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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Lixo espacial que vai cair na Terra pode ser resquício das missões Apollo

Por Salvador Nogueira

Um pedaço de lixo espacial vai cair na Terra às 4h20 (de Brasília) desta sexta-feira (13), sobre o Sri Lanka. Ninguém sabe a que missão ele pertenceu. Mas uma das possibilidades é de que ele seja um remanescente das missões Apollo, que levaram humanos à Lua entre 1968 e 1972. “Se for [da] Apollo, seria o terceiro estágio [do Saturn V, foguete usado nas missões]”, diz Cristovão Jacques, líder do SONEAR, em Oliveira (MG), o mais produtivo observatório brasileiro na busca por asteroides próximos à Terra. “Alguns desses terceiros estágios impactaram a Lua no passado.”

O que se sabe concretamente é que o objeto tem uma densidade muito pequena — determinada pela Agência Espacial Europeia como 0,1 grama por centímetro cúbico –, o que significa que se trata de algo muito leve para ser um asteroide. Provavelmente, é mesmo um estágio superior de foguete, vazio. (No vídeo acima, confira o registro que o SONEAR fez do objeto, a um dia de reentrar na atmosfera terrestre.)

Identificado pela sigla WT1190F, ele foi descoberto em 2013 por um projeto de busca de asteroides, o Catalina Sky Survey. Os astrônomos então foram verificar em imagens antigas se ele aparecia e conseguiram encontrar possíveis registros dele desde 2009 — então sabemos que ele foi lançado antes disso. Sua órbita, contudo, tem flutuado bastante e não é estável. A maioria dos objetos em órbitas como essa tendem a cair na Terra ou na Lua, cedo ou tarde.

Em 2011, sua órbita era menos oval e sua aproximação máxima da Terra se dava a 248 mil km de distância. Em 2012, ele passou a apenas 22 mil km da Lua e depois sua órbita se tornou ainda mais achatada, com perigeu de 105 mil km. Antes da colisão, sua órbita tinha perigeu de 21 mil km e apogeu de 655 mil km.

Em 2003, chegaram a encontrar, em circunstâncias parecidas, o terceiro estágio da Apollo 12, segunda missão de pouso lunar, que entrou numa órbita heliocêntrica (em torno do Sol) e depois acabou recapturado brevemente pela gravidade da Terra, quando voltou a ser observado, décadas depois de seu lançamento, em 1969.

Imagem do astronauta Alan Bean, da Apollo 12, na superfície lunar, em 19 de novembro de 1969.
Imagem do astronauta Alan Bean, da Apollo 12, na superfície lunar, em 19 de novembro de 1969.

Contudo, será praticamente impossível determinar se é esse o caso desta vez, a não ser que novas buscas em arquivos antigos de imagens consigam mais registros anteriores do objeto que o conduzam até sua data de lançamento e trajetória inicial.

“O problema é que, se fosse somente o efeito da gravidade, seria fácil calcular e saber quem [lançou]”, explica Jacques. “Mas o efeito da radiação solar influi muito.”

O mistério acaba em algumas horas, e deve ficar mesmo sem solução. A expectativa é que, por seu tamanho diminuto e velocidade expressiva, o pedaço de lixo espacial queime na atmosfera terrestre sem deixar vestígios. Mas é curioso notar que, além dos asteroides, agora temos de nos preocupar com o lixo que deixamos lá em cima — cedo ou tarde, ele pode voltar a cair sobre nossas cabeças.

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