente, foi o que aconteceu). Durante a aproximação final, a análise feita por essa equipe das imagens colhidas pela sonda no fim de junho indicava que não havia mais nada no sistema que tivesse pelo menos 1/15 do brilho de Estige, a menor e mais discreta das luas conhecidas.

Mas a sombra está lá, em Hidra. Falta um objeto que a produza. Pelo tamanho dela, sabemos que ele é bem pequeno — alguns quilômetros, no máximo. Aliás, será que ele também não está na foto? Aquela protuberância logo acima da sombra é muito suspeita. Mas não dá para ter certeza só com essa imagem.

Uma das possibilidades, apontada por Amarante, é de que seja uma lua troiana de Hidra — basicamente um objeto que segue a mesma órbita da lua, num ângulo de 60 graus com relação ao centro do sistema, indo adiante dela ou vindo logo atrás. No Sistema Solar, há casos conhecidos de troianas que acompanham Tétis e Dione, duas das maiores luas de Saturno.

Outra possibilidade — e confesso apostar mais nesta, porque a sombra parece indicar grande proximidade — é que o objeto misterioso esteja de fato em órbita de Hidra. “Sim, é possível termos ‘uma lua orbitando outra lua'”, diz Amarante. “É como se fosse o caso clássico do asteroide Ida, com sua lua Dáctilo.”

O asteroide Ida e sua lua Dáctilo, em imagem da sonda Galileo (Crédito: Nasa)
O asteroide Ida e sua lua Dáctilo, em imagem da sonda Galileo (Crédito: Nasa)

O pesquisador brasileiro informa que Hamilton, que é seu orientador na Universidade de Maryland, terá uma reunião com os outros membros da New Horizons no fim da semana e poderá já ter algum encaminhamento para o desfecho do mistério. Mas lembre-se: os dados da sonda ainda estão sendo paulatinamente transmitidos para a Terra (processo que levará 16 meses ao todo), e pode levar algum tempo até que tenhamos mais imagens de Hidra que ajudem a fechar essa conta. Esse é apenas mais um exemplo do que significa “exploração espacial”: não sabemos o que iremos encontrar, até que encontremos!

FLUXOS DE GELO E NÉVOAS
E, por falar em surpresas, elas parecem não acabar nunca em Plutão. Na sexta-feira passada, a Nasa divulgou mais algumas, com base nas últimas imagens de alta resolução transmitidas pela New Horizons.

Em solo, as novidades vieram da região a noroeste de Tombaugh Regio — o “coração” de Plutão. Os cientistas detectaram ali, perto de terreno antigo, marcado por crateras, evidências de fluxo de gelo pela superfície, causando erosão. O gelo, nesse caso, é composto de nitrogênio e parece fluir pelo solo. Mas como? Segundo William McKinnon, um dos membros da New Horizons, o calor interno de Plutão derrete o gelo de nitrogênio por baixo, que se liquefaz, e aí permite o deslocamento do terreno congelado por cima. É algo que se vê em geleiras na Terra. Mas aqui, o gelo é de água. Na superfície de Plutão, sob intenso frio de -235 graus Celsius, água é tão dura quanto rocha por aqui — não se presta a esse tipo de coisa.

Fluxos de gelo de nitrogênio causam erosão ao norte da Sputnik Planum, em Tombaugh Regio, o "coração" de Plutão. (Crédito: Nasa)
Fluxos de gelo de nitrogênio causam erosão ao norte da Sputnik Planum, em Tombaugh Regio, o “coração” de Plutão. (Crédito: Nasa)

McKinnon também comentou algo que interessa a muita gente — a possibilidade de um oceano de água líquida sob o manto de gelo de água de Plutão. Até agora, os cientistas não encontraram nenhuma evidência direta e inconfundível disso nos traços geológicos fotografados pela New Horizons. Contudo, segundo ele, as descobertas de que o planeta anão ainda tem calor interno e de que tem mais gelo de água do que antes se pensava (descoberta feita a partir da medição do tamanho dele, que implica uma densidade menor do que a esperada) parecem elevar a probabilidade de que exista mesmo uma camada de água líquida sob centenas de quilômetros de gelo. A conferir.

E a coisa mais bonita da conferência foi a imagem que a New Horizons fez depois de passar por Plutão, fotografando o halo de sua atmosfera iluminada pelo Sol do outro lado. Eis o ar plutoniano. A análise da imagem revelou que há uma tênue névoa em duas camadas, uma a 80 km da superfície e a outra a cerca de 50 km.

A atmosfera de Plutão, iluminada pelo Sol, que está do outro lado. O poético adeus da New Horizons ao planeta anão. (Crédito: Nasa)
A atmosfera de Plutão, iluminada pelo Sol, do outro lado. O poético adeus da New Horizons ao planeta anão. (Crédito: Nasa)

Imagina-se que a névoa seja produzida pela reação de metano, um dos componentes do solo e da atmosfera de Plutão, com os raios ultravioleta do Sol. A radiação desmancha as moléculas de metano e leva à produção de outros hidrocarbonetos mais complexos, como etileno e acetileno. Geradas na alta atmosfera, essas substâncias então descem para regiões mais frias e se condensam em partículas de gelo — a tal névoa.

Modelos anteriores sugeriam que a temperatura da atmosfera seria alta demais acima de 30 km para produzir névoa, então esse é mais um mistério que os cientistas terão para resolver.

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO AR DE PLUTÃO
Aliás, a atmosfera plutoniana deixou todo mundo na equipe da New Horizons de queixo caído. Além dessas camadas de névoas em altitudes “proibitivas”, eles descobriram que a atmosfera é mais fria, mais baixa e menos densa do que se esperava.

E o mais curioso: a baixa pressão atmosférica observada pode ter sido um fenômeno de transição recente. Ela parece ser apenas metade da medida no ano passado, com telescópios aqui na Terra, com base em ocultações estelares — quando Plutão passa na frente de uma estrela e podemos medir de que maneira a atmosfera plutoniana obscurece gradualmente o brilho da estrela de fundo, obtendo pistas de sua estrutura.

Isso significa que talvez Plutão sofra um colapso de sua atmosfera conforme se afasta do Sol, e é possível que a New Horizons tenha passado lá num ótimo momento para observar isso.

O periélio de Plutão — momento em que o planeta se aproximou mais do Sol — aconteceu em 1989, e desde então o planeta anão vem se afastando gradualmente, numa órbita oval que ele leva modorrentos 248 anos terrestres para percorrer. Alguns modelos atmosféricos sugeriam que esse colapso podia mesmo acontecer, e foi essa uma das razões pelas quais a Nasa não cancelou a missão New Horizons num momento de aperto orçamentário, em 2002. Boa aposta, pelo visto. Mas, como em tudo acerca desse misterioso mundo recém-revelado, ainda precisamos de mais dados para tirar conclusões definitivas.

Ou seja: não saia daí.

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