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Salvador Nogueira é jornalista de ciência e autor de 11 livros

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O relógio do Juízo Final

Por Salvador Nogueira

O teste bem-sucedido de uma bomba de hidrogênio pela Coreia do Norte só mostra como a ameaça da devastação nuclear nunca realmente deixou de nos assombrar, desde que as primeiras armas desse tipo foram desenvolvidas, ao fim da Segunda Guerra Mundial. Confira a seguir um trecho do meu último livro, “Ciência Proibida”, que trata desse e de outros perigos que pairam sobre a humanidade no século 21.

O Relógio do Juízo Final

Não surpreende que os cientistas tenham se tornado os maiores ativistas contra a proliferação nuclear. O remorso diante do horror de Hiroshima e Nagasaki era grande, e pouco consolo restava no fato de que os nazistas também estavam perseguindo o desenvolvimento de armas nucleares (assim como os japoneses). É verdade que teria sido muito mais trágico se Hitler tivesse chegado à bomba antes do Projeto Manhattan. Talvez eu não tivesse a chance de escrever isso, pois o mundo inteiro teria sido obrigado a se curvar diante de uma Alemanha autoritária, racista e genocida, ou, talvez pior, teríamos concluído a Segunda Guerra como um conflito nuclear global.

O horror nuclear pôs fim à guerra mais violenta da história, mas o que faríamos para impedir a próxima? E quais seriam as consequências de um conflito global travado com armas nucleares? Não por acaso, Einstein chegou a dizer: “Não sei com que armas será travada a Terceira Guerra Mundial, mas a quarta será lutada com paus e pedras.”

Pela primeira vez na história humana, nossa sabedoria teria de ultrapassar nosso progresso tecnológico para que pudéssemos sobreviver. De início, os criadores da bomba atômica ligados à Universidade de Chicago não eram otimistas. Em 1947, eles iniciaram uma contagem regressiva virtual para o apocalipse – o chamado Relógio do Juízo Final. Eles criaram uma publicação, o Bulletin of the Atomic Scientists (Boletim dos Cientistas Atômicos), cujo objetivo era alertar para os riscos de um conflito nuclear e defender as bandeiras da não-proliferação e do controle internacional dos arsenais – algo que não animava os Estados Unidos, então detentores do monopólio sobre armas nucleares e prestes a embarcar numa Guerra Fria (correndo o risco de esquentar) com a União Soviética.

Em 1947, o relógio marcava sete minutos para a meia-noite (simbolizando a iminência de um conflito nuclear), mas tudo mudaria dois anos depois, quando os soviéticos quebrariam o monopólio americano e detonariam sua primeira bomba atômica. Enquanto os cientistas, apavorados, empurravam o ponteiro para três minutos para a meia-noite, as duas superpotências do pós-guerra embarcavam numa corrida armamentista nuclear.

Curiosamente, as primeiras bombas soviéticas eram parentes muito próximas das americanas – foram construídas graças a substancial inteligência obtida por espionagem dentro do Projeto Manhattan. (Oppenheimer, apesar de suas inclinações comunistas, jamais facilitou o vazamento de informação aos russos, e chegou até a denunciar ao Exército a possível presença de espiões, quando a suspeita chegou a seu conhecimento.)

A resposta imediata do governo americano foi perseguir o desenvolvimento de uma superbomba atômica – uma proposta que já era defendida pelo físico Edward Teller desde 1943. A ideia era usar a detonação de um artefato de fissão nuclear para elevar a temperatura a ponto de promover em seu interior reações de fusão nuclear. Ao colar núcleos atômicos, como o do deutério (versão do hidrogênio com um próton e um nêutron), a liberação de energia é ainda maior do que a da quebra de átomos. É basicamente o modo pelo qual o Sol produz sua energia. Teller argumentava que a bomba de hidrogênio seria tão poderosa que serviria como dissuasão imediata para qualquer conflito nuclear. Suas detonações seriam medidas em megatoneladas – milhares de vezes mais poderosas do que as bombas que explodiram sobre Hiroshima e Nagasaki. Quem seria louco de travar guerra contra uma superpotência que tivesse posse sobre tais armamentos?

Em 1951, o desenvolvimento estava pronto, e em 1952, os Estados Unidos testaram a primeira dessas armas termonucleares. Mas apenas nove meses depois, em agosto de 1953, a União Soviética fez teste similar, e com um modelo pronto para combate. O Relógio do Juízo Final passou a marcar apenas dois minutos para a meia-noite. O perigo iminente do fim da civilização fez com que os governos americano e soviético buscassem, por vias diplomáticas, limitar os testes nucleares. Além disso, cientistas dos dois lados passaram a interagir mais, em eventos como o Ano Geofísico Internacional e as Conferências Pugwash sobre Ciência e Assuntos Mundiais, ambos iniciados em 1957.

