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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Os segredos molhados de Caronte

Por Salvador Nogueira

OK, vamos aceitar os fatos: água em estado líquido é mesmo uma coisa absolutamente trivial no Universo. Até Caronte, a maior das luas de Plutão, lá nos confins do Sistema Solar, parece já ter tido um oceano de água sob sua superfície, embora a essa altura ele já tenha congelado. É o que sugerem as novas imagens da missão New Horizons, que segue transmitindo seus tesouros científicos para a Terra.

Caronte, vista pela sonda New Horizons, com cores realçadas para diferenciar composição dos terrenos (Crédito: Nasa)
Caronte, vista pela sonda New Horizons, com cores realçadas para diferenciar composição dos terrenos (Crédito: Nasa)

Antes de continuarmos com o assunto de água, pare uns segundinhos para admirar a imagem acima. Este é Caronte, o maior satélite natural de Plutão. Até julho deste ano, não fazíamos a mais vaga ideia do que encontraríamos em sua superfície. São apenas 1.208 km de diâmetro — pouco mais de um terço do da nossa Lua –, mas quanta coisa interessante se vê nessa foto feita pela New Horizons. Um mundo inteiro, desconhecido até anteontem, por assim dizer.

Viu? Vamos em frente. O que sugere o passado oceânico de Caronte é esse imenso sistema de cânions que praticamente corta a lua ao meio. Sabemos que ele se estende por mais de 1.600 km e pode até mesmo se estender até o lado afastado de Caronte, que não foi bem observado pela New Horizons.

Ele tem quatro vezes o comprimento do Grand Canyon, na Terra. “É como se a crosta inteira de Caronte tivesse se aberto”, disse John Spencer, um dos pesquisadores da New Horizons.

Mosaico de imagens mais próximas feitas pela New Horizons em Caronte. Ainda haverá imagens ainda mais detalhadas! (Crédito: Nasa)
Mosaico de imagens mais próximas feitas pela New Horizons em Caronte. Ainda haverá imagens ainda mais detalhadas! (Crédito: Nasa)

A deformação radical e violenta que provavelmente gerou os cânions é um sinal de um oceano sob a superfície que se congelou. Ao congelar, como gelo ocupa mais espaço que água, o solo basicamente rachou. Em escala planetária.

Note também como há regiões mais lisas, com menor proporção de crateras. Isso significa que são regiões mais jovens. (Contar crateras é uma forma razoavelmente simples e segura de estimar a idade de um terreno, uma vez que a frequência de impactos é mais ou menos regular; portanto, um terreno com menos crateras deve ser mais jovem que um com mais crateras.)

Essas áreas, concentradas ao sul dos cânions, parecem ser fruto de criovulcanismo — um processo similar ao vulcanismo que temos na Terra, mas com água fazendo o papel de lava. Ou seja, erupções de água recobriram o terreno antigo, renovando-o.

Tudo isso muito tempo atrás. Quanto tempo? Difícil dizer no momento. A questão central, no entanto, é: Caronte, ao que parece, já teve um oceano.

ÁGUA, ESSA COISA BÁSICA
Noutros tempos, diríamos que isso a coloca numa lista seleta. Mas encontrar corpos com água líquida na superfície ou no subsolo tem se tornado tão comum que, ao que tudo indica, água não é exatamente uma commodity rara no Universo.

Do que já sabemos com certeza, Marte tem fluxos de água na superfície (se você mora na Terra, acho que chegou a ver algo sobre isso essa semana, né?), Europa (em torno de Júpiter) tem um vasto oceano global sob a crosta de gelo, Ganimedes (também em torno de Júpiter) tem um oceano ensanduichado por duas camadas de gelo e Encélado (em torno de Saturno) tem um oceano global sob a superfície, com plumas atirando essa água para o espaço!

Se incluirmos corpos que possivelmente tiveram oceanos (superficiais ou subsuperficiais) no passado, dá para listar Vênus (sim, nos primórdios do Sistema Solar, 4 bilhões de anos atrás, ele pode ter sido “molhado”!), Ceres, Plutão e mais um punhado de luas por aí. E alguns desses ainda podem ter água líquida (Plutão em particular intriga).

Montagem com Plutão e Caronte, mostrando o brilho relativo de ambos (Crédito: Nasa)
Montagem com Plutão e Caronte, mostrando o brilho e o tamanho relativo de ambos (Crédito: Nasa)

Moral da história: se tudo que é preciso para o surgimento da vida é água em estado líquido (abundante!), compostos orgânicos (abundantes!), uma fonte de energia (de preferência movida por fontes geotérmicas no fundo dos oceanos) e alguns milhões de anos, como muitos cientistas acreditam, vários lugares do Sistema Solar podem ter originado biologia.

Antes de se animar demais, note que essa é só uma hipótese, no momento. Pode ou não estar correta, e em ciência nada pode ser aceito sem questionamentos. Para confirmar (ou refutar) isso, só há um jeito. Precisamos encontrar outro lugar que tem ou teve vida. Marte, por ter sido tão parecido com a Terra no passado e ainda hoje guardar resquícios de seu passado úmido (sem falar que é o lugar mais próximo onde podemos procurar), é o principal candidato para a busca.

Intriga, no entanto, imaginar que a resposta também possa estar em Caronte. Ou Europa. Ou Encélado. Ou Plutão. Ou até mesmo na alta atmosfera de Vênus. De repente, o Mensageiro Sideral se sente numa loteria em que ele sozinho comprou todos os bilhetes! Um deles, em algum momento, há de ser sorteado. Ou não?

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