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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Vulcões em Plutão?

Por Salvador Nogueira

OK, vamos lá. Que surpresas já tivemos em Plutão? Dunas numa atmosfera rarefeita, atividade geológica recente, neve de nitrogênio, montanhas de gelo de água… Quer mais uma? Dois possíveis vulcões foram avistados pela sonda New Horizons.

Montanhas vistas ao sul da Sputnik Planum, em Plutão, parecem ter caldeiras, como vulcões. (Crédito: Nasa)
Montanhas vistas ao sul da Sputnik Planum, em Plutão, parecem ter caldeiras, como vulcões. (Crédito: Nasa)

É o que sugere uma análise preliminar feita pela equipe de cientistas da missão, apresentada na segunda-feira (9), no início da 47a Reunião Anual da Divisão de Ciências Planetárias da Sociedade Astronômica Americana, em National Harbor, Maryland.

Duas das montanhas mais proeminentes registradas nas imagens da sonda durante seu sobrevoo histórico de Plutão, realizado em 14 de julho, chamadas informalmente de Wright e Piccard, têm depressões bem no pico.

“Essas são grandes montanhas com um grande buraco em seu cume, e na Terra isso significa geralmente uma coisa — um vulcão”, disse Oliver White, pesquisador do Centro Ames de Pesquisa, da Nasa, em nota divulgada pela agência espacial americana.

Agora, entre parecer ser e ser vai uma distância, e ainda não há subsídios para confirmar a hipótese de vulcões. E não custa lembrar que esses não são vulcões como os da Terra, que cospem lava — ou, para os íntimos, magma, também conhecido como rocha derretida. Em Plutão, nos cafundós do Sistema Solar, não há energia e calor suficientes para derreter pedras — a, não ser, é claro, que essas pedras sejam de gelo! Estamos falando, portanto, de criovulcões.

Agora, que gelo eles expelem? Os cientistas não têm ainda ideia — cogitam coisas como água, nitrogênio, amônia ou ainda metano. De toda forma, a ideia de qualquer tipo de vulcão já é empolgante por si só, pois dá pistas de como se deu a evolução geológica e atmosférica de Plutão.

POR DENTRO DE PLUTÃO
Outro estudo apresentado durante a reunião pode dar pistas do que permite toda essa atividade geológica, que perdura até hoje, no pequeno planeta anão. Alex Trowbridge e Henry J. Melosh, da Universidade de Purdue, se puseram a investigar por que Plutão parece tão mais ativo que, por exemplo, Ceres, o planeta anão que existe no cinturão de asteroides. Ceres é interessante, sem dúvida, e tem algum tipo de atividade, evidenciada pela presença de intrigantes pontos brilhantes no interior de crateras (que aparentemente são concentrações de sais), mas é um mundo muito mais esburacado — e portanto geologicamente antigo — que Plutão.

Curiosamente, a julgar pela densidade dos dois mundos e por sua formação, ambos devem ter mantos de gelo de água. Mas, em Ceres, isso não foi suficiente para produzir tectonismo ou vulcanismo, pelo menos não de forma tão intensa quanto em Plutão.

Melosh e seu orientando Trowbridge decidiram desenvolver um método para estimar o vigor dos mantos desses mundos gelados e, com isso, além de explicar as diferenças entre Plutão e Ceres, também ajudar a prever o que podemos encontrar em outros planetas anões e satélites similares Sistema Solar afora.

E o que eles concluíram é que, como Plutão se formou mais afastado do Sol, a mistura de substâncias voláteis que ajudaram a produzir sua composição foi bem diferente da de Ceres. Em especial, muito mais amônia.

Se você mistura água e amônia, é como adicionar uma substância anticongelante — mesmo a temperaturas muito baixas, o manto permanece pastoso e permite a ocorrência de convecção. Em essência, o material consegue se mover para cima e para baixo, guiado por diferenças de temperatura, e com isso alimentar a atividade geológica vista na superfície.

No caso de Plutão, os pesquisadores apostam que uma mistura de água com 5% de amônia seria suficiente para explicar os fenômenos observados pela New Horizons. Já Ceres, sem amônia, acabou com o seu interior congelado — ou pelo menos, significativamente menos sujeito a convecção que seu colega do cinturão de Kuiper.

Agora, a dupla quer usar o mesmo conjunto de equações para prever o que podemos encontrar lá fora em outros objetos do cinturão de Kuiper, incluindo o pequeno mundo que a New Horizons deve encontrar em 2019, caso a Nasa banque a extensão da missão.

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