Em compensação, em 1957 a União Soviética concluía o desenvolvimento do primeiro míssil balístico intercontinental, capaz de transportar uma ogiva nuclear a qualquer alvo no planeta, não importando a distância. Já não era mais preciso um sobrevoo de avião para lançar uma arma nuclear. O foguete responsável pela façanha era o R-7, o mesmo que foi usado em 4 de outubro de 1957 para colocar em órbita o primeiro satélite artificial, o Sputnik.

O contexto ajuda a entender por que os americanos ficaram tão apavorados com o Sputnik e por que razão. Enquanto governos das duas superpotências tentavam negociar acordos de não-proliferação, a corrida espacial avançou ferozmente ao longo dos anos 1960, culminando com a chegada do homem à Lua, em 1969.

Foi também na década de 1960 que a humanidade esteve mais perto de uma guerra nuclear, durante a famosa crise dos mísseis em Cuba. Tudo aconteceu em 13 dias, em outubro de 1962, em resposta à tentativa de invasão da ilha pelos americanos, no ano anterior. Para evitar que os ianques tentassem novamente derrubar o regime comunista, Fidel Castro solicitou ao líder soviético, Nikita Krushev, a colocação de mísseis balísticos nucleares em Cuba. Diante da presença de mísseis americanos na Itália e na Turquia, ao alcance de Moscou, os soviéticos ficaram felizes em atender ao pedido. Mas o governo americano não iria engolir. O presidente John Kennedy ordenou o estabelecimento de um bloqueio marítimo de Cuba para impedir a chegada de novos mísseis e ameaçou atacar quaisquer embarcações soviéticas que tentassem furar a barreira. O bloqueio não terminaria até que todas as armas já em Cuba fossem desmontadas e levadas de volta à União Soviética. Os soviéticos de início responderam dizendo que ignorariam o bloqueio e, com informações de inteligência indicando que a preparação dos mísseis em Cuba prosseguia, Kennedy chegou a despachar ordem autorizando a instalação de armas nucleares em aeronaves.

Foram tensas negociações diplomáticas, que quase levaram a ordens de ataque de parte a parte, mas acabaram resultando. Publicamente, a União Soviética retiraria seus mísseis em troca de uma declaração pública dos Estados Unidos de que jamais invadiria Cuba sem provocação direta. Secretamente, os Estados Unidos também se comprometeram a desmantelar seu arsenal na Turquia e na Itália. Foi graças a essa crise que Moscou e Washington decidiram instalar uma “linha quente” de comunicação direta entre os governantes dos dois países, o famoso “telefone vermelho”.

Tudo aconteceu tão depressa que o Relógio do Juízo Final nem chegou a refletir esses eventos dramáticos. Poucos questionariam a ideia de que chegamos ali a menos de um minuto para meia-noite. Mas o posterior sucesso diplomático acabou aprofundando a segurança global, novos tratados foram assinados entre as duas superpotências, e o ponteiro foi remarcado em 1963 para 12 para meia-noite. Dali em diante, entre guerras locais como a do Vietnã, e novos acordos de não-proliferação, o relógio ficou oscilando.

O momento de maior alívio aconteceu em 1991, com a dissolução da União Soviética: 17 para meia-noite. Mas, desde então, as coisas voltaram a piorar. Apesar do fim da Guerra Fria, os gastos militares permaneceram muito elevados entre as superpotências, e um número cada vez maior de nações em conflito adquiriu capacidade nuclear: Índia, Paquistão e, mais recentemente, a Coreia do Norte.

No total, temos hoje os seguintes países com arsenal nuclear: Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte (Israel nunca admitiu a posse desses dispositivos, mas acredita-se que os tenha). Em 2012, a Federação dos Cientistas Americanos estimava a existência de mais de 17 mil ogivas nucleares, com cerca de 4.300 delas em status “operacional”, ou seja, prontas para uso imediato. E a história mostra que crises como a dos mísseis em Cuba podem se desenvolver muito depressa. Estamos longe de estar seguros.

Pior: à ameaça nuclear se juntaram outras, que nem conhecíamos décadas atrás. Em 2007, os cientistas decidiram reformular o conceito do Relógio do Juízo Final para incorporar outros perigos iminentes ao futuro da humanidade. A bomba atômica foi só o começo, mas agora temos também de lidar com coisas potencialmente devastadoras, como a mudança climática e o surgimento de novas tecnologias perigosas. Há outros “gênios” prestes a sair da garrafa pelas mãos dos cientistas, como veremos daqui a pouco.

Resultado: até hoje não temos grandes acordos internacionais para combater o aquecimento global, e americanos e russos estão conduzindo um processo de modernização de suas armas nucleares. Isso sem falar no problema crescente do lixo nuclear, que pode acabar caindo em mãos erradas e permitindo o desenvolvimento de armas atômicas por grupos terroristas. O Relógio do Juizo Final voltou a ser reajustado em 2015. Agora, ele marca 3 minutos para a meia-noite.

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