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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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Um foguete que vai ao espaço e pousa

Por Salvador Nogueira

Você tem esperança de visitar o espaço antes de morrer? Realizado em sigilo, na segunda-feira (23), um voo de teste bem-sucedido no deserto do Texas, nos Estados Unidos, tornou tudo isso bem mais provável. Pela primeira vez, um foguete realizou um voo ao espaço e depois retornou ao solo, num pouso suave.

O foguete New Shepard, após o pouso histórico realizado na segunda-feira, no Texas. (Crédito: Blue Origins)
O foguete New Shepard, após o pouso histórico realizado na segunda-feira, no Texas. (Crédito: Blue Origin)

O feito, anunciado nesta terça, é da empresa Blue Origin, fundada pelo magnata da informática Jeff Bezos, dono da Amazon.com. Seu veículo, o New Shepard, é composto por um foguete de um único estágio e uma cápsula, e reproduz de forma mais ou menos fiel, o voo de Alan Shepard, primeiro astronauta americano a visitar o espaço, em maio de 1961. A exemplo daquela missão inaugural do programa espacial tripulado ianque, o voo é suborbital. O foguete sobe a cem quilômetros de altitude — a “fronteira” oficial entre a atmosfera e o espaço — e depois retorna à Terra, sem entrar em órbita. A experiência garante três a quatro minutos de sensação de ausência de peso.

A grande diferença entre 1961 e 2015 é que agora todo o conjunto, tanto o foguete quanto a cápsula, retorna de forma suave ao solo e pode ser reutilizado. É coisa saída de Flash Gordon. Com a diferença de que é para valer. Dê uma olhada no vídeo que a Blue Origin fez de seu voo bem-sucedido, realizado sem tripulação.

“Reutilização completa é uma revolução, e mal podemos esperar para reabastecer e voar de novo”, disse, em nota, Bezos. E por quê? Porque o custo de cada voo cai drasticamente com a possibilidade de usar o mesmo foguete repetidas vezes.

UMA NOVA ERA
Com o resultado, a Blue Origin entra para valer na competição pelo mercado de turismo espacial suborbital. Até agora, a única perspectiva concreta de voar ao espaço era com a Virgin Galactic, do empresário Richard Branson, que sofreu um forte revés no ano passado durante os testes de sua primeira nave comercial, a VSS Enterprise. O veículo se desmanchou em pleno ar e ocasionou a morte de um dos dois pilotos a bordo.

O esquema da Virgin é também todo reutilizável, mas não envolve cápsulas e foguetes, e sim veículos com asas.

No segmento orbital, por sua vez, quem tem experimentado mais com reutilização é a SpaceX, de Elon Musk. A empresa já revolucionou o custo de transporte ao espaço com novas práticas inovadoras no desenvolvimento do seu principal foguete, o Falcon 9, e também trabalha para recuperar pelo menos o primeiro estágio dele em missões futuras. Duas tentativas já foram feitas de recuperá-lo, numa balsa no mar, e por pouco não deram certo. O sucesso da Blue Origin só confirma que esse é um caminho viável e que o sucesso da SpaceX também está a caminho.

Hoje, um voo suborbital ao espaço custa cerca de US$ 250 mil (pela Virgin Galactic). Já um voo orbital, só disponível no momento pelos russos, não sai por menos de US$ 20 milhões. Não duvide que o custo do suborbital pode cair por um fator de dez e o do orbital, por um fator de cem, nos próximos dez anos.

É difícil estimar o tamanho do impacto que o barateamento do acesso ao espaço pode causar. O principal motivo pelo qual estamos, quase todos, presos a este planeta — o custo de sair dele — pode se tornar um incômodo muito menor, o que por sua vez tornará a ocupação do Sistema Solar uma empreitada possível ao longo do século 21. Elon Musk, da SpaceX, não esconde de ninguém que seu objetivo final é viabilizar a colonização de Marte. Será? Quem viver, verá.

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