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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Nosso Universo está morrendo

Por Salvador Nogueira

O Universo está morrendo. Uma morte lenta, é verdade, mas o diagnóstico é incontroverso e acaba de ser apresentado por um grupo internacional de astrônomos, durante a Assembleia Geral da União Astronômica Internacional, que acontece em Honolulu, no Havaí. Os cientistas constataram que as galáxias produzem hoje apenas metade da energia que geravam 2 bilhões de anos atrás — é o início de um gradual, mas inconfundível, apagar das luzes no cosmos.

O passado do Universo já foi mais glorioso; o futuro tende à escuridão. (Crédito: Nasa/ESA/STScI)
O passado do Universo já foi mais glorioso; o futuro, tende à escuridão. (Crédito: Nasa/ESA/STScI)

O novo estudo, publicado no periódico “Monthly Notices of the Royal Astronomical Society”, faz parte do projeto Gama (sigla inglesa para “composição de galáxias e massa”) e investigou a quantidade de emissão de energia numa vasta região do espaço, analisando individualmente cerca de 200 mil galáxias.

Como se sabe, já que a luz leva um certo tempo para viajar grandes distâncias, olhar para as profundezas do espaço equivale a estudar o passado. Assim, ao comparar a quantidade de luz emitida pelas estrelas contidas em galáxias típicas, mas distantes, com outras similares, mas mais próximas, é possível avaliar se a produção total de estrelas — e, portanto, de energia — está em alta ou em baixa.

Graças à generosa amostra do Gama, foi possível fazer essa comparação com grande precisão. E a moral da história é que, 2 bilhões de anos atrás, a quantidade de energia produzida pelas galáxias era o dobro da atual. Ou seja, conforme cada vez mais estrelas morrem, e cada vez menos estrelas nascem, o Universo caminha para um vagaroso declínio.

MEDIÇÕES PRECISAS
Já se tinha uma boa ideia de que o pico de atividade do cosmos — que tem cerca de 13,8 bilhões de anos a contar do Big Bang — havia sido atingido há algum tempo. Mas os resultados do Gama agora são inconfundíveis. O grande diferencial é que eles usaram os mais variados instrumentos para cobrir uma vasta faixa do espectro eletromagnético, do infravermelho ao ultravioleta, passando, é claro, pela luz visível. É a primeira vez que temos uma cobertura tão abrangente.

Para isso, a equipe liderada por Simon Driver, da Universidade da Austrália Ocidental, fez uso principalmente de telescópios do ESO (Observatório Europeu do Sul) em Paranal, no Chile, e de dados dos satélites Galex e Wise, da Nasa, e Herschel, da ESA (Agência Espacial Europeia).

This composite picture shows how a typical galaxy appears at different wavelengths in the GAMA survey. This huge project has measured the energy output of more than 200 000 galaxies and represents the most comprehensive assessment of the energy output of the nearby Universe. The results confirm that the energy produced in a section of the Universe today is only about half what it was two billion years ago and find that this fading is occurring across all wavelengths from the ultraviolet to the far infrared.
Imagens de uma galáxia típica estudada pelo projeto Gama em diferentes faixas do espectro eletromagnético (Crédito: ESO)

Para uma próxima fase, eles pretendem também incluir medições em rádio, possivelmente obtidas com o SKA (Square Kilometer Array), conjunto de radiotelescópios em construção na África do Sul. Mas os dados colhidos até agora já trazem uma mensagem muito clara.

“O Universo deve declinar daqui para frente, suavemente evoluindo para a velhice”, disse Driver. “O Universo basicamente se sentou no sofá, puxou as cobertas e está prestes a entrar num cochilo eterno.”

UMA HISTÓRIA EM ABERTO?
Com efeito, se nossa compreensão do funcionamento do cosmos estiver certa, e sua expansão prosseguir em ritmo acelerado, esse é o desfecho esperado: um lento e gradual, mas irreversível, apagamento.

Aos poucos, todas as nuvens de gás geradas pelo evento primordial do Big Bang serão convertidas dentro das galáxias em estrelas. Essas, por sua vez, completarão seu ciclo de vida e se tornarão cadáveres degenerados de matéria ou buracos negros. Os primeiros estão condenados a se resfriar para sempre. Os segundos, num tempo ainda mais longo, devem emitir suaves sopros de radiação até evaporarem sem deixar resquícios. É um cenário melancólico.

Apesar disso, não devemos nos preocupar demais. Embora as luzes estejam se apagando, a fase ativa do Universo ainda deve durar muitos bilhões de anos, e depois disso as estrelas mais longevas viverão por até 1 trilhão de anos — um tempo incomensurável do nosso ponto de vista — até que só restem os resquícios das glórias de outrora.

Contudo, no meio do caminho, ainda tem um grande “se”. Tudo isso só irá acontecer se a misteriosa energia escura — que ninguém no momento sabe o que é — continuar trabalhando, como agora, para compensar a gravidade e com isso seguir acelerando a expansão cósmica. Por outro lado, se ela resolver mudar de humor e passar, no futuro, a ajudar a gravidade a atrair as coisas, podemos ter um desfecho em que o Universo interrompe a expansão e passa a se contrair, terminando num Big Crunch — um “grande esmagamento”.

E quem sabe não é um evento desses o que gera um novo Big Bang e recomeça toda a história, num ciclo infinito? As respostas estão lá fora.

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